Instituto de Sebastião Salgado já recuperou 2000 nascentes no Vale do Rio Doce

FONTE: Green Bond
1998. Aimorés, Minas Gerais. O casal Sebastião Salgado e Lélia Wanick estava muito triste com o cenário de degradação ambiental em que se encontrava a antiga fazenda da família. Na Fazenda Bulcão, o córrego havia secado, restavam pouquíssimas árvores, o solo era pobre e os animais já não frequentavam o lugar. “Era tão degradante. Nós ficamos tão tristes e nós choramos”, comenta Lélia durante uma entrevista ao programa Sempre um Papo. “Ali, naquela hora me veio uma ideia que, francamente, acho que foi a melhor ideia que eu tive na minha vida. Eu falei: vamos plantar uma floresta aqui! A gente fechou o olho e viu tudo verdinho. Sebastião, na mesma hora, adorou a ideia e a gente começou a trabalhar pra ver como a gente ia plantar essa floresta.”
Eles mobilizaram parceiros, captaram recursos e fundaram o Instituto Terra, uma organização com a missão de contribuir para o processo de recuperação ambiental e o desenvolvimento sustentável da Mata Atlântica, em especial na região do Vale do Rio Doce.
Desde o início, o instituto tinha o objetivo de despertar a conscientização ambiental sobre a necessidade de restaurar e conservar a floresta. “Nós destruímos tudo. Hoje nós não temos mata ciliar, nós não temos cobertura que permita as nascentes sobreviverem… Não tem milagre! Se a gente quiser sobreviver na sociedade que temos hoje, nós temos que refazer uma parte do que nós destruímos”, diz Salgado em uma entrevista ao programa Sempre um Papo.
Eles transformaram a propriedade da família na Reserva Natural do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Bulcão, com 609 hectares. As primeiras mudas foram plantadas em dezembro de 1999 e, ano após ano, com o apoio de associados, foi possível plantar mais de dois milhões de árvores de mais de 290 espécies nativas da Mata Atlântica. Com a restauração da cobertura vegetal, voltaram os cursos d’água e os animais.
Dessa iniciativa surgiu o Programa Olhos D’Água que tem o objetivo de resgatar os recursos hídricos da Bacia do Rio Doce. Aproximadamente 2 mil nascentes foram recuperadas. 1.022 famílias de pequenos produtores rurais receberam gratuitamente assistência técnica, materiais para construção de cercas e para a instalação de miniestações de tratamento de esgoto, além de mudas para reflorestamento das áreas.
Com ações de reflorestamento no Vale do Rio Doce, o instituto plantou 6 milhões de mudas de árvores de aproximadamente 300 espécies nativas da Mata Atlântica e recuperou uma área de 21,1 milhões de metros quadrados, o equivalente à soma de 2.995 campos de futebol. A maior parte dessas mudas foi produzida no viveiro do próprio instituto, que tem capacidade de produzir 1 milhão de mudas por ano.
Eles também criaram o Centro de Educação e Recuperação Ambiental (CERA), onde mais de 70 mil pessoas (professores, alunos, produtores rurais, técnicos agrícolas, ambientais e florestais) já receberam algum tipo de treinamento da ONG desde sua fundação.
O Instituto Terra transformou uma antiga fazenda de gado, totalmente degradada, em uma floresta rica, onde as nascentes voltaram a jorrar e os animais conseguem achar abrigo. Sebastião e Lélia mostraram ao mundo que é possível recuperar a Mata Atlântica. Só depende de nós.

Os povos indígenas e a lama da Samarco e da Vale: dois retratos

FONTE: Estado de Minas

O fim de Mianga Baixu (Rio Paraopeba) e de Uatu (Rio Doce)

De uma tristeza maior que o mar de lama, os olhos de Seu Gervásio e Dona Laurita contam a mesma dor. Ele, pataxó-hã-hã-hãe, tribo que reivindica território na zona rural de Brumadinho, Grande BH; ela, krenak, moradora da reserva em Resplendor, região do Rio Doce. Os anciãos indígenas, cujas vidas toparam com a lama da mineração, foram fotografados pela reportagem do Estado de Minas em dois momentos: Gervásio Alves de Souza, de 93 anos, ainda observa atônito os peixes mortos na beira do Paraopeba, em decorrência do desastre na barragem da Vale. A imagem dele foi produzida esta semana. Dona Laurita Krenak, aos 86 anos, conversou com o jornal em novembro de 2017 para contar como a morte do Rio Doce assassinou também a fé de seu povo. No começo de 2018, ela faleceu, sem ver doces novamente as águas do rio que embalavam os rituais. Entre povos indígenas, o saber ancestral e a vivência dos mais velhos os tornam referência de sabedoria. Na tradição que pede a convivência respeitosa com o meio ambiente, rompimentos de barragem são um monstruoso aviso de que a exploração a qualquer custo terá mesmo os seus custos. Os olhares publicados nesta página misturam dor, repreensão e melancolia diante da lente do homem branco. Aprenderemos com esse ensinamento?

