SEMANA DA CULTURA NORDESTINA: um salve da CONAFER aos milhões de produtores desta imensa riqueza cultural

da Redação

88% dos produtores nordestinos são agricultores familiares, mais da metade dos pequenos produtores de todo o país. Gente que produz toda a diversidade de culturas, das mais diferentes expressões artísticas à rica produção de alimentos: o artesanato e o maracatu das comunidades tradicionais, as danças dos povos originários, o amplo cardápio que compõe a saborosa culinária, o baião de dois, o acarajé, o sarapatel, a canjica, o feijão de corda, o arroz de coco; uma deliciosa fruticultura reconhecida no mundo todo, com o cajá, o buriti, a cajarana, o umbu, a carnaúba, a juçara, o bacuri, o cupuaçu, o buriti, a pitomba; das culturas agrofamiliares, a agropecuária se destaca na produção de carne e leite, ocupando metade das famílias de produtores; as culturas do feijão, da mandioca, do milho e do arroz fortalecem ainda mais a expansão da cultura agrofamiliar por todo o Nordeste


Na Semana da Cultura Nordestina, lembramos que mais de 50% dos agricultores familiares brasileiros tiram das terras nordestinas o seu sustento, resultando em uma grande produção dos alimentos que fortalecem a segurança alimentar dos brasileiros.

O que é a Semana da Cultura Nordestina?

A cultura nordestina recebeu sua maior influência dos indígenas, africanos e europeus. Suas características são muito peculiares, com costumes e tradições diferentes de todo Brasil, sendo que cada estado tem suas próprias culturas. Esta data foi criada para lembrar a contribuição social e econômica desta exuberante diversidade cultural do Nordeste na sociedade brasileira. Portanto, 2 de agosto, é o início de uma semana inteira dedicada à força e à influência da Cultura Nordestina. A data foi escolhida em homenagem ao músico brasileiro Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que faleceu neste mesmo dia, em 1989.

As dimensões da agricultura familiar no Nordeste

A região Nordeste do Brasil ocupa uma área de 1,56 milhão de km² (pouco mais de 18% do território nacional) e abriga cerca de 57 milhões de habitantes (IBGE, 2018). Do ponto de vista político-administrativo, é composta por nove estados: Alagoas (AL), Bahia (BA), Ceará (CE), Maranhão (MA), Paraíba (PB), Piauí (PI), Pernambuco (PE), Rio Grande do Norte (RN) e Sergipe (SE), sendo que a maior parcela do espaço regional (64,8%) se encontra no semiárido brasileiro, conforme a delimitação adotada desde 2017.

No território nordestino, apesar dos efeitos de uma das maiores secas registradas em sua história recente, a agricultura familiar continua sendo a principal forma de produção e trabalho no campo no final da segunda década do século XXI, abrangendo 47,2% do total nacional. Em 2017, existiam 2.322.719 estabelecimentos rurais no Nordeste. Desse universo, 1.838.846 (79,2%) eram agricultores familiares. Em outras palavras, de cada 100 estabelecimentos recenseados no meio rural da região, ao menos 79 eram pequenos e tocados predominantemente pela família. A mesma relevância é observada em termos de pessoal ocupado, tendo em vista que as unidades familiares absorvem a mão de obra de mais de 4,7 milhões de pessoas (73,8% do total regional).
Já em relação à participação dos produtores na área ocupada pelos estabelecimentos, os dados apontam uma inversão da representatividade. Isso porque o numeroso contingente de agricultores familiares nordestinos detém tão somente 36,6% da área de mais de 70 milhões de hectares ocupada pelos estabelecimentos agropecuários. Enquanto isso, o setor patronal, representado por apenas 20,8% dos produtores recenseados, ocupa 63,4% da área total, indicando a persistência de uma acentuada desigualdade na distribuição dos recursos naturais associados à posse da terra.

A participação da categoria familiar no total de estabelecimentos rurais supera a média regional no Maranhão (85,1%), em Alagoas (83,6%), em Pernambuco (82,6%), no Piauí (80,3%) e no Rio Grande do Norte (79,9%). Já nas demais unidades federativas, os percentuais são menores em relação à média. Mesmo assim, as explorações familiares são maioria absoluta dos estabelecimentos na Bahia (77,8%), em Sergipe (77,3%), na Paraíba (76,9%) e no Ceará (75,5%).

O perfil social e características tecnológicas dos agricultores familiares

Os dados do Censo Agropecuário 2017 mostram que os homens são predominantes na direção dos estabelecimentos familiares nordestinos, comandando 75,7% deles. Em relação à faixa etária dos dirigentes, percebe-se que o percentual de jovens com idade inferior a 25 anos e de 25 a 35 anos é muito baixo, alcançando apenas 2,1% e 9,4% do total, respectivamente. Já os idosos (com 65 anos de idade ou mais) – aqueles aptos a receberem aposentadoria – representam 26,6%, percentual muito acima do verificado entre jovens. O maior número de dirigentes se localiza mesmo na faixa etária média, visto que 61,8% deles têm idade de 35 a menos de 65 anos (IBGE 2019).

Em termos de escolaridade, as estatísticas analisadas denunciam um quadro preocupante, na medida em que 42,2% dos dirigentes familiares não sabem ler e escrever. O alto índice de analfabetismo é um grave problema social que tem várias implicações negativas. Em muitos casos, a falta de instrução dos produtores compromete a produtividade agrícola, ao limitar a absorção de novas técnicas. Além disso, reduz as chances de obtenção de rendas complementares provenientes do trabalho não agrícola, contribuindo para manter a dependência da ajuda governamental via políticas sociais e de inclusão produtiva.

Produção, fontes de renda e importância socioeconômica da agricultura familiar

Mesmo diante das dificuldades enfrentadas durante a Grande Seca da última década, os recenseadores encontraram algum tipo de produção em 95,5% (1.755.995/1.838.846) das pequenas propriedades familiares visitadas em 2017. Juntas, essas propriedades responderam por uma fatia expressiva da produção de alimentos básicos na região. Desse modo, a agricultura familiar do Nordeste é importante porque gera ocupação e mantém as pessoas no campo. Ela também garante alimentos para as famílias e produz boa parte dos produtos comercializados nas feiras livres semanais por todo o país.

Os estabelecimentos da agricultura familiar no Nordeste, como ocorre nas demais regiões do Brasil, também funcionam como locais de moradia para expressiva parcela do segmento. Mas eles são, além de espaços onde se desenvolve uma ampla gama de atividades agrícolas e pecuárias, ambientes de uma bela e vasta riqueza cultural.

Com informações do Ipea.

JOGOS INDÍGENAS TERRITÓRIO CARAMURU: os Pataxó Hãhãhãe celebram a união das etnias, e o grande vencedor é o povo indígena

da Redação

O Estádio Indígena Caramuru-Paraguaçu, em Pau Brasil, região sul da Bahia, tem sido palco do grande encontro dos indígenas da TI Caramuru neste momento histórico de união em torno dos valores culturais de suas diversas etnias, como a Baenã, Kamakã, Tupinambá, Kariri-Sapuyá e Gueren, formadoras do englobante grupo étnico Pataxó Hãhãhãe; jogos de futebol, apresentações de tohé e rituais sagrados são também homenagem às lutas ancestrais por autonomia, pelas demarcações e respeito aos direitos constitucionais dos povos originários

Centenas de milhares de indígenas aldeados estão impedidos por força da crise sanitária e econômica de engrossar a massa de quase mil parentes, de 40 povos diferentes, todos presentes em Brasília, participando do Levante Pela Terra, mobilizados contra a aprovação do PL 490, e suas consequências, como a liberação dos territórios indígenas à sanha da exploração econômica, inviabilizando futuras demarcações. Ao celebrar a união dos povos pelo esporte, esta edição dos Jogos Indígenas também simboliza a grande energia que os aldeados enviam aos seus parentes na frente de luta na capital federal.

Desde o dia 16 de junho, os Jogos na TI Caramuru-Paraguaçu vão se desenvolvendo como uma grande gincana do esporte, em que não tem um vencedor, porque todos ganham ao final. Diversas partidas de futebol já deixaram uma amostra da qualidade técnica e física de muitos jogadores, revelando futuros talentos para as aldeias. Ao aliar a prática desportiva com as práticas dos rituais da ancestralidade, estes Jogos transcendem o tempo, e os novos guerreiros podem conhecer suas raízes culturais de um modo lúdico, e ao mesmo tempo, em um envolvimento mais profundo com sua história.

Além das modalidades, acontecem também as oficinas de linguagem indígena, pintura corporal, exposição de adereços Pataxó Hãhãhãe e distribuição de produtos da agricultura familiar. São 6 equipes participantes: Resgate Cultural, Atxuab, Tyihi Xoha, Kamayurá, Hãhãhãe e Angohõ, e que abriram o evento oficialmente apresentando um tohé de forma individual, definido por sorteio e finalizando com um grande ritual coletivo no centro do gramado em clima de alegria pela oportunidade de mostrar a força da união dos Pataxó.

Além do Futebol e do Tohé, os atletas disputam as modalidades de Arremesso de Takape, Corrida de Maracá, Luta Corporal, Arco e Flecha, Luta de Maracá, Lançamento de Zarabatana, Cabo de Guerra e Corrida de Tora.

Jogos mostraram a força das secretarias indígenas da CONAFER

Burain de Jesus Pataxó, secretário de Tradições e Culturas dos Povos Originários concedeu entrevista ao repórter Rômulo Dea da SECOM

À SECOM, Burain de Jesus Pataxó, secretário de Tradições e Culturas dos Povos Originários, afirmou que “ter realizado o evento na Caramuru foi muito importante para fortalecer os povos indígenas neste momento muito difícil da pandemia, nós já perdemos muitos parentes em diversas aldeias de diversos territórios do Brasil, então é momento de união em torno desta celebração do esporte e das nossas tradições”.

Lucas Puri Pataxó, secretário de Políticas, Estratégias e Línguas dos Povos Originários

Já o secretário de Políticas, Estratégias e Línguas dos Povos Originários, Lucas Puri Pataxó, falou que “a viabilização dos Jogos demonstram a força das secretarias indígenas da CONAFER, e aproveitou para agradecer ao presidente Carlos Lopes por não ter medido esforços pela realização do evento que já é um sucesso desde o planejamento até o seu desenvolvimento, premiando a todos os presentes com grandes jogos e apresentações da riqueza cultural dos povos originários.”

Assista aos vídeos abaixo:

Que comecem os Jogos Indígenas

da Redação

Abertura na TI Caramuru ocorreu no mesmo dia em que Carlos Terena, idealizador dos Jogos Mundiais do Povos Indígenas, faleceu em Brasília; os Pataxó do Sul da Bahia, da TI Caramuru Catarina Paraguaçu, vivem um momento histórico de união em torno dos valores ancestrais e culturais, e isto está ocorrendo por meio do esporte

Os Pataxó do Sul da Bahia, da TI Caramuru Catarina Paraguaçu, vivem um momento histórico de união em torno dos valores ancestrais e culturais. E isto está ocorrendo por meio do esporte. Há algum tempo este resgate havia sido planejado com a ideia de uma grande edição do Campeonato de Futebol após o término da construção do Estádio Indígena Caramuru Paraguaçu

Apenas depois da vacinação dos aldeados e de medidas de isolamento social, os Jogos Indígenas foram iniciados. O evento contou com a presença de toda comunidade Pataxó, diversas lideranças e aldeias da região.

Neste mesmo dia do lançamento dos Jogos da Caramuru, o grande líder indígena, Carlos Terena, após uma luta contra a Covid-19, partiu aos 66 anos para o mundo dos encantados. Terena nasceu no distrito de Taunay, Aquidauana-MS, e ainda jovem veio para Brasília, onde se transformou em líder dos Terena e voz dos povos originários do todo o Brasil na busca por seus direitos.

Um abertura que emocionou a todos

Para iniciar o evento, foi realizado com todos os participantes e organizadores uma grande oração no centro do gramado conduzido pela Maria Muniz e Pajé Rita Muniz. A abertura dos jogos aconteceu com a apresentação dos grupos de Tohé Cultura Viva e Txihy Xohã. O tohé Pataxó Hahahãe é cantado em momentos de tristeza da aldeia, mas também em momentos alegres de celebração, porque é um ritual de integração do sentimento indígena, uma forma de oração coletiva.

Antes do campeonato de futebol, a Maria Muniz fez um discurso sobre o incentivo ao esporte, a importância de preservar as tradições indígenas, lembrando dos cuidados sanitários, dos valores ancestrais e do apoio da CONAFER dentro da comunidade e para a realização do evento. Falaram também Raimunda Matias, Hugo Pataxó, Pajé Rita Muniz e Burain de Jesus Pataxó, secretário Nacional de Tradições e Culturas dos Povos Originários.

O futebol começou às 15 horas com um minuto de silêncio em homenagem a Enzo Gabriel, criança da comunidade que foi vítima de um acidente no último dia 3. A primeira partida aconteceu entre Caramuru x Mandacaru. Em um jogo que começou pegado, logo no início o Caramuru mostrou a força de conjunto da equipe, e com alguns destaques individuais, acabou abrindo o placar com Rodrigo Rocha e conduzindo o jogo de forma soberana, resultando no placar final Caramuru 6 x 0 Mandacaru.

Depois do apito final da partida, deu-se início ao sorteio do bingo. com o 1º primeiro lugar levando uma novilha de 10 arrobas, o 2º lugar um porco de 2 arrobas e o 3 lugar um kit de maquiagem. Os Jogos seguem por mais alguns meses com 15 equipes disputando o campeonato, apresentações de tohés e com o envolvimento das aldeias do território dos Pataxó.

Projeto sobre ajuda emergencial aos profissionais e setor de cultura é aprovado no Congresso

da Redação


Lei de Emergência Cultural agora segue ao Senado e sanção presidencial

O Projeto de Lei, PL 1075/2020, aprovado na Câmara, nesta terça, dia 26, destina Recursos do Fundo Nacional de Cultura no valor de 3 bilhões de reais para municípios, estados e Distrito Federal repassarem aos projetos culturais, da manutenção de equipamentos a chamadas públicas, além do auxílio emergencial de 600 reais em três parcelas para os profissionais do setor. 

A sessão foi votada virtualmente por causa do novo coronavírus, e ainda terá de ser aprovada no Senado e pelo Executivo. O Projeto é muito importante para o financiamento da cadeia produtiva da cultura durante este tempos de pandemia, em que atividades artísticas estão impedidas de serem realizadas. 

O PL 1075 garante recursos aos espaços culturais que desenvolvam atividades regulares e abertas ao público, e que tiveram que fechar as portas por conta da pandemia. Pontos e Pontões de Cultura, Teatros Independentes, Circos, Escolas de Arte, Centros Culturais Comunitários, Academias de Dança, Capoeira, Expressões Regionais da Cultura, Feiras
de Artesanato, Artes de Rua, Saraus, territórios de identidade e diversidade cultural, todo o conjunto da infraestrutura independente e comunitária das artes e da cultura do país.

Em um período de obscuridade das expressões artísticas, agravada pela crise econômica e a Covid-19, esta aprovação na Câmara é uma esperança de melhores dias para a cultura brasileira e os seus trabalhadores. E também para a economia do país, ao reativar um setor econômico importante e que emprega milhões de pessoas. Depende agora dos senadores e do presidente da República a aprovação do PL da Cultura para confirmar a vontade da Casa do povo.

NASCEM OS PRIMEIROS FRUTOS DO ENCONTRO DA CONAFER COM OS PAJÉS DO ALTO XINGU

da Redação

Há pouco mais de um ano, mais especificamente no dia 31 de outubro de 2018, representantes da CONAFER saíam de Brasília para uma viagem rumo ao Alto Xingu, para o III Festival Kuikuro de Cultura, evento que a CONAFER ajudou a realizar. Desde o primeiro aperto de mão entre os povos do Xingu e a CONAFER, os laços têm se estreitado em benefício de todos os xinguanos. Duas lideranças indígenas têm se destacado neste trabalho incansável de representar a CONAFER no Alto Xingu. Marrayury Jair Kuikuro, Secretário Nacional dos Povos Indígenas do Xingu, e sua mulher, Sula Fernanda Kamaiura, Coordenadora das Organização das Mulheres Xinguanas, têm levado as pautas e necessidades de todas as etnias até Brasília, e assim poder obter agendas nos órgãos de representatividade dos indígenas, como a FUNAI, FUNASA, SESAI, Ministério da Justiça e outros, além de tratar de infraestrutura e melhorias nas aldeias, e realizar projetos nas áreas da saúde, educação, transporte, esporte e lazer.

A CONAFER e os povos do Xingu realizam o ritual da amizade

A aproximação entre os Kuikuros e a CONAFER começou por iniciativa do próprio guerreiro Jair Kuikuro, que durante o Encontro de Pajés na Aldeia Baixo Alegre, em Pau-Brasil na Bahia, aproximou-se dos parentes Pataxó e Pataxó HãHãHãe, e também da CONAFER. Vendo o belo trabalho da Confederação junto aos seus parentes, Jair fez um convite oficial para que a entidade viesse a se somar na realização do Festival em sua Aldeia. O convite foi prontamente aceito, e desde então, a CONAFER/Kuikuros/Pataxós estão unidos na luta por autonomia, valorização cultural, contra as violações de seus direitos e melhores condições de vida em seu território.

No Parque do Xingu, a diversidade de nações e costumes

O Parque tem 16 nações que convivem no território do tamanho de Sergipe, com 2,6 milhões de hectares: Aweti, Ikpeng, Kaiabi, Kalapalo, Kamaiurá, Kĩsêdjê, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Wauja, Tapayuna, Trumai, Yudja e Yawalapiti. O Parque Indígena do Xingu é considerada a maior Reserva Indígena do gênero no mundo. Jair Kuikuro reforça a vocação da CONAFER em promover o desenvolvimento das comunidades por meio de suas ações. Para Jair, “com a CONAFER é possível não apenas atuar em favor do meu povo Kuikuro, mas também por todos os povos irmãos do Alto Xingu, aproximando nações, promovendo suas culturas e tradições, atuando no desenvolvimento da agricultura e na economia das aldeias, e principalmente, ajudando no fortalecimento das nossas lutas”.

Oficina Mulheres de Fibras tem aula inaugural nesta segunda-feira

FONTE: Século Diário
Mulheres quilombolas promovem artesanato com fibra de bananeira para dinamizar economia da comunidade
O tronco era a última parte da bananeira que ainda não havia sido devidamente estudada pelas comunidades quilombolas da região de Santana, em Conceição da Barra, norte do Estado, como matéria-prima para a fabricação de produtos artesanais e geração de renda sustentável para as famílias.
Era. Com o projeto Mulheres de Fibras, a cadeia produtiva da bananeira estará completa, inserindo mais um componente de dinamização das comunidades, seguindo os princípios da Economia Criativa.
A aula inaugural acontece nesta segunda-feira (11), a partir das 8h30, no auditório do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Nego Rugério, na comunidade de Santana.
A oficina, gratuita, terá continuidade por cerca de quinze semanas, sendo uma aula por semana, e já conta com alunos vindos dos bairros do distrito de Santana, das comunidades quilombolas do Córrego da Angélica, Coxi, Roda d’ Água e Linharinho.
A primeira etapa da oficina vai ensinar a tirar a fibra do tronco, tratar com cloro e amaciante e armazenar. “A fibra quando é bem tirada e bem lavada e amaciada, dura até dez anos”, assegura Jurema Gonçalves, anfitriã do projeto, no CRAS Nego Rugério, e presidente da Associação Quilombola do Pequenos Produtores do Córrego da Angélica (AQPCA).
A segunda etapa abordará a preparação da fibra tratada para a feitura das peças artesanais, por meio de tranças, fios para tear ou crochê.
E, na terceira etapa, os alunos se dedicarão à produção do artesanato, incluindo bolsas, caixas de presente, capas de agenda e de bíblia, suporte de cerveja e, com a fibra cozida, também papel de parede e de capa de caderno.
Banana, farinha e mel
A iniciativa é mais um resultado do Projeto Bafamel [Banana, Farinha e Mel], iniciado em 2017. A partir dele, as comunidades passaram a plantar bananeiras para recuperação do leito do córrego da Angélica (cada produtor plantando dez pés de banana, completando dez metros quadrados), e a produzirem mel de abelhas nativas sem ferrão e aproveitar o fruto, tanto maduro (doces, rapaduras, banana passa, banana chips) quanto verde (farinha, biomassa, macarrão, capelete) da planta.
A produção de farinha também foi estimulada, pois a tradição mais importante da gastronomia quilombola não pode se perder. “A mãe de todo quilombola é a farinha”, poetiza Jurema.
Por enquanto, cada família produz sua própria farinha ralando a mandioca e torrando no fogão. O material para uma casa de farinha comunitária, no entanto, já foi comprado por meio do edital Mais Vida Menos Petróleo, da Campanha Nem Um Poço a Mais, empenhada por diversas organizações comunitárias e de comunidades tradicionais do país, com apoio da Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase). A construção se dará em breve, em mutirão.
Toda essa farta produção é escoada para moradores de São Mateus e da Grande Vitória inscritos na Comunidade que Sustenta Agricultura (CSA) pioneira do Espírito Santo, que agrega outras comunidades do Território Quilombola Tradicional do Sapê do Norte, entre São Mateus e Conceição da Barra.
Fôlego
O projeto Mulheres de Fibras foi contemplado pelo edital de Culturas Populares e Tradicionais Quilombolas e será realizado com recursos do Funcultura/Secretaria de Estado de Cultura (Secult). Entre os apoiadores, ao lado da AQPCA e da Fase, está o jornal Século Diário. “Século Diário é o nosso fôlego”, metaforiza Jurema.
“Quando a gente está quase perdendo tudo, Século dá as mãos e a gente consegue subir de novo na superfície. É onde a gente tem voz”, declarou, referindo-se à cobertura feita, historicamente, pelo jornal, à luta quilombola no Sapê do Norte pelo reconhecimento de seu território tradicional, usurpado há meio século pela Aracruz Celulose, hoje Fibria/Suzano

Agroecologia Política: imperativo para o século XXI

FONTE: Carta Maior
A Agroecologia como uma nova ciên­cia, nascida na América Latina nos anos 1970, vem se mostrando como um potente enfoque teórico capaz de apoiar processos de transição das agriculturas e dos sistemas agroalimentares insustentáveis, de natureza industrial e dominados pelo merca­do capitalista, para a direção de sistemas mais sustentáveis e mais de acordo com os ideais de sustentabilidade e os princípios da segurança e da soberania alimentar. Como destacou o colega Gliessman, recentemente, a Agroeco­logia nos oferece um conjunto de técnicas e metodologias que permitem “o redesenho dos sistemas agroalimentares do campo à mesa”.
Do ponto de vista prático, temos observado avanços significativos das diferentes experi­ências agroecológicas tanto no mundo, como na América Latina, mas, particularmente no Brasil, onde elas se espalham pelas diferentes regiões do nosso imenso território, respon­dendo às características dos diferentes agro­ecossistemas e sistemas culturais dos grupos sociais implicados. Muitos esforços têm sido realizados para sistematizar e dar visibilidade a essas experiências; no entanto, ainda esta­mos longe de cumprir com essa tarefa.
Não obstante, tem-se observado que mi­lhares de experiências, em geral, se mantêm localizadas, em nível de unidade de produção ou, em poucos casos, abrangendo comunida­des rurais ou territórios. Isso se deve, em mi­nha opinião, principalmente, a três questões: por um lado, a necessidade de ampliar a cons­ciência e a abrangência de produtores e con­sumidores sobre os impactos socioambientais gerados pelo modo atual de produção, distri­buição e consumo. Por outro lado, é cada vez mais evidente a carência absoluta, ou profun­dos retrocessos que têm ocorrido nas poucas políticas públicas de apoio à transição agro­ecológica em nosso país. Em terceiro lugar, observa-se, ainda, a ilusão de que só com a adoção continuada de inovações tecnológicas se conseguirá chegar a uma agricultura sus­tentável. Essa é uma falsa ideia, na medida em que os processos de transição não dependem somente de tecnologias, mas requerem impor­tantes mudanças sociais, econômicas e institu­cionais. O que no âmbito do estado se traduz, também, em políticas públicas.
Também se observa, que do ponto de vista tecnológico, técnicos e agricultores mostram domínio crescente das técnicas e formas de manejo capazes de contribuir para o desenho de agroecossistemas mais sustentáveis ou mes­mo para o desenvolvimento de estratégias de comercialização mais sustentáveis do ponto de vista do consumo de matéria e energia e, por­tanto, mais sustentáveis socioambientalmente, como podem ser os diferentes tipos de circui­tos curtos de comercialização.
O acima exposto indica que o “escalona­mento” das experiências agroecológicas já não depende, propriamente, de conhecimentos técnicos, científicos ou populares, mas está sendo obstaculizado pela carência de um ar­senal apropriado de conhecimentos e institui­ções, capazes de ajudar na compreensão e aná­lise dos elementos de insustentabilidade dos atuais modelos hegemônicos de agricultura industrial e sistemas agroalimentares oligopo­lizados, cuja superação não ocorrerá pelo vo­luntarismo de práticas individuais, senão que depende, fundamentalmente, de ação social coletiva.
Daí, a necessidade imperativa de uma Agro­ecologia Política (AP), que, como campo de estudos do âmbito da Agroecologia, seja capaz de promover um entrelaçamento decisivo en­tre Agroecologia e Política, ou seja, a neces­sidade de uma agroecopolítica, que ponha luz sobre a realidade das crises socioambientais e contribua na direção das lutas sociopolíticas que necessitam ocorrer no ambiente institu­cional.
A Agroecologia Política, assim como sua irmã, a Ecologia Política, se sustenta em dois pilares indissociáveis: os marcos cognitivos (conhecimento, ideologia) e marcos institu­cionais (regras, normas, políticas públicas) que deveriam orientar as condutas e as es­colhas individuais e coletivas. Por um lado, a AP se propõe a oferecer uma ideologia (no 18 Revista Eletrônica do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Contemporaneidade – PPGCOM/UFPE | melhor sentido da palavra), ou seja, um con­junto de conhecimentos que possam iluminar caminhos em direção à sustentabilidade, isso é, examinar a partir da análise ecológica os atuais modelos de agriculturas industriais e os sistemas agroalimentares dominantes, mos­trando seus elementos de insustentabilidade. Por outro, oferece um programa de normas, regras e de reformas institucionais de estímu­lo à transição agroecológica. E não se trata de um receituário. Aqui, estamos falando de polí­ticas públicas, taxas ambientais do tipo polui­dor-pagador, impostos verdes, isenção de im­postos para alimentos ecológicos, sobretaxa a produtos quilométricos, sobretaxas a produtos químicos contaminantes (agrotóxicos, fertili­zantes químicos), impostos sobre a emissão de gases de efeito estufa, estímulos à captação de carbono, pagamentos por serviços ambientais e/ou proteção da paisagem, assim como uma infinidade de possibilidades que vêm sendo implementadas em diferentes lugares.
Obviamente, no primeiro caso, os avanços na produção dos conhecimentos que orientem as decisões individuais e coletivas (de produ­tores e consumidores) podem ocorrer em âm­bitos mais restritos, desde laboratórios a gru­pos de produção e consumo. Não obstante, o segundo caso depende de ação social coletiva, o que nos remete diretamente para o campo da política, que é a disciplina ou o campo das relações sociais que se ocupa das inter-rela­ções e dos arranjos institucionais que podem ser capazes de potencializar (ou não) proces­sos de transição agroecológica.
Desse modo, quanto mais ampla e abran­gente for a escala em que ocorrem os proces­sos de transição agroecológica, mais e mais eles dependem da política. Assim, em nível de unidade de produção, como vimos antes, a transição poderia ocorrer a partir da tomada de consciência individual ou familiar sobre a necessidade de mudanças no processo produ­tivo e, a partir daí, se lançaria mão do arsenal disponível de técnicas e formas de manejo ca­pazes de levar a produção da direção de mais sustentabilidade, a partir do redesenho dos agroecossistemas de acordo com as condições ecológicas e socioeconômicas locais. Do mes­mo modo, a partir desse nível de consciência sobre a necessidade de mudanças, consumido­res poderiam fazer suas eleições por formas de apoio aos produtores de alimentos ecológicos, por privilegiar os mercados de proximidade, ou produtos de época, etc, e também eles esta­riam contribuindo para mais sustentabilidade. Ambos os casos já estão ocorrendo no mundo todo.
Entretanto, à medida que a transição amplia sua escala, em nível de comunidade, microba­cias, territórios, municípios, estados, nação ou planeta, passam a emergir novas propriedades para as quais as respostas dependem da ação coletiva e do poder político que cada grupo social ou movimento agroecológico possa ter para defender seus interesses, em diferentes arenas de disputa. Reforçando: estamos falan­do de política, de relações de poder.
Nesse sentido, recolocar o processo de co­evolução socioecológica nos seus trilhos da sustentabilidade não é tarefa apenas indivi­dual ou de pequenos grupos comunitários de produtores e consumidores, senão que depen­de de maiorias sociais, de força política sem a qual não será possível avançar na direção da sustentabilidade da agricultura e dos siste­mas agroalimentares, por mais que tenhamos um arsenal técnico e metodológico adequado. Cabe enfatizar, não seremos somente nós, aca­dêmicos, técnicos e agricultores suficientes para impulsionar esses processos de transição em escalas mais amplas. Ou teremos a parti­cipação ativa de maiorias da cidadania (uma politização do consumo) ou os processos de transição agroecológica serão condenados a permanecer como periféricos, invisibilizados, restritos a guetos e a nichos de produção e consumo de alimentos sadios que não geram as transformações necessárias no sistema ca­pitalista organizador da agricultura e dos sis­temas agroalimentares. Por isso, a Agroeco­logia Política se tornou um imperativo para apoiar a transição agroecológica, ainda possí­vel, no século XXI.

