CONAFER saúda as mãos que alimentam o mundo

da Redação

Hoje é o Dia Internacional das Mulheres Rurais. Nesta data, o mundo reforça a luta das mulheres agricultoras. No Brasil, são aproximadamente 14 milhões de mulheres que buscam atenção especial para a segurança, saúde, água e terra, entre outras questões de extrema relevância

A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1995, com intuito de elevar a consciência mundial sobre o importante papel da mulher do campo. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres constituem 40% da mão de obra agrícola nos países em desenvolvimento. Segundo a FAO, as milhões de mulheres agricultoras, representa 10% do total de mulheres ocupadas na América Latina.

O último censo agropecuário apontou que há 1,7 milhão de mulheres no Brasil que se autodeclaram chefes de um empreendimento rural. A proporção das chefes de empreendimentos subiu de 12,6%, em 2006, para 18,6%, em 2017. Segundo o IBGE, elas são produtoras, gerentes e responsáveis diretas pelas principais atividades nas propriedades.

Agricultora Familiar segura um pé de milho Prudentopolis – Paraná. Foto: Portal ODS

Em 2020, ONU pede atenção para “sofrimento desproporcional” das mulheres rurais

Este ano, a ONU marca a data com o tema “Construindo a resiliência das mulheres rurais na sequência da Covid-19”, que pretende despertar a consciência das pessoas sobre os desafios, as necessidades e o papel social do grupo.

As mulheres rurais trabalham como agricultoras, assalariadas e empresárias em favor do desenvolvimento. Estatísticas da ONU realçam que elas são um quarto da população mundial. Porém, somente a quinta parte das mulheres do planeta é proprietária de terras. No campo, a outra desvantagem do grupo é a disparidade salarial entre os dois sexos, que chega a 40%.

Foto: Agraer

As contribuições das mulheres rurais se estendem para a produção agrícola, segurança alimentar, nutrição, gestão de terras, recursos naturais e construção de resiliência climática. Estão na linha de frente da resposta à pandemia, prestando também cuidados não remunerados e trabalho doméstico.

As trabalhadoras rurais desempenham um papel essencial para a agricultura familiar e às economias local e nacional, além de garantirem a preservação das identidades culturais, dos conhecimentos tradicionais, de práticas sustentáveis, da agroecologia e do bem viver.

Foto: Blog da Saúde

Neste Dia Internacional da Mulher Rural, a CONAFER reforça o papel e a contribuição fundamental das mulheres de áreas rurais, indígenas e quilombolas para o desenvolvimento agrícola, segurança alimentar e erradicação da pobreza rural. O objetivo é somar esforços para a melhoria da qualidade de vida das mulheres no campo, que sofrem com o preconceito e a desigualdade de oportunidades.

Carta Pública: Seminário Regional de Mulheres do Território da BR 163 Itaituba – PA

FONTE: Terra de Direitos
Somos Mulheres da Amazônia!
Companheira me ajude, que eu não posso andar só,
Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”
Nós, Agricultoras, Ribeirinhas, Quilombolas, Indígenas e trabalhadoras do campo e da cidade, reunidas em Itaituba no Sudoeste do Pará, durante o seminário regional: “Mulheres da Amazônia na Luta Por Territórios Livres e Corpos Vivos” manifestamos através desta carta pública, toda nossa revolta e indignação com a violência que estamos sofrendo no Brasil, a pressão sobre os nossos territórios; a destruição da Amazônia; a retirada de direitos com o Governo Bolsonaro; o avanço do agronegócio e a chegada dos grandes projetos do Capital para o Tapajós. Todas essas problemáticas têm contribuído para um cenário de violações de direitos onde nós, Mulheres, somos as principais vítimas desse modelo. Um modelo de desenvolvimento pautado na destruição dos rios e da floresta, marcado por intensos conflitos que ameaçam nossas vidas e consequentemente aumenta a violência contra nós, seja ela física, patrimonial e psicológica.
A omissão do Estado na resolução dos conflitos fundiários, representa para nós um cenário de morte e graves ameaças principalmente contra as Mulheres defensoras de Direitos Humanos. Pois somos nós que diariamente enfrentamos as atrocidades cometidas pelo Estado brasileiro, que não garante os nossos direitos e isso por si só, já é uma forma de violência. Consideramos grave a falta de políticas públicas voltadas para o acolhimento de mulheres vítimas de violência doméstica, nos indignamos com tantas companheiras que sofrem violência doméstica e recebem um péssimo atendimento nas delegacias, bem como o descumprimento da Lei Maria da Penha.

Seminário regional de Mulheres do Campo e da Cidade teve como tema “Mulheres da Amazônia na Luta por Territórios Livres e Corpos Vivos” / foto: Franciele Petry Schramm / Terra de Direitos
Seminário regional de Mulheres do Campo e da Cidade teve como tema “Mulheres da Amazônia na Luta por Territórios Livres e Corpos Vivos”

A Terra e o Território são nossas principais bandeiras de luta, mas de nada adianta as nossas bandeiras se não estivermos vivas com nossos corpos livres, para celebrarmos as nossas conquistas. Quantas de nossas companheiras já foram assassinadas por lutar por uma causa justa e que era a obrigação do Estado? Nos indignamos diariamente com o machismo que mata todos os dias, a desigualdade de gênero ainda é um problema estrutural a ser superado. Vivemos em um País, que mais mata mulheres por dia, por hora e por minuto.
Portanto companheiras, temos mais de duas mil razões para continuarmos nos encontrando e nos organizando para juntas fortalecermos as nossas lutas, por Terra e Território; saúde; educação; aposentadoria; creche e tudo que a nós é de Direito. O 8 de março é para nós o dia de recordarmos que juntas somos mais fortes até que todas sejamos livres.
Nenhuma a menos!
Reivindicamos:
1 – A efetivação dos programas sociais de acolhimento às mulheres vítimas de violência doméstica em todos os municípios da BR 163, Sudoeste do Pará;
2 – Que os órgãos de justiça possam fazer cumpri a Lei Maria da Penha, nos casos de violência doméstica, para que não fiquem impunes;
3 – Que as delegacias de Mulheres dos municípios da BR 163, possam ter um atendimento humanizado às vítimas de violência doméstica com profissionais qualificados com plantão 24 horas;
4 – Cursos profissionalizantes voltados especificamente para as mulheres;
5 – As garantias necessárias para a implementação dos conselhos municipais de mulheres nos municípios da BR 163;
6 – Que os órgãos de regularização fundiária possam garantir as políticas públicas para o campo, habitação, educação do e no campo, assistência técnica e todas as garantias de fortalecimento da agricultura familiar sustentável;
7 – A demarcação dos territórios indígenas e a garantia ao direito de consulta prévia livre e informada conforme a convenção 169 da OIT;
8 – Titulação dos territórios quilombolas e o direito de consulta prévia livre e informada conforme a convenção 169 da OIT;
9 – Que o Programa de Proteção do Estado do Pará, junto às secretarias de segurança pública e secretaria de direitos humanos, possam melhorar as condições de proteção e segurança às mulheres defensoras de direitos humanos;
10 – Que seja concluído o hospital regional em Itaituba, para melhorar as condições de atendimento de saúde das mulheres dos municípios de Jacareacanga, Trairão, Novo Progresso, Rurópolis e Itaituba;
11 – Instalação de delegacias de mulheres, nos municípios que ainda não existem;
12 – Que as autoridades de mulheres, como a Delegada da Delegacia de Atendimento às Mulheres, possam se fazer presente nos eventos das mulheres, dos movimentos sociais, respondendo aos ofícios que são a elas direcionados.
Itaituba – PA, 08 de março de 2020.
Assinam:
– Associação de Mulheres Rurais de Itaituba- ASMURITA
– Associação de Mulheres do Campo e Cidade de Rurópolis-PA
– Associação de Mulheres Indígenas do alto e médio Tapajós- WAKOBORUN
– Associação de Mulheres Agricultoras e Artesãs do município de Trairão. AMANT.
– Coletivo de mulheres da comunidade ribeirinha de Pimental- Trairão-PA
– Comissão Pastoral da Terra-CPT Prelazia de Itaituba BR163
– Coletivo de mulheres quilombolas na Raça e na Cor- Federação Quilombola de Santarém- FOQS.
– Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Itaituba
– Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Trairão
– Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Rurópolis
-Coletivo de Mulheres do MAB Tapajós
– Associação Nova Vitória- PDS Terra Nossa- Novo Progresso
– Associação PDS Brasília de Castelo de Sonhos
– Pastoral da Saúde de Trairão
– Associação Comunitária de Campo Verde km 30- Itaituba-PA
– Terra de Direitos Santarém – PA

Parabéns às guerreiras da agricultura familiar

Homenagem da CONAFER pelo Dia Internacional da Mulher.
Todo o nosso reconhecimento pelos direitos e o respeito às trabalhadoras do campo, assentadas, campesinas, pescadoras, artesãs, quebradoras de coco babaçu, quilombolas, indígenas, agricultoras companheiras de luta pela liberdade de produzir e extrair da terra o alimento de uma nação inteira.

A força e o amor unidos em mais um encontro das mulheres Pataxós

Por Greiciane Coelho

No primeiro dia do 20° Encontro de Mulheres Pataxós Hãhãhãe na escola Jardim Curumim, da Aldeia Milagrosa, reuniram-se mulheres de várias etnias. Abrimos a roda de conversa com uma participação de Nádia Akauan, da etnia Tupinambá, e que trabalha com Florais da Lua. Os florais são um caminho de cura pelas ervas. A conexão consiste em um círculo onde ficamos receptivas à energia da cura através das cartas dos Florais. As mulheres do Encontro iniciaram a roda de conversa sobre assuntos do dia a dia em seus lares. Elas disseram que são os mesmos serviços diários todos os dias, e que ao final da tarde estão exaustas. E que muitas delas sofrem dentro dos seus lares com agressões verbais, físicas ou sexuais dos seus parceiros. Para fechar o primeiro dia da reunião fizeram uma dinâmica: construíram uma rede de barbantes capaz de levantar uma mulher. A primeira tentativa falhou, pois o barbante não suportou. Mas elas não desistiram, tentaram novamente, uniram mais forças e conseguiram erguê-la. O intuito desta dinâmica foi mostrar que unindo forças e sabedorias conseguiriam atingir o objetivo. E encerraram o primeiro dia com rezas e cantos.

No segundo dia, depois da abertura novamente com rezas e cantos, cada uma se apresentou e deu sua impressão sobre o Encontro, depois montaram grupos de 3 mulheres e fizeram uma brincadeira para animar o dia que só estava começando. Na sequência, cada uma pegou um papel dentro de uma caixa e leu para todas. Os textos eram relatos de abusos de parceiros sofridos por mulheres em seus lares: agressões verbais, físicas e sexuais. Foi então apresentada uma peça de teatro, em que uma das mulheres, Maria Aparecida, apresentou-se  com 11 filhos, um no colo e outro para nascer. Ela encenou uma situação comum na vida delas, que era mulher de marido alcoólatra, que fazia sexo à força com ela, e que sofria para cuidar dos filhos que vão à escola, recorrendo aos vizinhos muitas vezes. Ela fez o relato e perguntou para a plateia: o que faço mulheres? Elas a aconselharam a denunciar seu marido pelas agressões, que ela deve seguir sua vida com seus filhos, e que será acolhida por todos da comunidade. Maria Aparecida agradece ao final da peça. Após uma discussão sobre a mesma peça, Renata e Nitya Roberta tocaram o Pin, um instrumento para relaxar,  e ficaram de olhos fechados um tempo, abrindo-os bem devagar. Receberam, então, cada uma um papel para desenhar o que pensavam sobre abusos do passado. Desenharam, mostraram umas para as outras, conversaram e sentiram a sororidade entre elas. Almoçaram e seguiram com uma peça de teatro falando sobre os desenhos, o Teatro do Oprimido. Mais tarde algumas mulheres gravaram um áudio para a rádio Cunhã, quando falaram sobre o Encontro.

O terceiro e último dia teve início com as mulheres de mãos dadas formando uma grande roda. Falaram como foi a noite e o que cada uma sonhou. Rezaram e cantaram agradecendo ao pai Tupã pelo dia que se iniciava. Seguiu-se uma dinâmica para enfatizar a necessidade da união entre todas, do companheirismo e da solidariedade. Abriu-se um debate sobre liderança na aldeia e o que elas podem fazer para apoiar as líderes. Criaram um grupo de mulheres na comunidade, o Grupo de Mulheres Indígenas do Caramuru (círculo dos sonhos). Para fechar o dia, falaram dos desejos que o Grupo representa: respeito, amor, fé, sororidade, confiança e fraternidade. Ao final, todas agradeceram e selaram um compromisso de lutar pelos seus direitos. E assim deixaram registrado que o nome de cada uma é resistência, e o sobrenome, mulher.

11 DE FEVEREIRO: DIA INTERNACIONAL DE MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA

da Redação

A INTUIÇÃO FEMININA E O CONHECIMENTO PRODUZEM A CIÊNCIA DO FUTURO.

Mais mulheres estudam. Mais meninas aprendem. Na cidade e no campo, onde a agricultura 4.0 chegou com o protagonismo feminino, aumenta o espaço das mulheres na produção com tecnologia. Quanto mais avança a ciência, mais o universo feminino a invade. Hoje, as principais descobertas da astronomia, da física, da biologia, da genética, em todas as áreas têm a participação maciça de mulheres e meninas. Quando se chega no limiar das fronteiras do conhecimento, nada melhor que a intuição feminina para ultrapassá-las.

A mulher e a agricultura 4.0

FONTE: AgroMulher
A mulher tem um senso de autocrítica e de inclusão muito grande. E por isso tem um papel de extrema contribuição no contexto da agricultura 4.0 e de todas as mudanças que esse conceito provoca no campo
O crescimento do espaço econômico-social da mulher no campo aumentou em todo o país. Em 2006, elas representavam cerca de 12% dos produtores rurais e, em 2017, chegaram a 18% do total. A informação vem do Censo Agropecuário 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cujos dados finais foram divulgados em outubro e mostram claramente a maior participação das mulheres na produção e condução dos negócios no agro, revertendo uma situação histórica de baixa visibilidade feminina.
De acordo com o Censo, 650 mil propriedades são geridas exclusivamente por mulheres, enquanto 1,06 milhão tem sua administração dividida entre o casal. Números que mostram a mulher como protagonista ou parceira na gestão de 1,7 milhão de unidades de produção, ou seja, 34% dos cinco milhões de estabelecimentos rurais existentes no país. Com um aspecto bastante relevante, apontado pelo Censo: a maioria dessas mulheres que tocam as propriedades, sozinhas ou em parceria, tem idade entre 24 e 45 anos.

A agricultura 4.0

São jovens e ascendentes, na perspectiva do ciclo profissional das pessoas, e seu fortalecimento no campo ocorre em momento de profunda transformação tecnológica, com a chegada da agricultura 4.0 e suas oportunidades de inteligência artificial e automação.
Um novo cenário evolutivo do agro, que encontra cadeias produtivas de alta competitividade internacional, mas também uma realidade social em que pessoas analfabetas e que não terminaram o ensino fundamental ainda representam 66% da população envolvida na produção rural – este também um dado do Censo Agropecuário.
Sabe-se que a tecnologia muitas vezes altera padrões organizacionais e sociais, gerando novos desafios de gestão com o papel de harmonizar o máximo possível a transição entre duas realidades produtivas. O que não é bem novidade por aqui, pois historicamente o agro brasileiro já teve que se reinventar várias vezes por conta do impacto de tecnologias disruptivas.
Dos fundamentos da Revolução Verde nos anos 1970 à edição genética que incorpora resistência a doenças, por exemplo, o setor já conviveu um bocado de vezes com a desconstrução criadora típica da ciência.
A mulher tem um senso de autocrítica e de inclusão muito grande. E por isso pode ter um papel de extrema contribuição nesse contexto demandante de reinvenção das pessoas, que vem junto com a tecnologia 4.0 e sua potência de mudar o modo como fazemos as coisas, em profundidade, provocando impactos sociais concretos.
Hora de dar boas-vindas a essa ascensão das mulheres ao design e construção das relações com o capital humano rural – seu engajamento e direcionamento evolutivo. Isso tem a ver com futuro e vale pensar como se pode criar mecanismos, ferramentas e processos que estimulem a participação da mulher gestora do campo na formatação e harmonização desse agro em turbilhão tecnológico.