Os pataxó-hã-hã-hãe chamavam o Rio Paraopeba de Mianga Baixu: água bonita

O rio não está bem não. Pescaria já acabou. Sem pesca, sem mais nada. Agora, enquanto não limpar a água do rio a gente está sem esperança de comer o peixe, né? Aí, vamos viver de outro jeito. Se aparecer um dinheiro, a gente compra uma carninha e faz o tempero do feijão. Moram aqui umas 30, 35 pessoas e todo mundo depende do peixe. Quando desci e vi o rio com a lama, eu me senti muito chateado porque uma coisa dessas não podia acontecer. O que essa empresa faz envolve muito dinheiro, agora dá um prejuízo desses. E o que a gente pode fazer? Pode fazer nada.

Gervásio Alves de Souza, de 93 anos, pataxó hã-hã-hãe de Brumadinho

Os krenaks chamavam o Rio Doce de Uatu: água grande

Os índios tinham os trabalhos deles com o Uatu. É como qualquer coisa quando você acredita. Não tem quem acredita em santo, em pedaço de pau? Os índios acreditavam no Uatu, conversavam com o Uatu. Dava peixe, dava nessa ilha aí, caça, tinha de tudo. Agora não faz mais. Calado, só correndo calado. Não acabaram lá de cima? Então desceu, já acabou já. Não gosto nem de olhar para lá. Por isso que índio falava de homem branco: homem branco que acabou com isso. Os índios sempre falavam que tudo que atrapalhava era porque tinha homem branco no meio. Acabou tudo porque não passaram uma porção de remédio nesse rio? Acabou o encanto, uai.

Laurita Krenak, então com 86 anos. Entrevista gravada em 2017


Depoimento

Nosso ouro virou veneno
Sim! Podemos também escolher uma morte de súbito pela derrama dos minérios sem anúncio ou ameaças públicas feito bravata. Não haverá tempo para escapar, nada de poder seguir para outro abrigo, outro lugar de exílio, pois de súbito cai a lama tóxica podre de rica, um valor admirável agregado da mineração, nosso ouro virou veneno, a terra virou uma ferida – disse a tempo o poeta, Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor.

Sem indenização, pescadores lutam para sobreviver três anos após tragédia de Mariana

FONTE: BBC

O pescador Braz Clarindo Filho, de 47 anos, ganhava cerca de R$ 27 mil por mês com seus dois barcos de pesca. Há três anos, porém, o mar de lama e de rejeitos da barragem que se rompeu em Mariana (MG) também passou por cima de sua vida. Hoje, em meses bons, vive com R$ 3.000.

Braz é um dos milhares de pescadores de Minas Gerais e do Espírito Santo afetados pelo desastre que ficou conhecido como tragédia de Mariana.
O acidente ocorreu no dia 5 de novembro de 2015, quando 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro jorraram do complexo de mineração operado pela empresa Samarco e percorreram 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio do Carmo até desaguarem no rio Doce. No total, a lama percorreu 663 km até encontrar o mar, no município de Regência (ES). No caminho dela, 19 pessoas morreram.
O impacto ambiental foi gigantesco: além da contaminação da água e soterramento de nascentes, milhares de peixes e outros animais morreram.
Além dos mortos, milhares de outras pessoas foram afetadas pela lama: pescadores, comerciantes, agricultores, empresários e trabalhadores do setor turístico.
A economia local, que vivia da pesca e do turismo às margens do rio, entrou em colapso. Cresceu o desemprego e muitos trabalhadores não conseguiram retomar suas funções na mesma velocidade de antes da tragédia. Até hoje, a maior parte deles não recebeu qualquer indenização pelos prejuízos.
Há 35 anos, Braz pesca camarão na praia de Suá, foz do rio Doce no Espírito Santo, a cerca de 434 km de Mariana. Após a tragédia, viu seu sustento escassear. “Não recebi nada, nenhum centavo. Estou tomando ‘barrigada’ da Samarco até hoje”, diz.
A queda brusca de renda foi acompanhada por cortes no orçamento familiar: cancelou o plano de saúde, TV a cabo e a escola particular dos filhos. Sua mulher voltou a trabalhar. “Minha situação é a pior possível. Hoje, a gente trabalha só para comer”, diz.

