da Redação

Em uma eleição dominada pelas pautas da crise econômica e pandemia, políticos indígenas e quilombolas mostram a força de uma mensagem pacificadora, de resistência e resiliência frente às dificuldades que enfrentam, como as demarcações e respeito aos seus direitos

A comunidade de Pesqueira-PE viveu um momento muito importante e emblemático na história das eleições no Brasil na noite deste domingo, dia 15. Centenas de pessoas foram às ruas da cidade comemorar a eleição do cacique Marquinhos Xukuru, do Republicanos, primeiro indígena a ser eleito prefeito na cidade localizada no Vale do Ipojuca, no agreste do estado. Cacique Marquinhos recebeu o apoio de diversas lideranças durante sua campanha.

Mas o cacique não está só nesse momento eleitoral. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em todo o país foram 2.215 candidatos indígenas nas eleições deste ano; em 2016, foram registradas 1.175 candidaturas. Um crescimento de 88,5% para as eleições municipais anteriores.

Cacique Marquinhos Xukuru (Republicanos). Foto: Brasil 247

Os números evidenciam o maior engajamento de indígenas em busca de acesso a cargos eletivos, um movimento que vem crescendo no Brasil desde 1982, ano em que o primeiro índio foi eleito deputado federal no Brasil: o cacique Xavante Mário Juruna. O resultado dessa eleição foi fundamental para o crescimento do movimento indígena, que contribuiu com dois importantes artigos na Constituição Federal de 1988, os artigos 231 e 232, correspondentes ao Capítulo VIII, “Dos Índios”, entre outras colaborações sobre a temática.

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O Brasil somente voltaria a ter outro indígena no Congresso Nacional a partir de 2018, com a eleição da advogada Joênia Wapichana como deputada federal.

A forte presença dos indígenas nas urnas representa um contraponto a violências sofridas ao longo do tempo, e que nascem muitas vezes no campo político-partidário. Torna-se, assim, estratégico e necessário para as comunidades a ocupação das cadeiras eletivas.

Entre as principais pautas defendidas pelos indígenas eleitos, estão a demarcação das terras indígenas e o reconhecimento dos seus direitos e da sua própria existência.


A força do quilombolas nas urnas

O quilombola Vilmar Kalunga foi eleito prefeito de Cavalcante, GO. Foto: G1

Cavalcante, em Goiás, foi também reduto de uma conquista histórica. Vilmar Souza Costa, conhecido como Vilmar Kalunga, será o primeiro prefeito quilombola da cidade. Vilmar Kalunga se tornou conhecido após atuar pela demarcação do território Kalunga, maior comunidade de remanescentes de quilombolas do Brasil.

Neste pleito, cerca de 500 outros candidatos quilombolas disputaram cargos eletivos em todo o país. O número representa um aumento de 40% em relação ao pleito de 2016. Foram eleitos 55 em 2020, sendo: 1 prefeito, 1 vice-prefeito e 54 vereadores. 

Os quilombolas, junto aos indígenas e campesinos, são herdeiros das lutas pelo direito à terra e, com ela, a luta pelo acesso às políticas públicas que deveriam ser estendidas a todos os brasileiros, além de serem guardiões da cultura negra. 

Infelizmente, a representação quilombola nos espaços políticos ainda é pequena, frente aos números da população total remanescente de quilombos existente no Brasil. O que só demonstra a importância, e a responsabilidade, da presença desses povos tradicionais na disputa eleitoral. 

Os quilombolas eleitos têm como pautas comuns entre si as áreas da educação, saúde e cultura. Embora o foco esteja sobre as suas comunidades de origem, eles pretendem reforçar nos municípios propostas que visam a melhoria de toda a cidade.

Eleição 2020 aponta para crescimento pautas identitárias

Carol Dartora, do PT. Foto: Brasil 247

A campanha deste ano foi marcada pela força da mensagem do voto em mulheres, negros, indígenas e minorias e aumento da representatividade na política. A cidade de São Paulo, que serve como termômetro eleitoral, elegeu duas pessoas trans, uma vereadora travesti, vários coletivos de candidatos e o maior número de pessoas negras da história. 

A eleição de mandatos coletivos, que já começou há dois anos, ganhou força, mostrando que é necessário que a lei eleitoral passe a contemplar essa realidade (hoje, o mandato pode ser coletivo, mas para efeitos práticos apenas um integrante é considerado parlamentar). 

Dois exemplos emblemáticos desta eleição é o coletivo Quilombo Periférico, São Paulo, e a Coletiva Bem Viver, Florianópolis, que trabalha a pauta feminista e agroecológica e tem entre suas integrantes, a indígena Jozileira Kaingang.

Também vale registrar o acontecimento histórico em Curitiba-PR, onde a historiadora e ativista Ana Carolina Dartora, foi eleita como a primeira mulher negra vereadora da cidade. A candidata foi a terceira mais bem votada na capital do Paraná.

Ao ampliar a diversidade no parlamento, reduzem-se as desigualdades sociais existentes no Brasil. As histórias do ‘país que não está no retrato’ começam a sair da imaginação e aparece como um projeto que vem sendo trabalhado, avançando a cada dia um pouco mais. Afinal, a falta de conhecimento sobre a própria história gera uma nação que não se reconhece como protagonista de suas ações. Isso está mudando, para o bem do país.

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