Secretaria de Agroecologia da CONAFER lança campanha “Plantando Alimentos, Colhendo Saúde”

da Redação

A SEAGRO, Secretaria Nacional de Agroecologia, Políticas Agrárias e Meio Ambiente, por meio de sua equipe de coordenação de saúde, vai trazer toda semana as melhores práticas na prevenção de doenças e cuidados na alimentação

A campanha “Plantando Alimentos, Colhendo Saúde” busca resgatar os saberes populares que sempre foram cultivados em comunidades, as quais utilizavam seus alimentos como o seu próprio remédio. Nosso propósito é recuperar esses valores pelo conhecimento da cultura tradicional. 
O espaço da horta e o ambiente do cultivo é também um lugar de socialização, bem-estar e um caminho de benefícios que a nossa saúde não pode abrir mão. Saber de onde vem nosso alimento e conhecer suas vantagens é fundamental para uma vida saudável. Mas é na sustentabilidade deste sistema alimentar que encontramos o seu maior valor, pois a agroecologia além de produzir nosso alimento, mantém o nosso espaço ambientalmente saudável.

Diversas cartilhas vão orientar sobre alimentação e cuidados na saúde

Semanalmente vamos publicar as dicas e as melhores maneiras para auxiliar na prevenção de doenças e manutenção da saúde, as queixas principais, educação alimentar e outras maneiras de intervenções, pensando sempre no que temos de possibilidades no quintal da nossa casa ou no espaço verde de um apartamento.
O foco da campanha é trazer conteúdos alternativos e educadores como alimentos saudáveis que ajudam a amenizar sintomas, como utilizar e cultivar as ervas medicinais, informativos sobre manutenção de saúde e prevenção de doenças.

O propósito da SEAGRO é ajudar as pessoas a cuidar da saúde de maneira natural, buscando resultados pela fitoterapia e práticas comuns, terapias que adotam o uso interno de substâncias de origem vegetal e mineral, as hortas domésticas e orgânicas, facilitando o acesso da população a alimentos com qualidade garantida.
Este alimentos livres de agrotóxicos e outras toxinas que fazem mal ao nosso organismo, se contrapõem às práticas populares de plantio do alimento, e que teve um grande declínio principalmente devido a urbanização, pois com o tempo e a falta de espaços físicos, a população foi se afastando dessas atividades agroecológicas.
Gostaríamos ainda de propor medidas de retomadas às hortas domésticas, que podem ser consideradas promotoras da saúde, além de serem econômicas e mais saudáveis. Sendo assim, a campanha “Plantando Alimentos, Colhendo Saúde”, nasce com o objetivo de incentivar as pessoas a optarem pelos alimentos naturais, buscando-os bem próximos e no seu cotidiano.
A proposta traz consigo métodos de interação com o público por meio de cartilhas, vídeos e outros meios de comunicação, de forma criativa e de fácil compreensão. As cartilhas terão conteúdo como dicas e explicações de maneira interativa e dinâmica utilizando recursos de linguagem como o “Você sabia?”. 
Faremos também podcasts com conteúdos de 5 a 7 minutos, em um bate- papo informal para esclarecer os assuntos abordados. Tais recursos serão utilizados para facilitar a comunicação com mais conteúdos e informações aos afiliados da CONAFER e à comunidade em geral. Como parte da campanha, traremos a proposta de um calendário anual elencando datas importantes relacionadas à saúde e ao meio ambiente.

Sobre a SEAGRO

VOCÊ SABIA?

Que nós da SEAGRO entendemos e acreditamos na produção de alimento saudável e sustentável, nas famílias envolvidas no cuidado do plantio, em um movimento que consegue interligar outros eixos centrais como o trabalho digno, o empoderamento feminino e a luta pela democracia?
Além disso, não podemos deixar de lembrar nesse momento tão difícil para o meio ambiente brasileiro, da nossa Floresta Amazônica e Pantanal mato-grossense, onde seguem com toda a riqueza de sua biodiversidade ameaçadas nas queimadas desenfreadas e criminosas, consequências aos desmatamentos irregulares nessas regiões.

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Lutamos e seguimos acreditando nas palavras assertivas de Ana Primavesi, inspiradora do Dia Nacional da Agroecologia comemorado no dia 3 de outubro em homenagem ao seu nascimento, em 1920. Ana Primavesi foi engenheira agrônoma, escritora e uma referência nos avanços de pesquisas sobre o manejo do solo de maneira ecológica. 
Para esta mulher visionária, “sem a natureza não existimos mais, ela é a base da nossa vida. Lutar pelas florestas, lutar pelas plantas, lutar pela agricultura, porque se não vivermos dentro da agricultura, vamos acabar. Não tem vida que continue sem terra, sem agricultura!”

CONAFER apoia todos os semeadores da agroecologia

da Redação

Para comemorar o Dia da Agroecologia, a SEAGRO, Secretaria Nacional de Agroecologia, Políticas Agrárias e Meio Ambiente, está lançando duas cartilhas com informações importantes sobre alimentação e saúde

A criação do Dia Nacional da Agroecologia é uma homenagem ao nascimento (1920) da engenheira agrônoma e escritora, Ana Maria Primavesi, uma referência nos avanços de pesquisas sobre o manejo do solo de maneira ecológica. Primavesi é também uma das principais pesquisadoras da agricultura orgânica, que compreende o solo como um organismo vivo.

É um dia para chamar atenção da sociedade para a importância da agroecologia na saúde de todos e do meio ambiente. Por isso, tornar o cultivo na agricultura familiar totalmente sustentável é uma opção decisiva para proteger a saúde, o planeta e todo o segmento econômico.

No Território Girassóis, em Aiuruoca, MG, a SEAGRO prepara os canteiros para receber as sementes de milho crioulo , mandioca, batata, abóboras e árvores frutíferas em um processo 100% agroecológico.


Defensora das práticas sustentáveis para todo o segmento econômico da agricultura familiar, a CONAFER investe em projetos agroflorestais por meio de SAFs, Sistemas Agroflorestais, que buscam a recuperação de áreas desmatadas em consórcio com a produção agrícola, beneficiando o equilíbrio do ecossistema pela maior absorção do carbono.
A Confederação ainda apoia o controle biológico em todos os tipos de cultura, contrapondo-se ao uso de agroquímicos no controle da produção. E atua na segurança alimentar por meio do cumprimento da Agenda 2030 da ONU pela erradicação da fome no mundo por meio de uma agricultura de baixo carbono.

A Secretaria de Agroecologia da CONAFER lançou duas cartilhas para comemorar a data

A SEAGRO, Secretaria Nacional de Agroecologia, Políticas Agrárias e Meio Ambiente, trabalha pelo resgate da sabedoria ancestral em harmonia com a contemporaneidade, unindo a sabedoria das práticas ancestrais, o conhecimento científico da natureza e as técnicas da moderna agroecologia. 

Para o Dia da Agroecologia, a SEAGRO publica aqui duas cartilhas com informações importantes sobre alimentação e saúde. Leia e saiba mais sobre a importância da agroecologia em nossas vidas e na  sustentabilidade do planeta.

Agroecologia: o sistema produtivo que sustenta a agricultura familiar

da Redação

União de saberes, técnicas tradicionais de cultivo e novos conhecimentos geram mais capacidade produtiva sem esgotar o solo, e ainda preservando o meio ambiente

O tema ambiental está no foco das discussões sobre a expansão da agricultura de alto carbono. Enquanto isso, a procura por alimentos agroecológicos têm crescido no Brasil e no mundo. Tornar o cultivo na agricultura familiar totalmente sustentável é uma opção decisiva para proteger a saúde, o planeta e o segmento todo o segmento econômico.

Entre os princípios básicos da agroecologia está o apelo à biodiversidade, ou seja, todas as formas de vida presentes na agricultura são importantes. Desta forma, as plantas, animais, minerais e tudo mais que envolve a produção desde a semeadura até a colheita, são tratados como parte do processo e requerem muita atenção.

