Escritor indígena recebe prêmio de literatura infantojuvenil

FONTE: Hypeness, Fundação Bunge

Desde 2008, a lei exige que as escolas brasileiras incluam em seu currículo a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. O cumprimento da norma, no entanto, ainda é um entrave, visto que há poucos professores realmente preparados para abordar o assunto.

Em muitos casos, os docentes apenas repetem conteúdos sobre os quais já ouviram, se tornando intermediários de um discurso que, por vezes, é repleto de estereótipos. Não seria interessante se, ao invés disso, crianças e adolescentes pudessem estudar sobre a cultura indígena através de livros escritos por pessoas destas etnias?

Daniel Munduruku é um destes autores que despontam na literatura infantojuvenil. Nascido em Belém, Pará, na etnia Munduruku, ele acaba de receber o prêmio Vida e Obra, na categoria , cul Letras: Literatura Infantojuvenil, da Fundação Bunge.

A premiação existe desde 1955 e já consagrou nomes como Jorge Amado e Hilda Hist. Daniel é o mais recente agraciado com o prêmio, no valor de R$ 150 mil. Este não é o único título acumulado por ele: formado em filosofia e com doutorado e pós-doutorado em educação, Daniel é autor de mais de 50 livros que retratam a cultura indígena, tendo recebido também os prêmios Jabuti, em 2017, e Tolerância.

“Escrevo pensando que estou prestando um serviço à sociedade brasileira, que é tão plural, mas que muitas vezes não vê essa pluralidade como algo positivo.”

Quando se mudou para São Paulo, em 1987, o munduruku Kabadarebu sentiria pela primeira vez, aos 23 anos, o menosprezo dos brasileiros pelos próprios povos nativos. Até então, Daniel, nome pelo qual é conhecido fora de seu povo, havia se dividido entre a cidade de Belém (PA), onde nasceu, a aldeia Munduruku onde cresceu e frequentou a escola e a cidade de Manaus (AM), onde iniciou a carreira acadêmica no curso de Filosofia, antes de deixar o Norte numa mudança sem volta. Foi apenas ao chegar a São Paulo para dar sequência aos estudos universitários, porém, que o abismo que separa indígenas dos demais brasileiros se fez patente.

“Minha primeira passagem pela academia foi muito tranquila, porque Manaus está cheia de indígenas estudando e participando da sociedade local. Em São Paulo, sim, as pessoas diziam que eu estava no lugar errado, porque vinha de uma tradição oral, e a oralidade era incompatível com o pensamento acadêmico”, diz Daniel. “Eu, embora ouvisse tudo com certa tranquilidade, também sentia antipatia por esse tipo de discurso, que se acha no direito de julgar e de condenar e de definir quem pode, quem não pode, quem deve, quem não deve”.

Não à toa, o “pertencimento”, como diz, é o principal tema da obra de Daniel Munduruku, 54 anos, filósofo com licenciatura em História e Psicologia, doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que há 22 anos se dedica a escrever livros e ministrar palestras para quebrar, na mente de crianças e adolescentes brasileiros, estigmas sedimentados em torno dos povos indígenas. Hoje afastado das salas de Ensino Médio, onde deu aulas por 15 anos, Daniel já conta com 52 livros lançados desde Histórias de Índio, editado em 1996 pela Companhia das Letrinhas, e prêmios como o Jabuti, o Melhor Livro Infantil (Academia Brasileira de Letras), o Érico Vanucci Mendes (CNPq) e o Tolerância (Unesco), além do selo Altamente Recomendável (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).

Nas muitas páginas que publicou, figuram contos que ouviu dos Munduruku mais velhos – como As serpentes que roubaram a noite (ed. Peirópolis) – e histórias que criou para atender a uma demanda que ele enxerga, no restante da sociedade, por valores ainda vigentes entre os povos nativos. O livro O menino e o pardal (ed. Callis), por exemplo, fala às crianças sobre liberdade, valor caro ao povo Munduruku, e sobre a relação do homem com a natureza.

“Nós, indígenas, vemos a natureza como parte de nós. Ela está integrada ao nosso ser e nós estamos integrados ao ser dela. Ela não é melhor que nós. É maior, talvez. Mais antiga, sim. Mas ela não é melhor do que nós e nós não somos melhores do que ela. Somos parceiros de caminhada. Por isso, respeitamos a natureza como quem respeita um parente, uma entidade, um ser que está aí junto com a gente”.

Para Daniel, a sensação de pertencimento à natureza foi se perdendo entre os brasileiros devido à pressão por crescimento, desenvolvimento e enriquecimento. “O não-indígena se afastou da natureza e perdeu a sua essência, a sua raiz, a sua ancestralidade. Tenho impressão de que meu trabalho é chamar a atenção do brasileiro para esse ponto”.

Apesar do diferencial de sua obra, porém, Daniel não teve acolhida fácil no mercado editorial. “Eu fiz o caminho que todos os escritores fazem, que é escrever, acreditar no que escreve, mandar para as editoras e saber aceitar ‘não’, como efetivamente aconteceu. Meu primeiro livro, eu mandei para cerca de cinco editoras. Apenas a Companhia das Letras aceitou publicar, e esse ‘sim’ foi suficiente para eu acreditar que o que eu escrevia tinha algum valor. Se não valor literário, pelo menos um valor educativo”, diz Daniel, que vê na literatura nativa – gênero que hoje congrega cerca de trinta autores indígenas – um meio de dar voz à pluralidade do País.

Pluralidade que, ele ressalta, existe também entre os povos indígenas, nações que costumam ser agregadas sob o homogeneizante termo “índio”, que o escritor renega, ao lado do “Dia do Índio”. “Não é uma palavra honesta. Quando a gente fala ‘índio’, esconde a diversidade brasileira. O Brasil tem 305 povos indígenas. Por aqui, são faladas 274 línguas. Quando a gente chama alguém de índio, perde a oportunidade de compreender a singularidade daquela pessoa, daquele grupo. Então, quando alguém me chama de índio, eu sempre retruco: ‘Eu não sou índio. Sou Munduruku’”.

Para Daniel – que atualmente dirige uma entidade voltada à preservação e difusão de conhecimentos nativos, o Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais –, em Lorena (SP), cidade onde mora, a 179 quilômetros da capital paulista, o termo “índio” não apenas homogeneiza como é redutivo. “A ideia romântica que muitas vezes se faz das populações indígenas destrói a humanidade desses grupos. É importante, para a gente se tornar cidadão, que se respeite o outro tal como ele é, não como a gente gostaria que o outro fosse, porque senão vira imposição, vira violência, colonialismo. E disso a gente já está farto, não é?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *