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Áudios comprovam que pastor assumiu área sensível da FUNAI para converter índios isolados

FONTE: Intercept

UMA CONVERSA GRAVADA entregue ao Intercept por uma fonte que pediu para não ser identificada revela que missionários evangélicos trabalharam pela nomeação de alguém com o perfil do pastor Ricardo Lopes Dias para a área que cuida de índios isolados da Funai. O áudio mostra também que o objetivo do grupo é converter os indígenas ao cristianismo.
No áudio, o antropólogo e evangélico Edward Mantoanelli Luz diz o seguinte:

“Nós vamos colocar um novo presidente na CGIIRC, nós acabamos de indicar uma nova pessoa para a CGIIRC, acho que você já deve ter lido e nós vamos formalmente mudar essa política porque nós acreditamos que, por mais inteligente que ela tenha sido até agora, ela permite manipulações, nós desconfiamos de manipulações”.

Mantoanelli Luz assume na conversa que fez lobby para que alguém alinhado com sua religião assumisse a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai. A política que ele diz que irá “formalmente mudar” é a que impede a ação de missionários em terras de indígenas isolados, em respeito ao princípio de autodeterminação dos povos – previsto na Constituição.
Na prática, a política vigente nas últimas décadas impedia que padres, pastores e outros religiosos entrassem em contato com os indígenas na tentativa de convertê-los a suas fés.
O antropólogo é filho do presidente da Missão Novas Tribos do Brasil, a MNTB, o pastor Edward Gomes da Luz. A MNTB é uma corrente evangélica norte-americana que agencia missionários para pregar, construir igrejas e converter povos indígenas de recente contato, falantes de línguas nativas.
A Novas Tribos já foi expulsa pela Funai das terras do povo Zo’é em 1991, acusada de impor a doutrina cristã e espalhar doenças. Em 2015, a corrente foi denunciada pelo Ministério Público Federal de se aliar com exploradores de castanha-do-pará que escravizavam indígenas.
Ministério Público diz desrespeito à autodeterminação de índios isolados produz ‘risco de etnocídio e genocídio dos povos indígenas’.
Nomeado em 5 de fevereiro, Lopes Dias é antropólogo e trabalhou formalmente de 1997 a 2007 na Novas Tribos, atuando na evangelização do povo indígena Matsés, no Vale do Javari, Amazonas. À BBC, ele disse não ter mais vínculos com a Novas Tribos.
A conversa em que Mantoanelli Luz se congratula pela nomeação de Lopes Dias consta na ação civil pública que o Ministério Público Federal apresentou à justiça na terça, 11 de fevereiro, pedindo que a nomeação seja suspensa, e a portaria que permitiu sua indicação, revogada. Até a edição da portaria, cargos como o dele só poderiam ser ocupados por servidores de carreira da Funai.
Segundo o MPF, há “nítido conflito de interesses e desvio de finalidade, com riscos à política de não contato e de respeito à autodeterminação dos povos indígenas isolados ou de recente contato”. Com grifos, o MPF aponta “risco de etnocídio e genocídio dos povos indígenas” com a nomeação. Procurada pelo Intercept, a Funai informou que a posse de Lopes Dias obedeceu as regras para cargos em comissão e que acionou a Advocacia-Geral da União para defender a nomeação dele.
artigo 231 da Constituição Federal proíbe a evangelização dos indígenas e diz que é dever da União demarcar as terras deles, além de “proteger e fazer respeitar todos os seus bens. Mas, no áudio, Mantoanelli diz não entender o que chama de “resgate da tradição” indígena e, aparentemente, debocha do risco de morte que doenças simples podem trazer a povos isolados que entrem em contato com servidores ou missionários:
“Falam em respeitar as tradições deles. O Brasil tem uma tradição engraçada de expandir a sua área, a gente poderia resgatar essa tradição. Alguém avisou aos vírus e bactérias que eles são isolados? Por que o contato não pode ser mediado pelo governo?”
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Edward Mantoanelli Luz trabalhou para colocar gente alinhada para cuidar de índios isolados e “formalmente mudar essa política” que impede a conversão religiosa deles.

Procuramos Mantoanelli Luz, que confirmou ter trabalhado para nomear o coordenador de Índios Isolados e de Recente Contato, mas disse que preferia um militar. Ainda assim, fez elogios a Lopes Dias e disse que representa “setores da cristandade brasileira, católicos, evangélicos e protestantes” e que não concorda com a “política ultrapassada indigenista em voga hoje”.
Em seu currículo no sistema Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Mantoanelli Luz afirma ser sociólogo e mestre em antropologia. Em 2013, porém, a Associação Brasileira de Antropologia, a ABA, expulsou-o do quadro de associados, alegando não corroborar com suas afirmações “equivocadas e reducionistas, inteiramente desprovidas de rigor e embasamento científico”.
Hoje, além de professor da Unievangélica, um centro universitário privado localizado em Anápolis, Goiás, ele se intitula “antropólogo-consultor” para “atender as (sic) crescentes demandas de laudos e pareceres antropológicos isentos, profissionais e confiáveis”, conforme o Lattes.

Na plataforma Lattes, o antropólogo, expulso pelos pares da associação da categoria, anuncia que fornece “laudos e pareceres isentos”.

Em 2014, um laudo de Mantoanelli Luz foi usado como base de uma sentença que não reconheceu terras indígenas no baixo rio Tapajós, no Pará, e gerou protestos. Indígenas o chamaram de “falso antropólogo”, e a ABA se manifestou contra a decisão alertando que o antropólogo que a embasara não era reconhecido como tal por seus pares.
Segundo o parecer sobre a sentença feito por um dos mais renomados antropólogos brasileiros, Eduardo Viveiros de Castro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mantoanelli Luz elaborou seu contralaudo a pedido da Associação das Comunidades Unidas dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Mar, a Acutarm. É uma “entidade que funciona como testa-de-ferro dos grandes empresários madeireiros que atuam na região e que serviu de apoiadora das associações comunitárias que moveram ação contra os Borari-Arapium”, povos do baixo Rio Tapajós, esclareceu Viveiros de Castro. Mantoanelli Luz sustentou não haver índios na região, mas ribeirinhos.
Em sua defesa, Mantoanelli Luz afirmou no Twitter, à época: “todas, todas as teses q defendi foram sustentadas e defendidas pelo Juiz Portela!!” (sic) – como se a canetada de um juiz pudesse eximi-lo de erros científicos.
Nos últimos meses, Mantoanelli Luz tornou-se um crítico do atual presidente da Funai, o delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier, nas redes sociais, junto de Ysani Kalapalo, a youtuber indígena de direita que Jair Bolsonaro levou à ONU. Em novembro, ele invadiu o encontro Amazônia Centro do Mundo, organizado em defesa dos povos da floresta, junto com fazendeiros, e declarou à Agência Pública ser consultor da Federação da Agricultura e Agropecuária do Pará, Faepa.

“Eu também fiquei muito feliz, mas me enganei assim como muitos aí”

Edward Luz. Antropólogo & Consultor Parlamentar.
Respondendo a @ysanikalapalo @PresidenteFunai

“Em Junho de 2019 eu fui o primeiro e um dos únicos analistas sociais a celebrar a indicação do do Dr. Marcelo Xavier para @PresidenteFunai. Aplaudi a iniciativa certo de que sua indicação seria um marco no combate à hegemonia ONGueira e esquerdista dentro do órgão indigenista.”

“O @PresidenteFunai até tem boa vontade e está tentando de forma desastrada assumir importantes decisões. Depois d 3 meses ficou claro q sua melhor habilidade, fruto d anos como Delegado da PF é mesmo perseguir pessoas, ainda que sejam importantes aliados do atual Governo. Triste!”

“ou ainda 2) Incapaz de sentar e estabelecer alianças com lideranças indígenas, o atual @PresidenteFUNAI inaugura nova linha de atuação política, prometendo “interpelar judicialmente” @ysanikalapalo para que a justiça converse. Não. Muito non sense e inacreditável né!?!”

Índio tutelado por presidentezeco de órgão indigenista, isso não mais!

Ver imagem no Twitter

‘Nós vamos voltar aos Zo’é’

Entrevistamos Edward Gomes da Luz, o pai de Mantoanelli, em 2011, durante o 11º Congresso Brasileiro de Missões, organizado pela Associação das Missões Transculturais do Brasil, a AMTB. À época, ele foi contundente sobre a intenção de retomar o trabalho de catequização dos Zo’é, dando de ombros ao impedimento legal e constitucional:

“Nós vamos voltar para os Zo’é. Não sei como, mas nós vamos voltar”.

Em seguida, reforçou:

“A pessoa ou vai ajoelhar voluntariamente, adorando [ao deus cristão] , ou vai ajoelhar obrigatoriamente, temendo [ao deus cristão]”.

Gomes da Luz também argumentou que a Novas Tribos têm “relação de vida” com os Zo’é e chamou a política de respeito à autodeterminação dos povos a uma obsessão da “antropologia de manter os índios numa bolha”.
Em 1991, a Novas Tribos foi expulsa das terras do povo Zo’é, que vive na calha norte do Pará (a região entre o rio Amazonas e a fronteira norte do país com Venezuela, Guianas e Suriname). Os missionários foram acusados pela Funai de organizar um contato forçado para evangelização que resultou em mortes de indígenas por gripe e malária.
Douglas Rodrigues, médico professor da Unifesp e coordenador do programa Xingu de Saúde Indígena, visitou a área na época junto com colegas da ONG Saúde e Alegria. Ao chegar ao local, encontrou indígenas doentes e uma missão, liderada pelo pastor Gomes da Luz, que pregava o cristianismo para a tribo. Os missionários sequer haviam vacinado os indígenas e não tinham qualquer experiência no contato com povos isolados nem tomavam os devidos cuidados sanitários.
A situação presenciada por Rodrigues foi corroborada por outros médicos, antropólogos e sertanistas, que recomendaram a expulsão dos missionários à Funai. O órgão retirou-os da área e colocou em prática um programa liderado pelo sertanista Sydney Possuelo para recuperar a cultura e a saúde do povo Zo’é.
O episódio também acarretou o cancelamento de todos os convênios da Funai com missões evangelizadoras, desde então proibidas de entrar em terras indígenas. Os Zo’é, hoje, são pouco mais de 300 pessoas. Ainda assim, estão entre os grupos mais visados pelos missionários.
Mesmo depois de serem retirados, missionários seguiram tentando invadir a área, chegando a ser expulsos e até presos em diversos episódios registrados ainda nos anos 1990 e nos últimos anos.
Em 2007, outra missão de origem norte-americana, a Jovens com uma Missão, também conhecida por Jocum, foi expulsa por ordem judicial das terras do povo Suruwahá, no Amazonas, acusada de praticar diversos crimes, como escravizar indígenas, contrabando de sementes e extração ilegal de sangue, entre outros. Mas, nesta semana, 13 anos depois de ser retirada à força da tribo, a Jocum foi anunciada pela ministra Damares Alves como integrante da comitiva que irá visitar os suruwahás para “sanar uma crise de saúde mental”.
A nomeação de um pastor missionário decorre do movimento de “tsunami evangélico” iniciado com posse de Damares Alves para o ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. A ministra participou da fundação da organização evangélica Atini – Voz Pela Vida, que acusa indígenas de ser praticantes contumazes infanticídio. A Atini também foi denunciada pelo MPF de sequestrar e traficar crianças das aldeias, dizendo que iriam salvá-las, além de promover o ódio contra indígenas na sociedade.
Os missionários que agora comandam a coordenação mais delicada da Funai são tidos por indigenistas como mais fundamentalistas do que os evangélicos que recentemente ocuparam a presidência da entidade no governo Michel Temer, como o pastor Antônio Toninho Costa e o general da reserva Franklimberg Ribeiro de Freitas, um dos líderes da bancada evangélica. Ambos tinham trânsito no Congresso e apoio do Partido Social Cristão, o PSC, legenda dominada por evangélicos.
Mas Costa e Freitas acabaram derrubados devido a conflitos com ruralistas. Em 2017, após quatro meses no cargo, Costa disparou que “ruralistas tomaram controle da Funai” e que mudanças na política para isolados e o enfraquecimento das frentes de proteção os colocariam em risco de “catástrofe internacional”.
Wallace Moreira Bastos, que presidiu a Funai entre maio de 2018 a janeiro de 2019, caiu após embate com o ministro Paulo Guedes para contratação de novos servidores – e também por sofrer oposição da ministra Damares Alves.

Ouça os aúdios na matéria do Intercept

OS DESMATADORES

FONTE: The Intercept
Bilionários, políticos, paulistas, estrangeiros, reincidentes contumazes: aqui estão os 25 maiores destruidores da Amazônia
“O PIOR INIMIGO DO MEIO AMBIENTE É A POBREZA”, sentenciou o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante uma apresentação no Fórum Econômico Mundial em janeiro. “As pessoas destroem o ambiente porque precisam comer”, ele disse, em Davos, na Suíça. É mentira – e a gente pode provar com números. Durante meses, nos debruçamos sobre 284.235 multas por desmatamento nos últimos 25 anos. E descobrimos que os maiores destruidores do meio ambiente – principalmente da Amazônia – não são os pobres. São algumas das pessoas mais ricas e poderosas do Brasil.

Dados públicos do Ibama, o órgão do governo federal responsável pela preservação do meio ambiente, compilados e analisados pelo De Olho nos Ruralistas, mostram que os 25 maiores desmatadores da história recente do país são grandes empresas, estrangeiros, políticos, uma empresa ligada a um banqueiro, frequentadores de colunas sociais no Sudeste e três exploradores de trabalho escravo.
Os 25 maiores desmatadores somaram mais de R$ 50 milhões em multas entre 1995 e 2019. No total, suas centenas de autuações chegam a R$ 3,58 bilhões, praticamente o orçamento do Ministério do Meio Ambiente inteiro para 2020. Corrigido, o valor chegaria a R$ 6,3 bilhões. Sozinhos, os campeões da destruição são responsáveis por quase 10% do total de multas aplicadas por devastação de flora desde 1995 – R$ 34,8 bilhões.
A imensa maioria deles jamais pagou suas multas e acumula outras dívidas com o poder público. Os valores, que são proporcionais à área desmatada, mostram que quem destrói a floresta não são as pessoas pobres, como defende Paulo Guedes, e que o desmatamento não é ‘cultural’, como diz Bolsonaro. A destruição é movida a dinheiro – muito dinheiro – e uma boa dose de impunidade.

DEVO, NÃO PAGO, VOLTO A DESMATAR

levantamento, feito a partir das autuações por crimes contra a flora – há outros tipos de multas no Ibama –, abrange dois grandes grupos: as pessoas físicas e jurídicas que participaram de desmatamentos e aquelas que se beneficiaram diretamente de produto vindo de área desmatada, como na compra de madeira sem certificação de origem. A enorme base de dados foi analisada a partir dos infratores que tiveram multas acima de R$ 1 milhão. Somando os valores, chegamos aos maiores multados dos últimos 25 anos.

O valor base da multa na região da Amazônia Legal é de R$ 5 mil por hectare. As multas podem ser maiores quando há no lugar espécies raras ou ameaçadas de extinção ou no caso de áreas de reserva ou proteção permanente. Boa parte das multas recebidas pelos recordistas se encaixa nesses agravantes.
Na lista, chama a atenção a repetição de nomes. Dos 25 campeões de infrações por desmatamento do país, só um – Agropecuária Vitória Régia – recebeu uma única multa. Os outros 24 foram reincidentes. Uma das empresas que aparecem no ranking, a Cosipar, levou multas em nada menos do que 16 anos diferentes. O valor chega a R$ 156,9 milhões – destes, R$ 155 milhões ainda não foram pagos.

GRILEIROS, BILIONÁRIOS E CONDENADOS

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No ranking, o campeão das multas é o Incra, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, órgão federal responsável pelo assentamento de camponeses. Mas isso não significa que os assentados tenham sido os responsáveis pelo desmatamento: muitos locais onde foram aplicadas as multas já não são, de fato, assentamentos. Eles são focos de grilagem de terras como São Félix do Xingu, no sul do Pará: das 15 multas milionárias recebidas pelo Incra em 2012, 12 foram aplicadas no município, capital da pecuária em terras do governo federal. Como a terra não tem um dono oficial, a culpa recai sobre o órgão federal que detém sua posse.
Em segundo lugar no ranking está a Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, empresa dos fundos de investimentos geridos pelo banco Opportunity, de Daniel Dantas. A empresa, comandada pelo ex-cunhado de Dantas, Carlos Rodenburg, acumula multas de mais de R$ 325 milhões.
Em 2009, a AgroSB, como é conhecida, declarava ser dona de mais de 500 mil hectares de terra, onde eram criadas mais de 500 mil cabeças de gado. À justiça, a empresa disse que não cometia desmatamento, mas que adquiriu áreas já degradadas. O argumento foi rejeitado, e a empresa voltou a ser autuada, em valores milionários, em 2010, 2011 e 2017. Não foi o único problema: em 2012, pessoas em condições análogas à escravidão foram resgatadas na fazenda.
Atualmente, a agropecuária tem dez áreas embargadas pelo Ibama para recuperação da vegetação, em Santana do Araguaia, no Pará, e São Félix do Xingu. A maior delas tem mais de 2,3 mil hectares, um território do tamanho de metade da Floresta da Tijuca, na Amazônia. Em nota ao Intercept, a AgroSB atribui diversas multas à uma “perseguição direcionada à companhia” entre 2008 e 2010. Segundo a empresa, essas multas, em sua maioria, “vêm sendo cancelados pela Justiça e pelo órgão ambiental em razão da falta de fundamentos fáticos ou jurídicos”. Segundo AgroSB, o valor das multas canceladas chega a R$ 20 milhões.
Daniel Dantas também tem mais um nome ligado a ele na lista: o fazendeiro Tarley Helvecio Alves, que ocupa a 18ª posição. Alves foi administrador da fazenda Caracol, de propriedade de Verônica Dantas, irmã e sócia de Daniel no banco Opportunity. Com três áreas embargadas em Cumaru do Norte, também no Pará, as multas dele chegam a R$ 70 milhões.
Antonio José Junqueira Vilela Filho, o terceiro da lista, é conhecido no Intercept. Em 2017, contamos como o pecuarista e sua família, frequentadores de colunas sociais em São Paulo, foram denunciados pelo Ministério Público Federal por grilagem de terras e exploração de trabalho escravo na região de Altamira, no Pará.