Foto: Embrapa

A agroecologia tem por objetivo eliminar o uso de agrotóxicos e adubos químicos solúveis, que, em excesso, podem contaminar os alimentos e também empobrecer o solo. A agroecologia tem meios de aumentar a sua capacidade produtiva sem o uso de defensivos agrícolas. Um desafio que só é possível vencer com o conhecimento da terra e de tudo o que se planta nela.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, defende que a agroecologia é a chave para erradicar a fome na América Latina e Caribe, pois permite o desenvolvimento sustentável da agricultura, o progresso em direção a sistemas alimentares inclusivos e eficientes, e a conquista de ciclo virtuoso entre a produção de alimentos saudáveis e a proteção dos recursos naturais.

Isso é possível porque a agroecologia se baseia na união de saberes, integrando técnicas tradicionais de cultivo e novos conhecimentos, novas tecnologias limpas e insumos que são capazes de ofertar maior capacidade produtiva sem o esgotamento do solo. E por ser um cultivo mais preocupado com todos os aspectos que envolvem a vida no campo, a tendência é que a agroecologia passe a ser um conceito cada vez mais discutido e buscado para o cotidiano da agricultura familiar no Brasil e no mundo.

Agroecologia e o desenvolvimento rural

Foto: Eco 4 U

A agroecologia é uma alternativa à agricultura convencional. Por meio dela a produção no campo é aliada à preservação dos recursos naturais e dos ecossistemas, de forma a promover o manejo sustentável com a valorização de sistemas orgânicos de cultivo e do conhecimento tradicional dos trabalhadores rurais.

Os preceitos defendidos pela agroecologia contemplam a sociobiodiversidade, permitindo o reconhecimento da identidade sociocultural, o fortalecimento da organização social, a comercialização da produção e a garantia dos direitos dos povos e comunidades tradicionais e dos assentados. Ou seja, todos os envolvidos no processo são beneficiados nos aspectos sócio-econômicos e culturais.

Sendo assim, a agroecologia é um importante modelo de desenvolvimento rural, já que busca modificar as formas de produzir alimento a partir da adoção de sistemas sustentáveis. O setor agroecológico teve um crescimento de vendas acima de 20% entre 2017 e 2018, segundo pesquisa do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), um fator que deve ser considerado pelos que desejam migrar da agricultura tradicional para um modelo mais sustentável e que entrega alimentos com maior qualidade.

A CONAFER trabalha diariamente por uma agricultura sustentável, em equilíbrio com o meio ambiente. Em todas as sociedades mais evoluídas se discute a importância de cuidar do planeta antes que ele entre em colapso. Adotar as práticas agroecológicas é importante para evoluir em todo o processo de cultivo.

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CONAFER cria projeto de agroecologia nas aldeias e valorização das tradições indígenas

Desequilíbrios da política econômica do setor agrícola: a oportunidade da agroecologia brasileira

A diversidade de produtos gera segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental valoriza o produto final. A busca pelo aumento da fertilidade do solo, o desafio de reduzir os custos de produção e a demanda mundial por produtos sustentáveis tornam a agroecologia o único caminho viável para milhões de agricultores familiares brasileiros.

Capa: Hisour

CONAFER cria projeto de agroecologia nas aldeias e valorização das tradições indígenas

da Redação

Projeto CONAFER NAS ALDEIAS reúne ações da Secretaria de Agricultura e Empreendedorismo Rural e duas secretarias dos Povos Originários: Tradições e Culturas e a de Políticas, Estratégias e Línguas 

O compromisso da CONAFER com os agricultores familiares envolve todos os atores da produção familiar no campo e nas zonas rurais mais longínquas: os quilombolas espalhados por todas as regiões do país, as comunidades tradicionais, os ribeirinhos dos milhares de quilômetros de rios, os pequenos produtores do cerrado, pescadores do nosso imenso litoral, piscicultores espalhados em diversas regiões, e os povos originários, reconhecidos também como agricultores familiares conforme a Lei 11.326 de 2006.

A Confederação entende que a cultura indígena é a origem de tudo. Nosso país deve aos povos indígenas a proteção das florestas e matas, dos territórios amazônicos, dos rios e praias, da biodiversidade da Mata Atlântica, a relação com a natureza, a herança da ancestralidade de milhares de etnias, as línguas nativas que compõem boa parte do idioma brasileiro, a culinária raiz, o rico artesanato, o hábito de tomar banho todos os dias, as pinturas em seus corpos que retratam as cores da nossa natureza, a agricultura sustentável, as ervas que curam, os rituais e cerimônias que revelam as interação com o mundo espiritual, o amor pela terra e o respeito pela unidade familiar.

Nossa dívida com os povos originários é imensa. E a CONAFER não vai medir esforços no sentido de valorizar o povo indígena para ajudar a criar melhores condições de autonomia e independência das ações do Estado. Por isso, 3 secretarias da CONAFER se reuniram com as lideranças do Vale da Jurema, nas aldeias Milagrosa, Água Vermelha, Ourinho, Alegre e Paraíso, em Pau-Brasil, Sul da Bahia, com o objetivo de viabilizar projetos para o fortalecimento da produção, cultura e empreendedorismo nestes territórios indígenas. 

Foram ouvidos os líderes das aldeias e suas demandas, e também as reflexões dos anciãos, e assim acumulamos novos e importantes conhecimentos para implementar o projeto. Depois de um levantamento, verificou-se que 90% das áreas destas aldeias têm grande potencial de produção agroecológica e de agroflorestamento. 

Estações ERA são a base para iniciar o projeto CONAFER NAS ALDEIAS

O Projeto ERA, a Estação Empreendedora Rural Agroecológica, elaborado pela SAER, a Secretaria Nacional de Agricultura e Empreendedorismo Rural, nasceu da necessidade de cumprir inúmeras demandas da CONAFER: regularização fundiária, busca por escrituração e titularização de terras; fortalecimento do crédito para produção; garantia do comércio com valor agregado; modernização dos processos produtivos; valorização, fortalecimento e reconhecimento do agricultor como produtor agrícola. 

A implantação do programa faz parte de uma jornada de conquistas da CONAFER para dar uma resposta ao agricultor familiar, aos assentados, pescadores, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais. O projeto surgiu para organizar e tornar viável a produção desse setor econômico. O ERA oferece um leque de opções de culturas para o produtor escolher com qual delas ele mais se identifica para implantar o projeto em sua propriedade. A ideia é que o agricultor possa consorciar sua produção sempre com outra, animal ou vegetal, garantindo uma renda nos 12 meses do ano. O ERA trabalha com a capacitação da família produtora em três setores: produção agrícola e animal; mercado e empreendedorismo; e gestão de crédito. Todo esse suporte agora é oferecido pela CONAFER nos territórios indígenas, além das ações de cultura e de fortalecimento das tradições.

Conheça os módulos de produção que serão desenvolvidos nas aldeias

Módulo Agroflorestal

No módulo Agroflorestal iremos trabalhar com o SAF – Sistema Agroflorestal, Culturas Anuais e Sistema Silvipastoril, trazendo diversas espécies de culturas e trabalhando com espécies nativas do local, como o cacau. Mantendo assim a linha tênue da preservação do meio ambiente, protegendo os leitos de água, a conservação do solo e o sequestro de carbono.

Módulo Piscicultura

O rio corta a aldeia e as famílias se utilizam dessa água, porém, no período de seca há escassez severa de água. Para resolver essa situação, a proposta é construir uma barragem, para que a água fique represada e possa atender às famílias, e com o aumento do leito, fazer dois reservatórios para que a água possa ser usada para irrigação das áreas de produção. 

Módulo Leite Orgânico com criação de bovinos e ovinos 

Com assistência técnica contínua e a implantação de 2 hectares de Sistema Silvipastoril, a ideia é garantir a qualidade do rebanho e do manejo, bem como, a possibilidade de Certificação Orgânica, para que os indígenas aumentem sua receita com o leite.

Módulo Apicultura

As abelhas possuem um papel crucial na polinização das plantas, o manejo das colmeias respeitará a natureza das abelhas, seus ciclos biológicos e sua capacidade de produzir alimentos naturais e saudáveis, fonte de saúde para os consumidores. Apenas 30% da produção do apiário será destinado à comercialização, 70% fica na colmeia para sustento das abelhas. O objetivo é produzir mel puro, orgânico e em total harmonia com a natureza.

Módulo Centro de Capacitação 

Capacitação para o desenvolvimento rural, nos aspectos ambientais, sociais, econômicos, antropológicos e agrícolas. Contando com uma sala com tecnologia em informática e apresentando 3 cursos inicialmente: Compostagem e Matéria Orgânica,  Cooperativismo, Associativismo e Agroecologia, além de Manejo e Cultivo do Cacau.

Módulo Culturas Vegetais e Estufa 

Para trabalhar no cultivo das ervas medicinais e a coleta de material genético da Mata Atlântica, e realizar a cura e secagem das ervas e a produção de fármacos, será construída uma estufa para estes processos. 

Ações de valorização das tradições, cultura e esportes a serem implantadas nos territórios

Tradição e Cultura

Sempre trabalhando com a mãe natureza como inspiração, serão desenvolvidas ações para o fortalecimento dos rituais, danças, cantos e rodas de conhecimento. Ações para conservação da Caatinga e da Mata Atlântica também estão previstas. 

Resgate do Esporte

Através de seus jogos os indígenas fortalecem o ânimo e seu estado de espírito. Além de resgatar os esportes tradicionais indígenas, teremos após o fim da pandemia, a realização de uma competição de futebol com 14 equipes da região.

Artesanato

O desenvolvimento da arte indígena brasileira acontece de várias formas, pois cada etnia é detentora de comportamentos diferentes e costumes próprios, o que leva cada tribo a desenvolver a sua arte de forma única e inédita. Os indígenas produzem a sua arte, não para ser admirada e comparada com outras artes em galerias, mas sim para refletir suas crenças, seus hábitos, suas regras, suas concepções de vida e de mundo, perpetuando as suas tradições.

Danças

As danças são encontradas em diferentes povos, mas quando se fala na dança em comunidades indígenas, elas se diferem totalmente em relação às danças típicas e comuns de outras culturas. Isso se dá porque a dança indígena acontece como forma de ritual e fortalecimento dos costumes, como homenagem aos antepassados, cura de doenças, agradecimento pela colheita, pesca e caça, na mudança do jovem para a idade adulta e na preparação para a guerra.

Línguas Indígenas

Será construído uma escola de línguas indígenas, com o intuito de resgatar as diversas línguas do Brasil original. Em 2019 foi o Ano Internacional das Línguas Indígenas. O tema foi escolhido pela ONU para valorizar a preservação das línguas dos indígenas do mundo todo.

Para mais informações e desenvolvimento do projeto CONAFER NAS ALDEIAS, entre em contato por meio do portal conafer.org.br 

Agroecologia frente às pandemias modernas

FONTE: Brasil de Fato

A agroecologia, mais do que uma alternativa, é uma necessidade para enfrentar a atual crise civilizacional

Em meio a uma pandemia causada pelo chamado coronavírus (covid-19), que tem os grandes meios de informação comentando sobre o número de pessoas infectadas, falecidas e as medidas para interromper sua expansão mundial (fechamento de fronteiras, estado de exceção, quarentena, isolamento social), pode-se ver como o foco está na prevenção, contenção e busca de tratamento.
No entanto, no que diz respeito às causas, embora se acredite ter uma origem zoonótica, como é o caso do consumo de sopa de morcegos em mercados chineses, o problema de fundo não passa pelo consumo de animais silvestres, como bem expõe a pesquisadora Silvia Ribeiro, mas pela própria destruição dos habitats daqueles seres vivos pela agricultura industrial, o que gera as condições para as aceleradas mutações virais. Isto, acompanhado pelo uso e abuso de antibióticos para o negócio da carne (engorda e prevenção de infecções em animais).
Em outras palavras, causas estruturais, assim como outros vírus (gripe aviária H5N1, gripe suína H1N1 e a doença da vaca louca), estão relacionadas a um sistema agroalimentar que se sustenta na ideia antropocêntrica de que certos animais (porcos, vacas, galinhas) são meros objetos para a exploração. Consequentemente, como também afirma o pesquisador Rob Wallace, estamos cada vez mais inseridos em um Planeta Fazenda, onde o agronegócio busca finalmente concentrar a produção de alimentos em todo o mundo, sem se importar minimamente, seja através da apropriação de terras, desmatamento e uso de agrotóxicos.
Consequentemente, o problema vai muito além do que suscita uma visão sanitarista, centrada na saúde pública, mas, sim, está em questionar um sistema de vida atual, que declarou guerra à Natureza, ao acreditar estar acima de seus limites. Portanto, há uma necessidade urgente de políticas que coloquem no centro o cuidado com a vida, capazes de recuperar conhecimentos não apenas científicos e que permitam criar sistemas alimentares sustentáveis.
Por tudo isso, a agroecologia é a melhor alternativa frente à agroindústria atual, pois é capaz de entrelaçar saberes provenientes das chamadas ciências naturais e ciências sociais, rompendo assim a dicotomia cultura-natureza. Por isso, concebe o mundo a partir de uma perspectiva socioecológica, onde tanto as desigualdades sociais como as ambientais fazem parte do mesmo.
Além disso, a agroecologia é o resultado de vínculos com movimentos sociais e organizações de camponeses, indígenas, mulheres e trabalhadores rurais sem-terra, que concebem a alimentação autonomamente, localizados nos territórios, e não como algo externo a eles, como o negócio da alimentação quis nos fazer acreditar com seus produtos de diferentes partes do mundo, sem minimamente se importar com a pegada ecológica gerada.
O caso da Via Campesina talvez seja o mais notável que existe, pois reúne 200 milhões de agricultores, 164 organizações espalhadas por 73 países, provenientes da África, Ásia, Europa e América, onde se promove uma agricultura de pequena escala. Por isso, rejeita as concepções reducionistas e tecnocráticas provenientes da agronomia, centradas em inovações tecnológicas, que omitem fatores institucionais, onde estão em jogo as relações de poder.
É por isso que a agroecologia fomenta o diálogo intercultural, de maneira crítica aos poderes existentes, para resgatar a memória de diferentes povos na história por milhares de anos, em relação à forma como produzem seus alimentos. Não é à toa que, embora a agroindústria busque reverter isso, concentrando a terra, os pequenos agricultores são os que geram a maior parte da produção agrícola do planeta, como verificou a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), apesar de possuírem apenas 25% dos territórios.
Em síntese, é necessário interromper um modelo agroindustrial que gera enormes impactos socioambientais e danos irreparáveis à saúde humana e não humana, por meio de diferentes pandemias. É por isso que a agroecologia, mais do que uma alternativa, é uma necessidade para enfrentar a atual crise civilizacional, que mais uma vez se deixa ver com o surgimento do coronavírus.

Projeto cria marco regulatório para a promoção da agroecologia no País

FONTE: Agência Câmara de Notícias
O Projeto de Lei 6529/19 cria um marco regulatório para a promoção da agroecologia no País. O texto estabelece princípios, diretrizes e procedimentos, bem como fontes de recursos e um modelo de gestão para implementação do Programa de Fomento e Desenvolvimento de Sistemas Agroflorestais de Base Agroecológica (Prosaf). A chamada agroecologia é uma forma de agricultura sustentável e orgânica e que se utiliza de tecnologias limpas e integrada ao ecossistema.
A proposta estabelece que um dos objetivos do programa é promover a segurança alimentar, a viabilidade econômica dos produtores e a transição para uma agricultura resiliente à mudança do clima. Além disso, busca práticas agrícolas diversificadas, geradoras de serviços ambientais e formadoras de paisagens integradas do espaço rural-urbano.
De acordo com o projeto, o Prosaf é destinado aos agricultores familiares, aos assentados da reforma agrária, aos povos e comunidades tradicionais e aos agricultores urbanos.
A proposta cria a certificação e o selo agroflorestal com a função de habilitar os sistemas agroflorestais de base agroecológica como beneficiários dos incentivos e pagamentos por serviços ambientais.
Em relação ao financiamento do Prosaf, a proposta prevê recursos vindos de dotações orçamentárias no Orçamento Geral da União, de operações de crédito destinas a investimentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar; de operações de crédito destinadas ao Plano ABC – Agricultura de Baixa Emissão de Carbono; entre outras fontes de recursos nacionais e internacionais.
O autor do projeto, deputado Pedro Uczai (PT-SC), afirma que o programa tem como principal finalidade estabelecer um marco normativo, de caráter programático, capaz de canalizar e orientar a elaboração e execução de iniciativas de promoção de Sistemas Agroflorestais de Base Agroecológica no País.
“Os Sistemas Agroflorestais representam uma das mais promissoras vias de mitigação e adaptação à mudança do clima do setor agrícola, na medida que integram no mesmo arranjo produtivo as dimensões econômica, social e ambiental. Na abordagem desses sistemas de produção, prevalece a lógica que combina práticas de adaptação, para aumentar a resiliência da agricultura, e de mitigação, visando reduzir as emissões gases de efeito estufa”, explica.
Tramitação
O projeto, que tramita em caráter conclusivo, será analisado pelas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Investimento em agroecologia ganha destaque

FONTE: A Tarde
O Programa de Desenvolvimento Territorial do Banco do Nordeste (Prodeter) e a agroecologia estão entre as pautas a serem trabalhadas este mês em reuniões dos representantes oficiais com os gestores de prefeituras do interior baiano.
Estratégias de desenvolvimento local do Banco do Nordeste incluem etapas como a formação de conselhos gestores territoriais com as devidas definições de atividades prioritárias.
Também serão definidas entre os representantes do banco oficial e os gestores dos municípios baianos as estratégias de desenvolvimento para a zona rural dos municípios, com destaque para projetos de agroecologia ou agricultura sustentável.
De acordo com a comunicação oficial do Prodeter, o Conselho Gestor definiu a agroecologia como atividade prioritária que conta com o primeiro apoio da prefeitura de Lençóis, uma das principais cidades da Chapada Diamantina.
Lençóis – Integrante do conselho gestor, devido a sua posição de destaque na economia da Chapada, Lençóis abriu a série de reuniões com o agente de desenvolvimento do Banco do Nordeste, Luís Henrique Barbosa.
Na oportunidade, o agrônomo e consultor da Secretaria Municipal de Agricultura, Humberto Barrios, destacou a oportunidade da agroecologia em práticas sustentáveis que envolvam o manejo dos recursos naturais.
– Nossa região possui uma ambiência de relevância nas questões ambientais, então precisamos levar isso em conspiração. Essa também é uma oportunidade para Lençóis destacar-se no que diz respeito à produção do campo, disse o representante da cidade, ao final da reunião.

“Ficar falando de número [de votos para a reforma da Previdência] não é bom. A gente tem a nossa conta, a gente tem a nossa projeção, outras projeções estão sendo feitas, a própria imprensa está fazendo.” Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, em entrevista após reunião com os líderes partidários

Tristeza em Alagoinhas
Alagoinhas, a 108 km de Salvador, é o local de cremação do corpo do empresário Sadi Gitz, de 70 anos, que cometeu suicídio durante o Simpósio de Oportunidades, evento realizado pelo governo sergipano. Ele cometeu o ato depois de ouvir o governador Belivaldo Chagas (PSD) anunciar a descoberta de um novo reservatório de petróleo no estado, o que tornaria Sergipe a “estrela do gás natural do Brasil”.
– Mentiroso! – limitou-se a dizer o empresário, antes de tirar a própria vida.
Gitz já havia anunciado que a Cerâmica Sergipe, que ele dirigia, havia entrado em hibernação, paralisando o processo industrial em razão do preço do gás comprado pela concessionária Segás, empresa estatal.
Mercado de cachaça
O Instituto Brasileiro de Cachaça (Ibrac) brindou o acordo de livre-comércio firmado entre o Mercosul e a União Europeia como forma de expansão do mercado do produto nacional que movimentou US$ 7,8 milhões em 2018 em exportação.
Um dos recentes movimentos do setor foi o lançamento do Manifesto da Cachaça, que defende a ampliação de pontos essenciais para a valorização e o crescimento sustentável da produção. Entre os itens está a ampliação dos esforços de promoção da cachaça como produto exclusivo e genuinamente brasileiro, a reavaliação da carga tributária e o combate à clandestinidade e à informalidade
Na Bahia, o valor estimado chega a 20% do total produzido nacionalmente, ou cerca de R$ 1,4 bilhão.
POUCAS & BOAS
A 2ª edição do Cotton Bike reúne hoje no Haras do Dely, arredores de Barreiras, participantes da prova de Mountain Bike Olímpico (XCO), com 16 categorias, valendo pelo ranking nacional e premiação de R$ 15 mil. Além da prova, o evento terá atrações musicais e atividades para crianças no espaço kids e orientações para uma vida saudável. A organização é da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa) com apoio do Fundeagro e o Instituto Brasileiro do Algodão (IBA).
Em Lençóis acontece hoje mais uma edição da Cavalgada Ecológica, com cavaleiros e amazonas de toda a Chapada Diamantina. O encontro será a partir das 10h na fazenda Santo Antônio, onde os participantes, além de contemplar a cachoeira do Mosquito, terão acesso a feijoada e apresentações musicais.

Agroecologia para um desenvolvimento rural sustentável

FONTE: Sul 21
O mundo tem um desafio enorme: alimentar uma população de 7 bilhões que está crescendo e pode chegar a 9 bilhões de pessoas nas próximas décadas. Infelizmente, cerca de 1 bilhão de pessoas passam fome no planeta. E, cresce os que são malnutridos ou adoecem por má alimentação. Frente a isso, faz-se necessário e urgente pensar a segurança alimentar na sua quantidade e qualidade e na sua relação com os sistemas agrícolas e a soberania dos países.
É neste contexto que o Brasil está inserido. A sociedade, a economia e a agricultura brasileira também passam por grandes transformações. Nesse debate estão as opções de desenvolvimento rural ou ainda, o desenvolvimento sustentável.
Historicamente a posse e o uso das terras sempre foi fator de poder político e econômico do país. E continua sendo, mas agora configurado no denominado agronegócio, que une, entre outros segmentos, os proprietários de terras, as corporações que produzem e comercializam os insumos agrícolas (sementes, agrotóxicos etc.), as grandes empresas de comércio internacional e por vezes até fundos de pensão que constroem conglomerados agrícolas para ampliarem seus lucros. Portanto, a produção, industrialização e comercialização de alimentos está nas mãos de poucas corporações.
O que está em disputa, portanto, é o modelo de desenvolvimento rural e quem controlará a produção de alimentos do país. E, qual o papel da tecnologia, das pessoas, do capital e do trabalho no desenvolvimento rural?
É preciso questionar-se: o atual modelo de agricultura praticado no país é sustentável? O atual modelo produz alimentos saudáveis? A alimentação predominante produz saúde e qualidade de vida e proteção ambiental?
A resposta é: o modelo agrícola brasileiro é insustentável; não produz alimentos saudáveis; o padrão de alimentos e de ocupação da terra não protege o meio ambiente nem promove saúde e qualidade de vida.
Mas então: é possível ter uma agricultura que produza alimentos em quantidade suficientes e com a qualidade necessária? Sim, é possível e temos milhares de famílias que estão produzindo em todas as regiões do país, baseado nos princípios e utilizando-se de práticas da agroecologia. O conceito de agroecologia se opõe ao conceito agrícola predominante no país, sustentado, como vimos acima, pelas grandes corporações.
Para Lauro Foscheira, coordenador do Centro de Tecnologias Alternativas Populares – CETAP, com sede em Passo Fundo/RS, “a agricultura ecológica é praticada a décadas pelos agricultores familiares e nós do CETAP, há mais de 30 anos acompanhamos centenas de famílias rurais que buscam o desenvolvimento sustentável com este viés ecológico. Além do mais, a tarefa de produzir a sustentabilidade em todos os sentidos, é uma tarefa que envolve a todos, dos agricultores aos consumidores, passando por órgãos de ensino, pesquisa e extensão, empresas, organizações da sociedade civil e gestores públicos. Cuidar da biodiversidade e dos recursos naturais, este certamente é um dos principais legados que podemos e necessitamos deixar para as gerações sucessoras.”
Da mesma forma, ao longo das duas décadas a Associação Regional de Educação, Desenvolvimento e Pesquisa – AREDE, com sede em Santa Rosa/RS está trabalhando com Educação, Cooperativismo, Economia Solidária e Agroecologia, com ações interligadas para fortalecer a proposta da produção de alimentos com base na agroecologia. Ademir Amaral, um dos coordenadores da AREDE, enfatiza que para fortalecer as ações da agroecologia existe uma intercooperação entre as várias entidades de apoio e os milhares de produtores. A AREDE faz parte REDE ECOVIDA. Ademir Amaral afirma que “a REDE ECOVIDA se concretiza basicamente a partir de uma identidade e reconhecimento histórico entre as iniciativas de ONGs e organizações de agricultores construídas na região Sul do Brasil. Sua formação oficial data de 1998, como resultado da articulação iniciada anos antes por essas entidades. Atualmente conta com 27 núcleos regionais, abrangendo cerca de 352 municípios. O trabalho congrega, aproximadamente, 340 grupos de agricultores (abrangendo cerca de 4.500 famílias envolvidas) e 20 ONGs. Em toda a área de atuação da ECOVIDA acontecem mais de 120 feiras livres ecológicas e ainda outras formas de comercialização”.
Portanto, a agroecologia surge como um movimento crítico ao modelo de agricultura que iniciou no pós-guerra, se impôs ao mundo como modernização agrícola e ficou conhecia como revolução verde e vendeu a ideia de resolver a fome do mundo. Disseminou-se que a tecnologia poderia solucionar a fome das populações. Entretanto, as consequências foram graves. A expansão dos monocultivos agrícolas levou a sistemas frágeis e dependentes de agrotóxicos e insumos externos. Esse modelo resultou em impactos sociais, econômicos e ambientais. Com o conceito de revolução verde e aplicação tecnológica o Brasil tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, o que compromete toda a biodiversidade e vida humana.
Para a FAO (Organização das Nações Unidas Para a Agricultura e Alimentação), a agroecologia é estratégica para alimentar o mundo. Isso porque vai na perspectiva do desenvolvimento sustentável, ou seja, ao mesmo tempo que promove sistemas produtivos que asseguram a segurança alimentar dos povos protege o meio ambiente e proporciona a eficiência do uso dos recursos naturais, base de sistemas alimentares resistentes.
A agroecologia, como visão de desenvolvimento e de produção, aporta benefícios para o meio ambiente, sociedade e economia. Promove a descentralização da produção e aproxima os produtores dos consumidores. Para que isso ocorra, propõe formas de organização que promovem a autonomia e o empoderamento da sociedade civil, dos movimentos, dos grupos, associações e cooperativas, na produção, comercialização ou agroindustrialização.
É preciso estimular esse outro padrão de agricultura e de desenvolvimento. E o Estado tem um papel estratégico para induzir a um outro estilo de agricultura, em bases sustentáveis e capaz de alimentar toda a população brasileira.
Desta forma, as políticas públicas exercem um papel importante. No Brasil, por muito tempo o crédito não dialogava com esse padrão da agroecologia, pois havia sido formatado em outra época. Mas, faz um bom tempo que o PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), principal programa financiador da agricultura familiar passou a financiar sistemas agroecológicos. Da mesma forma, política como Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) exerceram papeis organizadores da produção em âmbito regional e local porque garantiram a compra diversificada de pequenas propriedades. Isto para citar algumas políticas importantes, que estão em risco devido ao congelamento de gastos sociais e os contingenciamentos promovidos pelo governo Temer e Bolsonaro. Fatores de risco para a promoção de sistemas familiares diversificados e sustentáveis.
Uma agricultura sustentável, sem o uso de agrotóxicos é perfeitamente possível. Os agricultores, suas organizações e as entidade de apoio já provaram isso. Mas, é necessário promovê-la a partir de uma estratégia que coloque isso como prioridade. O país só tem a ganhar porque tem a garantia da segurança e da soberania alimentar.
Nesse sentido, para a transição a um outro modelo agrícola, reveste-se de importância a pesquisa e a assistência técnica e extensão rural com financiamento público. Nisso, também há riscos, porque a pesquisa e os recursos para assistência técnica estão sofrendo cortes nos últimos anos, algo que coloca mais dificuldades para a agricultura familiar e para a agroecologia.
Deve ser prioridade de um país construir sistemas agrícolas sustentáveis que coloquem a segurança alimentar e nutricional da população como objetivo central. Algo que deve ter o Estado como estimulador e a sociedade como aliada.
A agroecologia é estratégica para dar as respostas necessárias na produção, na inclusão social e na proteção ambiental. Nas últimas décadas inúmeras organizações como CETAP, CENTRO ECOLÓGICO, CAPA, REDE ECOVIDA, Cooperativa ECOVALE, Cooperativa COOPVIDA, Cooperativa UNICOOPER, UNICAFES, entre outras, contribuíram decisivamente para construir outro modelo de produção e consumo. Algo possível e necessário, como mostra Porto Alegre com a maior feira ecológica no mundo, que acontece todos os sábados na Redenção, prova contundente da força da agroecologia e das organizações da sociedade e do consumidor consciente.

Escola do interior de Ipê desenvolve projeto de agroecologia

FONTE: Correio do Povo
Alunos têm à disposição uma horta, pomar, composteira e relógio de plantas medicinais

Estudantes da Escola Municipal Plácido Damiani, localizada no interior do município de Ipê, na Serra gaúcha, estão desenvolvendo um projeto que visa estimular nos jovens a agricultura sustentável baseada na Agroecologia. O projeto começou há dois anos e, neste ano, foi denominado como “Sementes do Amanhã” e está sendo realizado no contraturno das aulas, uma vez por semana.
Participam do projeto 25 alunos do 6º ao 9º ano selecionados a partir de critérios estipulados pela escola. Para desenvolverem o conhecimento de forma prática, os alunos têm a disposição uma horta, pomar, composteira e relógio de plantas medicinais. Também estão sendo abordados conceitos de sustentabilidade, agroecologia e economia verde. “A partir da autorização da Secretaria de Educação e Cultura para realizar o projeto no contraturno das aulas, ele ganhou uma nova dimensão, possibilitando inclusive visitas de campo em propriedades rurais que já adotam essas práticas”, afimou a professora Enedina Zanotto Pontel.
Segundo o professor Maico Parisoto, a ideia surgiu em função de o município ter o título de Capital Nacional da Agroecologia desde 2010 e por ser uma escola do campo. Além disso, a  maioria dos alunos residem na área rural e podem levar a ideia para suas famílias. Para o professor, os resultados esperados com esse projeto são o envolvimento dos alunos com os temas de sustentabilidade e agroecologia, formando agentes transformadores da realidade onde estão inseridos. Para a diretora Josmari Maziero Ferreira, “está sendo muito gratificante ver o envolvimento dos alunos com o tema, já que todos têm sua subsistência oriunda da agricultura convencional e, assim, podemos plantar essa semente da agroecologia neles” destacou.

A vida calejada das mulheres do campo

FONTE: Outra Saúde
Em casa, o machismo oprime ainda mais, favorecido pelo isolamento. Na terra, o trabalho é intenso – mas invisível. As poucas políticas públicas favoráveis estão ameaçadas. Mas elas lutam – e se encontram com o feminismo
A desigualdade de gênero nos centros urbanos é um problema, mas no campo as mulheres estão ainda mais fragilizadas em vários aspectos. As longas distâncias entre vizinhos, a falta de telefonia e internet e a ausência de serviços de saúde e de delegacias especializadas são uma combinação que favorece e muito a ocorrência – e a subnotificação – da violência doméstica. A importância econômica da atividade feminina na agricultura familiar é ignorada. A violência patrimonial é uma realidade para grande parte das camponesas, que em alguns casos chegam a ter roubado seu direito à herança. A depressão das mulheres mais velhas, que perdem com a capacidade reprodutiva o pouco poder que tinham, fica invisível e sem cuidados. Juntem-se a isso aqueles problemas que também atingem mulheres da cidade – como a falta de voz em espaços como sindicatos e mesmo movimentos sociais – e temos uma situação nada fácil.
Mas, em todo o país, camponesas se organizam há anos, conscientes das desigualdades e em busca de superá-las. Neste 8 de março, para entender as dificuldades e as lutas das mulheres na agricultura familiar e nos movimentos agroecológicos, o Outra Saúde conversou com a agrônoma Elisabeth Cardoso, que atua no Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA-ZM), coordena o Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e milita na Marcha Mundial de Mulheres. Ela conta que muitas camponesas se articulam hoje com movimentos feministas e, mesmo que a passos lentos, um bom caminho foi percorrido. Porém, muitas conquistas já foram enterradas – e a perspectiva em termos de políticas públicas é a pior possível.
Confira:
Quais são os problemas principais enfrentados pelas mulheres do campo devido às relações de gênero? Quais são as especificidades dessas relações nas zonas rurais?

Alguns problemas, como a exclusão da mulher das decisões e o menor acesso ao dinheiro, não são específicos do campo, mas sim globais. Em geral, as mulheres ocupam espaços de menor poder, com menos visibilidade de sua atuação.
Algo bem específico em relação ao campo e à agricultura familiar é que o trabalho doméstico – que é considerado um trabalho reprodutivo, que não é produtivo, ou seja, que não gera renda – é ainda mais invisibilizado no campo do que nos centros urbanos, e muito do trabalho da mulher na agricultura familiar se confunde com o trabalho doméstico.
Ao longo da nossa experiência de trabalho com mulheres e a partir de algumas pesquisas em parceria com a Universidade Federal de Viçosa, vimos que as mulheres atuam e trabalham na propriedade como um todo, nas lavouras, participando da produção daquele produto que chamamos de “carro-chefe” da propriedade. Elas vão para as lavouras, capinam, estão nas colheitas… Nos momentos em que se precisa de mais mão de obra, as mulheres e jovens estão todos lá. Mas, no dia a dia, nem sempre elas estão na produção comercial na mesma intensidade que os homens, justamente porque tem todo o trabalho doméstico que elas precisam assumir sozinhas.

A impressão que dá é que as mulheres são apenas donas de casa, mas isso não é verdade.

Isso é muito forte na zona rural, os homens têm pouquíssimo compromisso com o trabalho reprodutivo: de arrumar a casa, lavar roupa, fazer comida, cuidar dos filhos e dos idosos, dos doentes. Isso é um trabalho que geralmente cabe às mulheres e exclusivamente a elas, e por isso às vezes elas não podem passar o dia todo na lavoura. Aqui na Zona da Mata de Minas Gerais a gente observa que elas acordam mais cedo que o marido, fazem café, o homem vai para a roça e elas continuam trabalhando em casa. Por volta de 10h30, 11h, elas vão para a roça, levam o almoço para o marido e aí ficam um pouco por lá, capinando ou fazendo alguma outra atividade. Mas logo voltam para casa porque há coisas para cuidar, janta para fazer etc.
Então elas vão diariamente à lavoura, mas não estão lá o tempo todo. A impressão que dá é que as mulheres não trabalham nas lavouras, são apenas donas de casa, mas isso não é verdade. Inclusive porque, além de irem para a roça, ao redor da casa elas têm uma produção intensa – como é perto, ali elas conseguem ficar o dia inteiro. Então em geral há uma produção de horta, árvores frutíferas e criações de pequenos animais como galinhas ou porcos, ou seja, itens fundamentais tanto para o consumo das famílias como para a venda dos excedentes.
Percebemos aqui – e isso aconteceu no país inteiro – que quando foi criada alei obrigando as prefeituras a comprarem 30% da alimentação escolar da agricultura familiar, a estratégia das famílias foi a seguinte: as mulheres que já tinham horta para o consumo da família aumentaram essa produção para vender para as escolas, foram aumentando seus espaços de cultivo e sua produção para se tornarem fornecedoras.
Começamos a perceber que havia uma movimentação econômica nos quintais que simplesmente não era contabilizada. Fizemos uma pesquisa para sistematizar isso usando cadernetas agroecológicas: um material onde as mulheres anotaram cotidianamente o que colhiam, o que ia para o consumo, venda, troca ou doação. Neste último caso, há muitas escolas agrícolas em que, em vez de pagar as mensalidades em dinheiro, as famílias mandam alimentos.
O que é consumido também é fundamental de ser contabilizado. Sempre ouvimos que o que dá dinheiro aqui na região é o café. Mas os dados da nossa sistematização mostraram que isso não é verdade: somente a renda do café não seria suficiente para alimentar a família o ano inteiro, até porque se colhe café uma vez por ano. Enquanto isso, a produção para o autoconsumo é fundamental. Chegamos a ver, em outra sistematização, que até 70% do que é consumido nas famílias vem dos quintais. Então essa produção das mulheres tem uma importância econômica que não não é visibilizada.

Elas têm menos poder que os homens, não têm o mesmo valor, tanto em casa como nos movimentos sociais, nos sindicatos, nas organizações às quais são filiadas. São poucas as mulheres que são presidentes ou diretoras, seu papel é menos valorizado que o dos homens.

Mas encontramos ainda as mesmas desigualdades pelas quais as mulheres passam em outros lugares. Elas têm menos poder que os homens, não têm o mesmo valor, tanto em casa como nos movimentos sociais, nos sindicatos, nas organizações às quais são filiadas. São poucas as mulheres que são presidentes ou diretoras, seu papel é menos valorizado que o dos homens, como também acontece na cidade.
De fato, o mais específico é a invisibilidade do trabalho produtivo delas, porque o quintal é visto como uma extensão da casa. Então elas não recebem assistência técnica específica, não conseguem pegar crédito para financiar o trabalho nos quintais, porque geralmente quem libera tanto a assistência técnica oficial como o crédito não tem olhado os quintais como espaços de produção.

O marido morre, os filhos herdam a terra e a mulher herda uma vaca, uma máquina de costura.

Há muita violência patrimonial também. As propriedades em geral são da família e às vezes estão no nome da mulher, mas quem decide o que plantar e o que vender são os homens. Elas têm menos autonomia inclusive em relação à venda da propriedade. Em nossas pesquisas, vimos algo que acontecia muito na região Sul: é negado às mulheres o direito à herança. O marido morre, os filhos herdam a terra e a mulher herda uma vaca, uma máquina de costura. Aqui em Minas, muitas vezes quando a propriedade é do pai da mulher e ele morre, o cartório coloca a terra herdada no nome do marido, e não no dela. O machismo institucional colabora para manter essa cultura. Então é o marido quem define tudo, muitas vezes vende a terra e nem consulta a mulher. Essa violência patrimonial é muito forte para as mulheres do campo. Afinal, o meio de produção é um patrimônio da família, então quando os homens têm mais poder nesse espaço de produção, as mulheres estão submetidas a uma grande violência.
Em vários encontros e eventos, a frase “Sem feminismo não há agroecologia” se repete. Qual o sentido disso?
No GT de mulheres da ANA, sistematizamos as experiências de agroecologia protagonizadas por mulheres e percebemos que, na maioria dos casos, a iniciativa para a conversão de produções convencionais para o modelo agroecológico vem das mulheres, a partir de uma preocupação com a alimentação da família. Porque nesse papel de gênero que as mulheres cumprem, elas se preocupam com os alimentos, com os filhos, com o cuidado. E muitas vezes a mulher não quer dar um alimento com veneno para os filhos. Então começa a fazer uma hortinha, às vezes a hortinha começa a fazer sucesso, ela começa a dominar a tecnologia de produzir sem veneno, os vizinhos compram, dali a pouco ela entra em uma rede de comercialização… Quando isso dá certo e os maridos veem a possibilidade de conseguir vender os produtos agroecológicos, então se converte toda a propriedade. Percebemos que em geral a iniciativa vem delas.
Mesmo assim, elas permanecem nesse papel de subordinação, tanto nas propriedades quanto nos movimentos, inclusive no movimento agroecológico. Muitas vezes as lideranças que participam dos eventos e dos grandes encontros são homens. Eles dominam mais o espaço do que as mulheres. Elas ficam ali em casa, na comunidade, no máximo participam das atividades da igreja. É claro que já existem muitas mulheres lideranças, muitas inclusive se sobressaíram como lideranças, mas elas ainda são minoria.
Em um dado momento, percebemos que era preciso fazer esse reconhecimento. Quando se começava a pensar em políticas públicas para a agroecologia, as mulheres não tinham um papel específico. Essa informação da produção econômica dos quintais, por exemplo, deveria ter gerado uma política pública de fomento aos quintais. Mas percebemos que isso fica invisibilizado, e dentro do movimento agroecológico também.

Se não atende às necessidades e anseios de todos os membros da família, se não vê as especificidades das mulheres, se de alguma maneira reforça a exclusão delas, se não olha para o cultivo delas e para as suas especificidades, então não é agroecologia.

Quando a gente fala que sem feminismo não há agroecologia, pensamos no feminismo também em relação à maneira como se olha o trabalho. Sem valorizar o trabalho da mulher, não se desenvolve a agroecologia plenamente. Porque quando falamos em agroecologia, não estamos falando só dos insumos usados na agricultura. Estamos falando de um projeto que vai além do que se chama de agricultura orgânica, ou seja, da produção de alimentos ‘limpos’. A agroecologia envolve projetos sociais importantes. É importante a estrutura fundiária da agricultura familiar, da agricultura camponesa. A agroecologia não envolve a lógica de concentração de terra, de latifúndios, pelo contrário. E a diversidade da produção é uma das características da agroecologia. Quanto maior a biodiversidade na propriedade, mais interessante para esse modelo, mais equilíbrio há no sistema.
Então, nesse processo, a gente percebeu que se o movimento agroecológico continuasse de olhos fechados para a desigualdade de gênero, para o fato de que há relações diferentes e que as mulheres têm menos poder e menos visibilidade do seu trabalho, então aquilo não favorecia a agroecologia. Não estaria considerando a diversidade das pessoas de uma família. Trabalhamos com agricultura familiar, e muita gente pensa na família como um espaço sem conflitos. E não é verdade, a origem de quase todos os nossos conflitos vem da família. O pai, a mãe, o filho, o idoso, cada um é diferente, quer coisas diferentes, acredita em coisas diferentes. E nesse espaço, os homens adultos em geral são os que têm mais poder.
Por exemplo, quando fomos falar sobre a assistência técnica rural para agroecologia, uma coisa que o GT de mulheres da ANA pleiteou junto ao governo era que 50% dos beneficiários deveriam ser mulheres. Porque é muito comum que a assistência técnica só converse com os homens. Muitas vezes a mulher vai abrir a porta e o técnico pergunta se tem alguém em casa. Elas dificilmente conseguem ser atendidas em suas demandas, que muitas vezes são para a produção de galinhas, de verduras, de frutas, para outra lógica. Aqui na Zona da Mata mineira, em geral a assistência técnica vai para o café, o produto que todos têm. Mas dificilmente chega aos quintais, que são os espaços de domínio das mulheres.
O recado desse lema para o movimento agroecológico é que temos que mudar as lentes para olhar a produção agroecológica. Se não reconhecemos o papel e o trabalho das mulheres, esse modelo de produção não está em equilíbrio. Se não atende às necessidades e anseios de todos os membros da família, se não vê as especificidades das mulheres, se de alguma maneira reforça a exclusão delas, se não olha para o cultivo delas e para as suas especificidades, então não é agroecologia. Pode ser uma produção limpa de alimentos, uma produção orgânica, mas não é agroecológica.
Quando as questões de gênero começaram a ser uma preocupação desses movimentos sociais?
Os movimentos do campo no geral pensam muito isso a partir dos anos 1990. Na época a Contag, por exemplo, fez uma grande campanha de documentação das mulheres do campo – porque muitas não tinham nem documentos pessoais – e forçaram os sindicatos a ter no mínimo 30% de mulheres. Foram maneiras de se reforçar a base e pensar em mulheres lideranças. Também se organizaram as funções das mulheres nos sindicatos. No MST essa preocupação surge também quase no seu princípio, logo se criou um coletivo de gênero no movimento para discutir essas questões. Também na ANA, dois anos após sua criação se formou o GT de mulheres. A Contag hoje tem uma estrutura que inclusive organiza a Marcha das Margaridas, tem uma coordenação nacional de mulheres composta por todas as federações estaduais.

É fácil perceber, quando se está no campo, que as mulheres são mais envolvidas do que os homens na agroecologia

A questão é que esses espaços existem, o enfrentamento existe, mas isso nunca se tornou tranquilo em nenhum desses movimentos. Embora estejamos há muito tempo lutando, não dá para dizer ainda que estamos em condição de igualdade. Tem um enfrentamento enorme que precisa ser feito no caminho.
Primeiro tem a própria capacidade da mulher de estar em uma reunião e interferir, porque o espaço público é negado às mulheres desde a infância. Quando se coloca uma reunião com homens e mulheres, se as mulheres não têm muito a experiência da fala, em geral elas se calam. Há o desafio de sair de casa e deixar os filhos, de o marido permitir que elas saiam. Porque se uma mulher sai para ir a uma reunião, isso significa que alguém tem que fazer a comida no lugar dela. É um processo árduo que as mulheres precisam cumprir. Isso sem falar no próprio preconceito dos outros parceiros nos movimentos, de achar que mesmo nas reuniões as mulheres precisam cuidar mais da organização, da limpeza, da comida, do espaço das reuniões, mas quem faz a pauta política em geral são os homens. É como se elas tivessem mesmo um papel subalterno nos movimentos ainda, via de regra. Esse debate existe há muito tempo, e o avanço é lento. Mas se avançou muito, e a própria Marcha das Margaridas mostra isso: é uma mobilização nacional, na última reunimos 70 mil mulheres em Brasília e na próxima o número deve ser perto disso.
Na ANA, percebemos o quanto a inserção do Grupo de Trabalho transformou os Encontros Nacionais. No primeiro ENA [Encontro Nacional de Agroecologia] havia só 30% de mulheres. Pensamos: se a participação no ENA se dá a partir das experiências, e nas experiências há homens e mulheres, então não é justo ter menos mulheres do que homens. No segundo já determinamos que haveria um mínimo de 50%, e conseguimos. Do terceiro em diante, vemos que o número de mulheres supera o de homens.
Para a gente não é um espanto. Na verdade, é fácil perceber, quando se está no campo, que as mulheres são mais envolvidas do que os homens na agroecologia. Fora que há muitas famílias só de mulheres. Quando o homem morre ou o casal se separa, muitas vezes a mulher continua ali tomando conta da casa. O inverso é raro: em geral o homem se casa de novo, arruma outra mulher para ‘cuidar dele’, ou abandona o campo. Além disso, há muitas mulheres atuando sozinhas nas zonas onde há migrações para o agronegócio, para colheitas sazonais. Aqui no Vale do Jequitinhonha há municípios onde praticamente só há mulheres. Os homens saem e ficam quase um ano na colheita de cana. Isso é uma realidade: há mais mulheres na agricultura familiar e camponesa. Não temos um censo que demonstre isso, mas é fácil perceber pela observação, principalmente onde há êxodos sazonais ligados ao agronegócio.
Existem muitos movimentos de mulheres camponesas pelo país afora. Você pode falar de alguns deles?

Eles existem há muito tempo. Temos nacionalmente o Movimento de Mulheres Camponesas e, anterior a ele, o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. No Sul, ele deu origem ao
Movimento de Mulheres Camponesas; no Nordeste, ao Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste. E há vários outros regionais, como o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco. Há ainda organizações de mulheres indígenas, enfim, há muitas dessas organizações.

Isso também é uma novidade, a agricultura fazer parte da pauta do movimento feminista

Além disso, é importante que a partir do ano 2000 uma parte do movimento feminista – o que a gente chama de feminismo popular, que está na rua – começou a trazer o tema do feminismo para as camponesas. Temos hoje muitas mulheres rurais na Marcha Mundial das Mulheres. Muitas mulheres do campo também são militantes da Marcha, estão construindo a Marcha em seus locais. Isso também é uma novidade, a agricultura fazer parte da pauta do movimento feminista. Isso nos aproximou muito. Quando criamos o GT de mulheres da ANA, já chamamos o movimento feminista que dialogava sobre modelos de produção, agroecologia, soberania alimentar e organizações rurais. Essa aproximação é muito importante.
Além das organizações de mulheres no campo, temos muito mais camponesas organizadas nos movimentos feministas. Por exemplo, há ações da Marcha Mundial das Mulheres que são exclusivamente no campo. Na última Marcha Mundial das Mulheres, fizemos uma no interior de Minas, totalmente protagonizada pelas mulheres rurais.
Os dados sobre violência doméstica do Ligue 180 de 2016 mostram que há uma minoria das ligações vindo de áreas rurais, cerca de 10%. Mas a gente sabe que há subnotificação… É possível ter ideia de qual seria realmente o tamanho desse problema no campo?
Há uma subnotificação enorme dos casos de violência contra mulheres, e mais ainda no campo. O Ligue 180, por exemplo, não faz muito sentido no campo, já que a maioria não tem acesso nem a telefone. De um tempo para cá, as pessoas até têm celular, mas muitas vezes não funciona em casa, o celular é para quando se vai à cidade. Já as delegacias de mulheres são poucas mesmo nos centros urbanos… As mulheres muitas vezes se inibem de ir à delegacia conversar com homens. E, no interior, isso se complica ainda mais, porque todo mundo se conhece. No meio urbano a mulher vai à delegacia, mas o homem que a atende não necessariamente conhece o seu marido, não joga pelada com ele, nem toma cachaça com ele no fim de semana. No campo, sim. Então isso é ainda mais difícil de denunciar.
As mulheres do campo estão mais vulneráveis a esse tipo de violência? Por quê?
As casas ficam mais afastadas umas das outras, algumas mulheres vivem quase isoladas e não têm a quem recorrer. E elas estão ainda mais desamparadas do que as mulheres da cidade quando sofrem violência doméstica. As estimativas são feitas a partir das notificações, mas a zona rural certamente está muito prejudicada na estatística, porque as mulheres não notificam, faltam equipamentos públicos. Além disso, se a mulher do campo denuncia, depois vai para onde? Mesmo que faça uma medida protetiva contra o homem, quem vai fiscalizar isso? Se mesmo na cidade a fiscalização é difícil, imagina em locais isolados?