Cooperativa GiraSol abre Armazém com alimentos orgânicos e produtos da economia solidária

FONTE: Sul21
A Cooperativa GiraSol inaugura em 5 de fevereiro, às 18 horas, em Porto Alegre, um espaço de comercialização dos produtos da agricultura familiar, reforma agrária e economia solidária. Trata-se do Armazém GiraSol, que abre suas portas na Avenida Venâncio Aires, 757, Bairro Santana. A abertura do armazém é fruto de um convênio entre a Cooperativa, a Fundação Banco do Brasil e a ONU Mulheres. O projeto “Mulheres Rurais em Rede: Agroecologia, Autonomia Econômica e Autogestão Solidária” contemplou outras cooperativas além da GiraSol, bem como outros empreendimentos da economia solidária que fazem parte da Rede de Economia Solidária e Feminista (RESF), uma rede nacional que fomenta a Ecosol em 11 estados do Brasil.
“Trabalhamos há alguns anos com as compras programadas pela internet, mas nossos parceiros, associados e clientes pediam por um espaço físico. Por isso, com a força da Rede Feminista, estamos abrindo esse espaço que vai oferecer alimentos para o bem viver”, explica o coordenador geral da Cooperativa GiraSol, André Mombach. “Queremos estimular o consumo sustentável em Porto Alegre e dar uma nova opção de alimentação saudável com preços justos à população da capital”.
Fundada em 2006, a Cooperativa GiraSol funcionou ativamente até agosto de 2011, sendo pioneira em comércio justo e consumo sustentável no Brasil. Depois disso, passou por um período de inatividade e foi refundada em 2016por antigos sócios, fundadores aliados e novos ativistas de diversos movimentos sociais.
Desde a sua retomada até o momento, a GiraSol funcionou por meio de compras programadas, com pedidos feitos pela página coopgirasol.com.br e entregues uma vez por semana, na sede da cooperativa, na rua José do Patrocínio, bairro Cidade Baixa. O e-commerce deve continuar, segundo Mombach, mas agora com mais agilidade e frequência.
Novo armazém
O novo armazém, que conta com projeto arquitetônico do escritório Mãos Arquitetura, Terra e Território, terá bebidas e alimentos orgânicos da agricultura familiar e reforma agrária. Haverá, ainda, um espaço com produtos de artesanato e confecção da economia solidária e feminista.
Para completar, o espaço contará com uma cafeteria com lanches e refeições saudáveis, além da promoção de atividades culturais, debates sobre temas da sociedade contemporânea, rodas de conversa e muito mais. “Vamos abrir um lugar aconchegante, para a boa convivência, que ofereça alimento para o corpo e para a alma”, afirma Tanara Lucas, coordenadora executiva do Projeto Mulheres Rurais em Rede: Agroecologia, Autonomia Econômica e Autogestão Solidária.
O Armazém GiraSol funcionará de segunda a sábado, das 9 às 19 horas.
SERVIÇO
O que: Inauguração do Armazém GiraSol
Quando: 5 de fevereiro, às 18 horas
Onde: Avenida Venâncio Aires, 757, Santana, Porto Alegre

Registro de produção mostra importância das mulheres na agricultura familiar brasileira

FONTE: ONU BR
Uma ideia simples — uma caderneta de quatro colunas para mulheres da agricultura familiar brasileira registrarem o quanto de sua produção é vendida, distribuída, trocada ou consumida — teve impactos positivos de longo alcance em suas vidas. A estratégia mudou a forma elas e seus parceiros valorizam sua própria produção, ajudando-os a se beneficiar de políticas governamentais destinadas à agricultura familiar.
“Aprender a ver nossa produção foi muito útil para nós”, disse a trabalhadora rural Janete Dantas. Ela registra o leite, os ovos, as galinhas, as frutas e os legumes produzidos na pequena propriedade que ela e a mãe administram perto de Itaóca, no estado de São Paulo, e o quanto isso contribui para a renda da família. “Quando fazemos os cálculos no final do mês, vemos o tamanho da nossa contribuição.”
As cadernetas fazem parte de uma revolução silenciosa que é impulsionada por grupos feministas de agropecuária que influenciaram os dados do censo governamental. Como resultado de sua pressão, o Censo Agropecuário 2017 do Brasil manteve uma pergunta sobre o gênero dos produtores agrícolas e conseguiu fornecer dados que mostram que o número de estabelecimentos administrados por mulheres subiu para 18,6%, com quase 1 milhão de mulheres envolvidas, de 12,7% há cerca de 11 anos.
O agronegócio é um pilar da economia brasileira, respondendo por quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB), com culturas como soja e café de fazendas industrializadas entre as exportações mais importantes do país. Mas o Brasil também tem milhões de agricultores e agricultoras familiares com um faturamento anual total de 55,2 bilhões de dólares por ano. Nesse setor, as mulheres desempenham um papel fundamental.
“Estamos aprendendo muito sobre a capacidade de produção das mulheres”, disse a coordenadora do Centro de Tecnologia Alternativa da Zona da Mata de Minas Gerais, Beth Cardoso. “Há pouca visibilidade e valor dado ao trabalho das mulheres nas áreas rurais”, completou. Com o Centro, ela ajudou a lançar uma versão anterior das cadernetas, em 2011. Dois anos depois, esse sistema se desenvolveu nas Cadernetas Agroecológicas (cadernos agroecológicos) cujo projeto está em andamento. Isso já se espalhou pelo Brasil e conta com centenas de mulheres participando.
O grupo Sempreviva Organização Feminista (SOF), de São Paulo, também participou do projeto de cadernetas e trabalha para tornar a importância das mulheres para a agricultura brasileira mais visível.
Em grande parte do Brasil rural, as mulheres cuidam de hortas domésticas, vendem ou trocam produtos e fornecem alimentos para suas famílias, afirmou a engenheira agrônoma da SOF Miriam Nobre. Mas o valor de sua produção passa despercebido, especialmente se o parceiro não for agricultor.
Isso mudou para Janete Dantas e sua mãe depois de passarem 18 meses preenchendo as cadernetas e compartilhando a experiência com outras mulheres. Janete trabalha até três horas por dia na pequena propriedade que ela e o marido, um motorista, compartilham com os pais. Sua mãe, Maria, 68 anos, trabalha seis horas por dia. Antes de participar do projeto, eles nunca haviam calculado o valor de seu trabalho e quanta comida colocava na mesa. “Vemos o quanto nós comemos e quanto vale o que produzimos”, declarou Janete. “Somos capazes de dar mais valor a isso.”
Projetos como esses permitiram que o governo conhecesse melhor o papel das mulheres na agricultura brasileira, algo que Nobre coloca no contexto mais amplo da luta pelos direitos das mulheres rurais na América Latina. “Eu vejo isso como parte da luta pelo reconhecimento do trabalho das mulheres”, declarou ela, “e pela maneira como as mulheres rurais garantem o sustento em suas comunidades”.
As mulheres também puderam usar as cadernetas para obter um documento chamado DAP (Declaração de Aptidão ao PRONAF), que permite que elas se beneficiem de financiamento para a agricultura familiar e participem de um programa governamental de aquisição de 30% de alimentos de pequenas propriedades familiares para merenda escolar.
As cadernetas ajudaram as mulheres nas áreas rurais a se verem de maneira diferente e forçaram os homens a valorizá-las. Em um país onde o progresso nos direitos das mulheres tem sido lento, essa é uma mudança importante. “Podemos ver mais empoderamento das mulheres, um aumento em sua autonomia a partir do momento em que elas podem ver sua própria produção”, disse Cardoso. “Parece simples, mas é fundamental [tirá-las] da subjugação.”

Abolição para quem? Um retrato das mulheres quilombolas da Bahia em 2019

FONTE: Marie Claire
131 anos depois da abolição da escravidão, mulheres quilombolas da Bahia ainda têm histórias de abuso, desemprego e disputa por terra
Já são quase 16h de um dia quente na comunidade quilombola de Quingoma, na Região Metropolitana de Salvador. Caminhões de empreiteiras passam apressados na estrada de barro que liga o território ao centro da cidade de Lauro de Freitas. A poeira dos carros, por vezes, atinge a recicladora Maria Silva, 59 anos, e sua família na porta dos barracos onde vivem.
Os motoristas não veem, mas aquelas pessoas estão ali. Aliás, sempre estiveram. É na via que elas esperam diariamente o caminhão do lixo da prefeitura para desembocar as panelas de casa.
Dona Maria, como gosta de ser chamada, é direta quando diz o porquê de sua presença ser ignorada pelos passantes da estrada. “E esse povo lá olha para nós? Nós é tipo invisível mesmo. O que eles querem é nossa terra, mas eu não saio daqui nem morta. Nem comendo essa poeira, eu não saio”, avisa.

A recicladora é um dos quatro mil moradores do bairro de Quingoma, território que foi certificado em 2013 como área remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, instituição pública voltada para promoção e preservação dos valores e da influência negra na formação da sociedade brasileira. A terra, no entanto, ainda não foi demarcada pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
É comum o imaginário popular associar quilombos a um fenômeno de resistência dos negros do passado, que teria acabado com o fim oficial da escravidão no país. Mas as comunidades remanescentes de quilombos existem até hoje em todos os estados brasileiros. Um levantamento da Fundação Cultural Palmares mapeou 3.524 dessas comunidades.
Na comunidade de Quingoma, que fica a 8 km da capital baiana, pessoas convivem diariamente com a violação de direitos básicos causados pela falta de postos de saúde, escolas e transporte público, além da disputa por terras. Por lá, segundo a Associação de Moradores de Quingoma, apenas 200 estudantes conseguiram completar o ensino médio. Nenhum desses, no entanto, faz parte da família de Dona Maria.
Da casa de branco para o quilombo
Na casa da recicladora, quatro dos seus cinco filhos herdaram sua profissão. As mulheres trabalham no lixão, que fica ao lado das casas onde moram. Nenhuma delas aprendeu a ler ou escrever. Toda a renda extra da família vem do programa Bolsa Família.
Os números mostram que, no Brasil, as mulheres negras estão presas ao desemprego e ao abandono. De acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em outubro de 2018, a vulnerabilidade delas ao desemprego é 50% maior que a da população em geral. As mulheres negras são 54,6% da população brasileira e 79,9% da população da Bahia.
Elas também estão mais expostas a violência. O Atlas da Violência 2018 mostra que em 2016 a taxa de homicídios das mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras no Brasil.

“O que restou para mim e minhas filhas foi aprender a reciclar. Antes de trabalhar no lixão, eu trabalhava em casa de branco, em Ipitanga. Depois que conheci o pai dos meninos, vim pra cá e comecei a catar lixo. Não consegui outro emprego e fui ficando aqui. Criei todos os meus filhos com o lixão, que era maior antes da Prefeitura interditar”, conta Maria.
A recicladora tem uma relação de pertencimento com Quingoma, apesar de não ter nascido no território. Viúva há cinco anos, ela chegou na comunidade com o marido, quando tinha 16 anos e, hoje, diz que aprendeu a ser quilombola.
“Quando cheguei aqui só tinha casa de farinha e os rios limpos, sem a poluição dos prédios. Aquela época era melhor pra gente. Criei tanto apego aqui que hoje me considero quilombola. Minha pele já diz isso”, afirma.
Filha mais velha da recicladora, Ana Paula de Jesus, 36, repetiu os passos da mãe em muitos sentidos. Além de trabalhar no lixão, engravidou aos 13 anos, como Maria.
Hoje, Ana Paula tem nove filhos e quatro netos, todos são criados somente por ela. O dinheiro para sustentar a grande família vem dos R$ 418 do programa assistencial do governo federal e da reciclagem.

Apenas os quatro filhos pequenos estudam. Os outros cinco deixaram a escola para fazer bico ou catar materiais de valor no lixão.
“Eu nunca pensei em estudar porque nunca fui influenciada, e toda vez que saí daqui para ir para a escola ou procurar emprego, eu sofria preconceito porque era do quilombo. Aí não sei se posso cobrar que meus filhos estudem. Eles vão passar pela mesma coisa que eu passei. Eu já sei como é”, diz.
Resignada, Ana Paula lembra da situação de racismo que marcou uma das tentativas frustradas. “Outro dia cheguei no mercado para pedir emprego e chamei a gerente de tia. Sabe o que ela me disse? ‘Não sou sua tia, porque não tenho nenhum irmão preto’. A pessoa quando escuta isso já fica desanimada. Aí eu prefiro nem procurar mais. Acho que eles pensam que preto não é gente e nós estamos no século 21. Depois que aprendi a fazer artesanato, fico fazendo minhas coisas e esperando o caminhão da Prefeitura”, lamenta.
O sonho da casa de verdade

Foi no artesanato que Ana Paula encontrou a saída para fugir do crack. Aos 14 anos, ela ficou viciada na droga e por muito tempo teve recaídas. Há três anos, quando ficou internada em um centro de recuperação, aprendeu a fazer flores de pano. A atividade a ajudou a se reerguer.