ENTRE MULTAS E VOTOS

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ranking mostra que as multas não são suficientes para frear os crimes ambientais. Preso em 2014 pela Operação Castanheira, realizada pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, o fazendeiro Giovany Marcelino Pascoal foi condenado por desmatamento em 2018. Não adiantou: ele voltou a ser multado pelo Ibama em 2019. Pascoal, o segundo maior reincidente da lista, atua na região de Novo Progresso, onde foi organizado em agosto passado o Dia do Fogo, ação de desmatadores em defesa do governo Bolsonaro. Desde 2010, ele aparece oito vezes nas listas daqueles com multas anuais acima de R$ 1 milhão. Ao Intercept, Pascoal disse por telefone que está recorrendo e que algumas multas não são responsabilidade dele, mas não especificou quais.
Outro nome da lista é velho conhecido no rol dos reincidentes em desmatamento na Amazônia. O fazendeiro Laudelino Delio Fernandes Neto, dono da Agropecuária Vitória Régia (a nona no ranking), chegou a ser acusado de ter facilitado a fuga de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, apontado como mandante do assassinato da missionária católica Dorothy Stang em Anapu, no Pará, em 2005. Ele ainda foi denunciado pelo Ministério Público Federal por desvios de mais de R$ 7 milhões da Sudam, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia.
Vice-prefeito de Anapu, eleito em 2008, e candidato a prefeito no município em 2012, Delio Fernandes declarou ao Tribunal Superior Eleitoral possuir R$ 10,2 milhões em bens, sendo R$ 9 milhões relativos a 9 mil hectares em Anapu e Senador José Porfírio. Seu irmão, Silvério Albano Fernandes, foi vice-prefeito de Altamira e teve seu nome especulado para assumir a chefia do Incra na região no governo Bolsonaro, para o qual fez campanha.
Delio Fernandes não é o único político da lista. Entre os 25 maiores desmatadores, há o ex-deputado federal Antonio Dourado Cavalcanti. Deputado entre as décadas de 1950 e 1970, ele era líder do grupo do qual fazia parte a Destilaria Gameleira, com sede em Mato Grosso. A usina condenada por manter mais de mil escravos – o maior resgate de trabalhadores em condições análogas à escravidão dos últimos anos – também está no ranking. Com R$ 69 milhões em multas, ela ocupa a 19ª posição.
Na lista de políticos, o ranking também tem José de Castro Aguiar Filho, atual prefeito de Flora Rica, no oeste paulista, pelo MDB. Suas multas milionárias em São José do Xingu, no Mato Grosso, não o impediram de ganhar as eleições na pequena cidade com quase 80% dos votos válidos.

SIDERÚRGICAS DESTROEM MAIS DO QUE MADEIREIRAS

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Entre os 25 maiores destruidores, 13 são empresas. Onze delas têm capital aberto, listadas na Bovespa. Se engana quem pensa que madeireiras e carvoarias são as vilãs: as empresas que mais desmatam são, em sua maioria, ligadas à siderurgia e à agropecuária.
Siderúrgicas são listadas porque se beneficiam diretamente da retirada de madeira para o uso do carvão. Para elas, apesar das multas – que geralmente não são pagas –, sai mais barato comprar madeira oriunda de áreas protegidas do que respeitar os devidos ritos legais de proteção ambiental. A Siderúrgica Norte Brasil S/A e a Sidepar ocupam, respectivamente, a terceira e a quarta posições no ranking, e, juntas, acumulam mais de R$ 500 milhões em multas.
O setor agropecuário é representado não apenas pela pecuária, mas também por causa da produção de soja em larga escala. Também é comum que o mesmo empresário tenha uma madeireira e uma empresa de grãos, ou crie gado e, ao mesmo tempo, tenha uma companhia de outro setor – de bancos a empreiteiras.
Duas das empresas listadas têm capital internacional. Uma é a Ibérica, uma sociedade entre empresários bascos. A outra é a Gethal Amazonas Madeiras Compensadas, controlada pelo milionário sueco Johan Eliasch e que tem uma empresa uruguaia entre seus sócios.
A Gethal é a única do setor de madeiras na lista dos 25 – contrariando o senso comum sobre o desmatamento na Amazônia. Assim como só há uma do setor de carvão, matéria-prima das siderúrgicas, a Líder. A constante alteração de nomes e CNPJs das empresas dos dois setores, com sócios em comum, diminui a reincidência em multas ao longo dos anos.