Cultura Afro-brasileira e a Pedagogia Colonial

A Cultura Africana é uma das mais influentes na construção da sociedade brasileira e responsável pela base do imaginário popular, donde advém as crendices e ensinos folclóricos que se estabelecem desde a meninice até o enredo das concepções sociáveis.
O ensino da história e cultura afro-brasileira, mesmo que resguardado pela Lei 10.639/03 e por sua promulgação 11.645/08, está longe de ser representado no ambiente escolar e incorporado no currículo. A literatura sobre o tema é extremamente escassa nas bibliotecas públicas e privadas. Em alguns locais do brasil profundo e da cultura periférica é a voz empoderada que se destaca nesse processo humano, horizontal e honesto. Pouquíssimas vezes ela é trabalhada com transparência e quando acontece não ocupa o lugar de protagonista no ensino-aprendizagem.
Vê-se o recorte que há na “Semana da Consciência Negra”, cinco dias com atividades simplistas e desinteressantes, apenas com papéis em branco e estereótipos para colorir. Não vemos, por exemplo, lideranças Quilombolas atuando intramuros escolares por intolerância da própria comunidade que a cerca, por um preconceito disseminado de geração em geração.
Ainda, de maneira imensurável, a rotina escolar se perpetua sem a representatividade afro-brasileira em suas ações, sabotando principalmente o desenvolvimento cultural das localidades onde se estabeleceu. As memórias estão sendo apenas pela negligência e pela falta de comprometimento com a pluralidade cultural.
Na sala
Utilizados em sala de aula, os projetos são trabalhados em datas específicas (comemorativas) e sem planejamento para a formação continuada dos saberes. O Ensinante que tem conhecimento se depara em uma encruzilhada, a ansiedade de inserir a cultura africana para as crianças e o medo de sofrer represália de pais/responsáveis, pois a resistência e o preconceito são avassaladores para o ensino da ancestralidade, principalmente quando falamos da cosmologia e nos atentamos à descolonização das mentes.
Então, nesse tumulto do querer, da lei, da importância, do ódio, da ignorância, das demonizações, acaba-se que o ensino fica apenas na pré-disposição de quem atua em espaços pedagógicos não-escolares.
São inúmeras e imensas as dificuldades em reproduzir atividades que encantam com os atabaques da ancestralidade, quase escamoteada se estivesse apenas à deriva em um pedacinho de papel denominada “lei”, pois não é defendida por quem deveria nas escolas.
A comunhão dos saberes orgânicos e uma proposta libertadora que proporciona a todos o protagonismo da aprendizagem está distante do idealismo multicultural, mas a resistência sempre existirá para manter viva a Memória pelos cânticos dos desafortunados. “Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas” é a incontestável leveza do protesto. Ensinar sempre será um ato transgressor.
Por Bruno Bossolan

Escritor indígena recebe prêmio de literatura infantojuvenil

FONTE: Hypeness
Desde 2008, a lei exige que as escolas brasileiras incluam em seu currículo a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. O cumprimento da norma, no entanto, ainda é um entrave, visto que há poucos professores realmente preparados para abordar o assunto.
Em muitos casos, os docentes apenas repetem conteúdos sobre os quais já ouviram, se tornando intermediários de um discurso que, por vezes, é repleto de estereótipos. Não seria interessante se, ao invés disso, crianças e adolescentes pudessem estudar sobre a cultura indígena através de livros escritos por pessoas destas etnias?
Daniel Munduruku é um destes autores que despontam na literatura infantojuvenil. Nascido em Belém, Pará, na etnia Munduruku, ele acaba de receber o prêmio Vida e Obra, na categoria , cul Letras: Literatura Infantojuvenil, da Fundação Bunge.

A premiação existe desde 1955 e já consagrou nomes como Jorge Amado e Hilda Hist. Daniel é o mais recente agraciado com o prêmio, no valor de R$ 150 mil. Este não é o único título acumulado por ele: formado em filosofia e com doutorado e pós-doutorado em educação, Daniel é autor de mais de 50 livros que retratam a cultura indígena, tendo recebido também os prêmios Jabuti, em 2017, e Tolerância.

“Escrevo pensando que estou prestando um serviço à sociedade brasileira, que é tão plural, mas que muitas vezes não vê essa pluralidade como algo positivo.”