Escola municipal de Bento Rodrigues destruída pela lama

“Tenho de ir para outros locais para pescar. E, mesmo assim, em menor quantidade. Hoje, preciso dividir tudo que pesco com meus funcionários, porque senão eles não conseguem viver”, conta Braz.
A primeira parte de sua indenização estava prevista para 16 de outubro deste ano. Mas a Fundação Renova – entidade criada para gerir as ações de reparação – não depositou o valor, nem deu prazo para isso ocorrer.
Em média, os pescadores recebem R$ 100 mil de indenização, mas esse valor pode variar dependendo da categoria. Quem era dono de barco, por exemplo, pode ter direito a uma quantia maior do que os funcionários.
Agnaldo Correia, de 25 anos, é um desses casos. Funcionário de um barco, ele ganhava R$ 4.500 por mês. Hoje, vive com R$ 900. “Estou trabalhando sem parar, cortei tudo pela metade em casa”, conta. Ele vive em Linhares, no Espírito Santo, e pescava camarão na foz do rio Doce.
Correia falou com a reportagem enquanto navegava na divisa do Espírito Santo com a Bahia, distante de seu ponto original. “Temos de vir para bem longe para conseguir pescar, porque na minha área a pesca está proibida”, diz. Porém, há quem ignore a proibição e continue atuando na área interditada, a 20 metros da costa, sob o risco de multas ambientais.
O pescador relata outro problema: as vendas diminuíram pelo estigma que recaiu sobre o camarão do Espírito Santo. “As pessoas acham que nosso produto é contaminado”, diz.
“A gente está pagando pelo crimes deles (Samarco)”, critica Braz.

Pessoas afetadas triplamente

A Fundação Renova afirma que cerca de 7.000 pescadores receberam indenização e auxílio financeiro, totalizando R$ 580 milhões. A entidade afirmou que “está empenhada em finalizar o processo de negociação e pagamento de indenizações o mais rápido possível.”
A Renova afirmou, ainda, que há registros de pessoas que não foram afetadas e estão pedindo indenizações indevidas. “Diante desse cenário, ficou evidente a necessidade de reformulação da política vigente por meio do diálogo e da construção participativa com os órgãos competentes e as comunidades atingidas”, afirmou a fundação.
Segundo Rafael Portella, defensor público do Espírito Santo, o número de requisições de indenização é muito maior do que já foi pago. No total, 51.400 famílias fizeram pedido para receber reparações pelos danos causados pela tragédia. Esse número abrange não só pescadores, mas também comerciantes, agricultores, artesãos, entre outras categorias afetadas.
“A gente entende que é difícil mensurar os danos pela quantidade de categorias de profissionais. Há pessoas afetadas até três vezes, porque eram pescadores, artesãos e comerciantes”, diz o advogado. “Mas há um formalismo excessivo na análise dos casos e cadastros muito mal feitos, o que acaba por atrasar todos os processos.”

Reservatório de Candonga , em Mariana (MG)

Segundo ele, o número de pedidos pode aumentar, pois há moradores de regiões mais pobres que nem sabem que têm direito à reparação. “A Defensoria tem ido a comunidades para explicar às pessoas que elas precisam perseguir o direito delas”, conta.
Outro caso é o do município de Conceição da Barra, no Espírito Santo. Ali, ainda estão em curso estudos para saber se parte da cidade foi ou não afetada pelos rejeitos.
Para Leonardo Amarante, advogado da Federação e das Colônias de Pescadores, entidades que representam mais de 4.500 profissionais, a lentidão dos acordos entre a Renova e os trabalhadores é preocupante. “No início do ano, fazíamos cerca de 100 acordos por semana. Hoje, são cinco ou seis. Nesse ritmo, as indenizações vão demorar décadas para serem pagas na totalidade”, diz.

Processo criminal

Três anos depois da tragédia, o processo criminal contra supostos responsáveis ainda corre na Justiça Federal.
No total, 21 pessoas são acusadas de provocar inundação, desabamento, lesão corporal e homicídio com dolo eventual (quando o réu assume o risco de matar).
Na semana passada, o Ministério Público e as Defensorias de Minas Gerais e do Espírito Santo assinaram um acordo com a Samarco, Vale e BHP Billiton para evitar a prescrição do direito à reparação das vítimas da tragédia, o que, em tese, aconteceria após três anos do desastre.
Há também uma ação coletiva, promovida pelo Ministério Público Federal, no valor de R$ 155 bilhões contra a Samarco – nesse termo, estarão previstas indenizações aos danos ambientais, sociais e econômicos.

Vivendo com pouco

Enquanto os processos correm no ritmo da Justiça, o pescador João Carlos Gomes, de 46 anos, viu sua renda mensal diminuir de R$ 6.000 para R$ 1.000, além de sua carga de trabalho aumentar. “Às vezes, a gente troca trabalho por comida”, explica.
Depois da tragédia, ele criou um sindicato de pescadores do Espírito Santo – o objetivo é orientar os trabalhadores sobre os acordos com a Renova.
Benedito Portela, de 52 anos, recebeu sua indenização em abril, mas nunca voltou a ter o padrão de vida que levava antes de a barragem se romper. “Perdi cheque especial e cartão de crédito. Atrasei prestação do carro”, conta.
Ele ganhava R$ 5.000 por mês e hoje trabalha para viver com R$ 1.200.