MAIORES DESTRUIDORES, MAIORES CALOTEIROS

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Aatual legislação ambiental brasileira, que determina as multas, só foi consolidada no fim dos anos 1990. Na década anterior, só há dez autuações por crimes contra a flora nos registros do Ibama. E os valores eram irrisórios: em 1996, por exemplo, foram aplicadas 22 multas de R$ 0,01. O cenário começou a mudar em 1998, com a lei 9.605, de crimes ambientais, que estipulou regras e valores maiores em multas para destruidores da floresta.
Os números mostram que, ao longo das duas décadas de aplicação da lei, ela afetou principalmente grandes desmatadores. De um total de R$ 34 bilhões em multas por destruição de flora entre 1995 e 2000, R$ 25 bilhões (73,5%) foram aplicados a 4,6 mil pessoas físicas e jurídicas que, em pelo menos um ano do período analisado, tiveram infrações somadas acima de R$ 1 milhão.
As sanções, no entanto, não significam que a punição resolve o problema. O Intercept já mostrou que, do total de R$ 75 billhões em multas ambientais já aplicadas desde os anos 1980, só 3,3% foram efetivamente pagos (e o governo tem tomado medidas para receber ainda menos). O valor poderia sustentar o Ministério do Meio Ambiente inteiro por 21 anos.
Os pequenos infratores – que o governo insiste em culpar pela destruição do meio ambiente – são os que mais pagam multas. Já os maiores, responsáveis pela destruição das partes mais extensas da floresta, deixam os processos prescreverem e continuam desmatando.
O Intercept tentou entrar em contato com os 25 listados por meio do número de telefone listado na Receita Federal. Os dois números da Destilaria Gameleira não funcionam. A página cadastral da empresa de Jeovah Lago Silva, Minuano Sementes, não dispõe de meio de contato. Carlos Alberto Mafra Terra foi contatado por telefone e e-mail, sem sucesso. A Líder Ind e Com de Carvão Vegetal LTDA EPP foi contatada por meio de um e-mail no diretório da Receita Federal, mas a mensagem retornou. Paulo Diniz Cabral da Silva foi contatado por e-mail e WhatsApp, mas não houve resposta. Os telefones de José de Castro Aguiar Filho e Tarley Helvecio Alves, listados na Receita Federal, não funcionam.
Veja a lista completa dos 25 desmatadores mais multados entre 1995 e 2020:
1º – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – R$ 421 mi
2º – Agropecuária Santa Bárbara – R$ 323 mi
3º – Antonio Jose Junqueira Vilela Filho – R$ 280 mi
4º – Siderúrgica Norte Brasil S/A – R$ 272 mi
5º – Sidepar Siderúrgica do Pará S.A. – R$ 258 mi
6º – Gethal-Amazonas S.A. Indústria de Madeira Compensada – R$ 231 mi
7º – Gusa Nordeste S.A. – R$ 202 mi
8º – Agropecuária Vitória Régia S/A – R$ 170 mi
9º – Companhia Siderúrgica do Pará – COSIPAR – R$ 157 mi
10º – José Alves de Oliveira – R$ 105 mi
11º – José Carlos Ramos Rodrigues – R$ 101 mi
12º – Fernando Luiz Quagliato – R$ 100 mi
13º – Gilmar Texeira – R$ 99 mi
14º – Hamex Comércio de Produtos Alimentícios Ltda – R$ 94 mi
15º – USIMAR – Usina Siderúrgica de Marabá S/A – R$ 88 mi
16º – Siderurgica Iberica S/A – R$ 87 mi
17º – Giovany Marcelino Pascoal – R$ 86 mi
18º – Tarley Helvecio Alves – R$ 70 mi
19º – Destilaria Gameleira Sociedade Anônima – R$ 69 mi
20º – Carlos Alberto Mafra Terra – R$ 66 mi
21º – Jose de Castro Aguiar Filho – R$ 61,8 mi
22º – Lider Ind. e Com. de Carvão Vegetal Ltda EPP – R$ 61,5 mi
23º – Paulo Diniz Cabral da Silva – R$ 61,1 mi
24º – Siderúrgica Alterosa S/A – R$ 60 mi
25º – Jeovah Lago da Silva – R$ 58 mi
Ilustração: Amanda Miranda/The Intercept Brasil