Quando se mudou para São Paulo, em 1987, o munduruku Kabadarebu sentiria pela primeira vez, aos 23 anos, o menosprezo dos brasileiros pelos próprios povos nativos. Até então, Daniel, nome pelo qual é conhecido fora de seu povo, havia se dividido entre a cidade de Belém (PA), onde nasceu, a aldeia Munduruku onde cresceu e frequentou a escola e a cidade de Manaus (AM), onde iniciou a carreira acadêmica no curso de Filosofia, antes de deixar o Norte numa mudança sem volta. Foi apenas ao chegar a São Paulo para dar sequência aos estudos universitários, porém, que o abismo que separa indígenas dos demais brasileiros se fez patente.
“Minha primeira passagem pela academia foi muito tranquila, porque Manaus está cheia de indígenas estudando e participando da sociedade local. Em São Paulo, sim, as pessoas diziam que eu estava no lugar errado, porque vinha de uma tradição oral, e a oralidade era incompatível com o pensamento acadêmico”, diz Daniel. “Eu, embora ouvisse tudo com certa tranquilidade, também sentia antipatia por esse tipo de discurso, que se acha no direito de julgar e de condenar e de definir quem pode, quem não pode, quem deve, quem não deve”.
Não à toa, o “pertencimento”, como diz, é o principal tema da obra de Daniel Munduruku, 54 anos, filósofo com licenciatura em História e Psicologia, doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que há 22 anos se dedica a escrever livros e ministrar palestras para quebrar, na mente de crianças e adolescentes brasileiros, estigmas sedimentados em torno dos povos indígenas. Hoje afastado das salas de Ensino Médio, onde deu aulas por 15 anos, Daniel já conta com 52 livros lançados desde Histórias de Índio, editado em 1996 pela Companhia das Letrinhas, e prêmios como o Jabuti, o Melhor Livro Infantil (Academia Brasileira de Letras), o Érico Vanucci Mendes (CNPq) e o Tolerância (Unesco), além do selo Altamente Recomendável (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).
Nas muitas páginas que publicou, figuram contos que ouviu dos Munduruku mais velhos – como As serpentes que roubaram a noite (ed. Peirópolis) – e histórias que criou para atender a uma demanda que ele enxerga, no restante da sociedade, por valores ainda vigentes entre os povos nativos. O livro O menino e o pardal (ed. Callis), por exemplo, fala às crianças sobre liberdade, valor caro ao povo Munduruku, e sobre a relação do homem com a natureza.
“Nós, indígenas, vemos a natureza como parte de nós. Ela está integrada ao nosso ser e nós estamos integrados ao ser dela. Ela não é melhor que nós. É maior, talvez. Mais antiga, sim. Mas ela não é melhor do que nós e nós não somos melhores do que ela. Somos parceiros de caminhada. Por isso, respeitamos a natureza como quem respeita um parente, uma entidade, um ser que está aí junto com a gente”.
Para Daniel, a sensação de pertencimento à natureza foi se perdendo entre os brasileiros devido à pressão por crescimento, desenvolvimento e enriquecimento. “O não-indígena se afastou da natureza e perdeu a sua essência, a sua raiz, a sua ancestralidade. Tenho impressão de que meu trabalho é chamar a atenção do brasileiro para esse ponto”.
Apesar do diferencial de sua obra, porém, Daniel não teve acolhida fácil no mercado editorial. “Eu fiz o caminho que todos os escritores fazem, que é escrever, acreditar no que escreve, mandar para as editoras e saber aceitar ‘não’, como efetivamente aconteceu. Meu primeiro livro, eu mandei para cerca de cinco editoras. Apenas a Companhia das Letras aceitou publicar, e esse ‘sim’ foi suficiente para eu acreditar que o que eu escrevia tinha algum valor. Se não valor literário, pelo menos um valor educativo”, diz Daniel, que vê na literatura nativa – gênero que hoje congrega cerca de trinta autores indígenas – um meio de dar voz à pluralidade do País.
Pluralidade que, ele ressalta, existe também entre os povos indígenas, nações que costumam ser agregadas sob o homogeneizante termo “índio”, que o escritor renega, ao lado do “Dia do Índio”. “Não é uma palavra honesta. Quando a gente fala ‘índio’, esconde a diversidade brasileira. O Brasil tem 305 povos indígenas. Por aqui, são faladas 274 línguas. Quando a gente chama alguém de índio, perde a oportunidade de compreender a singularidade daquela pessoa, daquele grupo. Então, quando alguém me chama de índio, eu sempre retruco: ‘Eu não sou índio. Sou Munduruku’”.
Para Daniel – que atualmente dirige uma entidade voltada à preservação e difusão de conhecimentos nativos, o Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais –, em Lorena (SP), cidade onde mora, a 179 quilômetros da capital paulista, o termo “índio” não apenas homogeneiza como é redutivo. “A ideia romântica que muitas vezes se faz das populações indígenas destrói a humanidade desses grupos. É importante, para a gente se tornar cidadão, que se respeite o outro tal como ele é, não como a gente gostaria que o outro fosse, porque senão vira imposição, vira violência, colonialismo. E disso a gente já está farto, não é?”