No meio urbano a mulher vai à delegacia, mas o homem que a atende não necessariamente conhece o seu marido, não joga pelada com ele, nem toma cachaça com ele no fim de semana. No campo, sim.

No governo Dilma a Diretoria de Mulheres chegou a criar um sistema de unidades móveis, com ônibus que percorriam as comunidades, tanto para denúncias de violência como para o atendimento psicológico e médico. Mas eram poucos ônibus. E agora, depois do golpe, isso foi completamente abandonado. Na verdade nunca se criou um aparato ou uma estrutura para combater a violência contra as mulheres do campo. Se o aparato para as mulheres urbanas já é insignificante, para as rurais ele é ainda pior.
Uma das portas de entrada para o acolhimento de mulheres em situação de violência doméstica são os serviços de saúde. O ‘campo’ não é algo homogêneo, mas como é essa oferta em geral?

Sim, isso é outro problema, não há posto de saúde, não há hospitais, e isso é grave quando se fala de problemas de saúde em geral. As camponesas têm muita dificuldade de ir na cidade para buscar atendimento. Até porque é preciso ir duas vezes na unidade de saúde, uma para agendar o atendimento, outra para ser atendida. Imagina fazer isso quando se mora a 40 quilômetros do posto de saúde. Se uma mulher entrar em um trabalho de parto complicado na zona rural, e se for uma época de chuvas, é bem possível que ela venha a morrer, porque não há equipamentos públicos de saúde na zona rural e não há facilidade no acesos à cidade, em geral não há transporte das prefeituras.
É difícil, por exemplo, fazer papanicolau. A verdade é que muitas mulheres do campo que já têm dois, três filhos, nunca fizeram um exame preventivo.
As mulheres têm alguns problemas de saúde específicos da vida no campo também. No agronegócio, elas frequentemente são ainda mais atingidas pela contaminação com agrotóxicos. Porque esses insumos podem ser aplicados usando-se equipamentos de proteção. Mas as mulheres, quando vão lavar as roupas contaminadas dos maridos, não usam equipamento algum.

A verdade é que muitas mulheres do campo que já têm dois, três filhos, nunca fizeram um exame preventivo

Outra questão de saúde que as atinge muito é a depressão. Tanto pelo efeitos dos agrotóxicos nos organismos – porque vários estudos mostram essa relação – como também porque as mais velhas deixam de ser valorizadas. Muitas dessas mulheres são valorizadas enquanto mães. Quando chegam aos 50 anos, com os filhos já casados e fora de casa, muitas vezes perdem o sentido da vida. Não há lazer, não há nada para a terceira idade, e nenhuma importância é conferida á mulher quando ela é considerada velha. No período reprodutivo, ela ainda tem algum valor como mãe, mas depois perde a serventia e o pouco poder que tinha. É comum encontrar mulheres do campo em depressão. E se nem para as urbanas há atendimento psicológico adequado, no campo há ainda menos. Estou falando a partir da observação, não tenho esses dados, mas é muito comum , trabalhando com programas de formação, encontrar boa parte das mulheres em idade madura relatando esse tipo de problema.
Agentes comunitários de saúde são importantes para identificar certos problemas. Eles chegam nessas casas?
Não. Chegam nas roças que ficam mais perto das cidades, ou nas zonas rurais mais estruturadas que têm uma sede e onde, às vezes, há postos de Saúde da Família. Em municípios muito extensos, como os da região Norte, muitas vezes as agentes comunitários não têm nem estrutura para chegar.
Como os movimentos de mulheres do campo dialogam com aquelas agricultoras que ainda não estão organizadas? Quais são as estratégias para atrair outras mulheres e disseminar as pautas?
Em geral, isso vem com a proximidade entre mulheres. A mulher vem e começa a envolver as vizinhas, as familiares, seu grupo de relações. Algumas mulheres são lideranças em suas igrejas, ministras de eucaristias, estão nas organizações das comunidades eclesiais de base, e têm capacidade de trazer outras mulheres para o movimento. A aproximação então vem em geral por aí, por meio de outras mulheres que passam pelos mesmos problemas que elas. Os problemas são comuns, são eles que aproximam as mulheres.
Que avanços já aconteceram em termos de políticas públicas?
Há algumas políticas que vêm desde a Constituição de 1988, como o direito à aposentadoria rural e ao salário maternidade, coisas que as mulheres do campo não tinham e adquiriram a partir de então. Em 2003 se cria o Pronaf Mulher [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Mulher], mas ele não atendeu realmente às expectativas das mulheres em relação à concessão de crédito. Porque há uma lógica de financiamento segundo a qual cada família tem uma determinada capacidade de endividamento que não pode ser ultrapassada. Então, se o marido já pegou crédito no Pronaf, não sobra nada para a mulher pegar. E como as relações não são resolvidas de forma justa, temos que os homens pegam muito mais crédito via Pronaf do que as mulheres. Na prática, pouco se acessou o Pronaf Mulher.
Houve também o programa Organização Produtiva das Mulheres Rurais, que era voltado para o financiamento e a capacitação de mulheres. Mas isso acabou com a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário [no governo Temer].
Mas, na verdade, o que de fato trouxe impactos grandes para as mulheres não foram políticas criadas especificamente para elas, e sim o PAA [Programa de Aquisição de Alimentos, criado em 2003 para favorecer a compra direta pelo governo de produtos de agricultores familiares] e a restruturação do PNAE [o Programa Nacional de Alimentação Escolar: desde 2009, 30% dos recursos gastos pelas prefeituras com alimentação escolar precisam ir para a agricultura familiar].
O PAA favoreceu muito as mulheres que, como eu disse, já produziam nas hortas. Há estudos mostrando que as mulheres são maioria no PAA. E no PNAE, do mesmo modo, percebemos que são as mulheres as mais beneficiadas, por conta dos quintais.

Os programas que apoiavam mulheres e geravam autonomia para elas foram sucateados ou extintos

Hoje, o PAA não tem mais verba: quando olhamos o orçamento, vemos que não tem mais recurso para o programa. Ou seja, não acabaram com o programa em si, mas com os recursos, sim. Já a alimentação escolar fica no âmbito das prefeituras. O que percebemos em alguns municípios, onde os prefeitos são alinhados com o governo federal, é que eles não estão mais cumprindo a lei, e não tem mais quem fiscalize isso, pois a fiscalização era feita pelo MDA. E o Pronaf Mulher ainda existe, mas o próprio Pronaf [geral] teve seus recursos diminuídos. São muitas perdas.
A proposta de reforma da previdência do governo é, ao menos até agora, especialmente ruim para trabalhadores e trabalhadoras rurais...
Sim, é uma reforma que vai ser péssima para as mulheres rurais, que vão trabalhar mais e correm o risco de receber menos do que um salário mínimo.
Que outras ameaças estão no horizonte?
O Escola Sem Partido é uma grande ameaça, pela lógica de não se poder mais discutir gênero na escola. Este governo não tem interesse de fortalecer mulheres. Ao contrário, nega isso, não reconhece as desigualdades. Os programas que apoiavam mulheres e geravam autonomia para elas foram sucateados ou extintos, e a perspectiva é dura.