“Pode parecer coisa pouca, mas ocupo minha cabeça e não penso mais em droga. Hoje minha única vontade é comprar uma casa de verdade para minha família”, diz.
A família da artesã vive em uma casa feita de tábuas encontradas no lixão. Todos os móveis na residência vieram do que foi descartado por outras pessoas. Do sofá ao escorredor.
“Foi tudo achado do lixo. Coisa boa, não é? Já achei até câmera no lixão. Eu quero ter uma casa de verdade um dia. Falo para os meus meninos, mas por enquanto é isso que a gente tem”, conta.
Na vida afetiva das mulheres do quilombo há também relatos de relacionamentos abusivos. A filha do meio de Maria, Tamires de Jesus, 28 anos, é mãe de quatro. Vítima de estupro pelo pai dos seus dois primeiros filhos, a recicladora acredita que todas as mulheres se sua família sofreram abusos por partes dos homens.
“O pai do meu primeiro menino me batia e me fazia ter relação com ele. Eles acham que são nosso donos. A maioria das mulheres aqui apanha.  Eu apanhei muito por causa da droga do meu ex-marido”, conta ela.
Desacreditada, Tamires diz que o racismo nunca vai acabar. Para ela, não há sentido em comemorar o dia 13 de maio. “Nós nunca ficaremos livres, porque sempre vamos estar abaixo dos brancos. Eles passam por aqui, fingindo que a gente não existe. A verdade é que isso de não gostar de gente preta nunca vai acabar”, afirma

Mulheres à frente da luta do quilombo

As histórias das mulheres que criam filhos sozinhas se repetem em Quingoma. A cerca de 700 metros da casa de dona Maria mora Raquel Rodrigues, 64 anos. Nascida e criada na comunidade, a dona de casa aprendeu cedo o significado de ser negra, mãe solo e quilombola.
Mãe de quatro filhos, dona Raquel conseguiu sobreviver durante boa parte da vida da caça de animais e frutas que eram cultivadas no quilombo. Mas depois que condomínios foram construídos no entorno do quilombo, os rios secaram e as árvores foram cortadas.
“Quando isso aconteceu a gente teve que ir para casa do branco. Não teve jeito, porque eles tiraram nossa fonte de renda. Aqui, cada pessoa tinha sua família que cultivava e vendia seu próprio alimento”, conta a dona de casa.
Hoje, com os filhos criados, ela se considera um mulher forte por ter resistido e conseguido passar os ensinamentos de seus ancestrais para a família. “Nós, quilombolas, não devemos perder a nossa culinária, a nossa fé, a nossa dança. Consegui passar isso para meus meninos”, diz.
A que chegou na faculdade
A força de Raquel é hereditária. A prova disso é que sua filha, Rejane Rodrigues, é  uma das duas mulheres que cursou faculdade na comunidade. A trajetória para terminar o curso não foi fácil. Por vezes, a pedagoga precisou andar mais de cinco quilômetros, de madrugada, para voltar para casa.

“Foi uma luta essa faculdade, porque aqui não tem transporte, né? Mas aí um dia eu invadi a Câmara de Vereadores da cidade e falei que queria meu ônibus pra estudar. Invadi. Dei uma de maluca lá dentro. Aí eles mandaram”, afirma Rejane, atualmente aluna especial do mestrado da Universidade Estadual da Bahia.

Rejane, com a filha e a mãe, luta pela demarcação das terras do quilombo
Além de estudar e trabalhar, Rejane dedica boa parte do seu tempo a luta para conseguir a demarcação de Quingoma. Há seis anos ela tenta demarcar o espaço com o Incra.
Para a socióloga Vilma Reis, mestre pela Universidade Federal da Bahia, que deixou esse mês o cargo de ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia, houve um pequeno avanço nas políticas públicas para atender as quilombolas, no entanto, ela acredita que o Brasil ainda precisa “fazer acontecer” no que diz respeito aos direitos da população negra.
“Não dá para ignorar as políticas de ações afirmativas dos últimos anos, mas ainda é pouco. É muito pouco diante de tudo e de todo o impacto da escravidão. O que o estado brasileiro devolveu para gente foi vergonhoso”, diz Vilma.
Ela lembra que a militância negra, assim como Tamires, recusa a celebração do 13 de Maio, efeméride da assinatura da Lei Áurea, como marco de liberdade para a população negra. Isso porque não foram criadas condições para a inserção digna dos ex-escravizados na sociedade.
Os novos capitães do mato
A falta de demarcação do Incra tem causado conflitos no quilombo. O impasse se agravou em 2016, quando a Concessionária Bahia Norte, empresa do grupo Odebrecht, começou a construir a Via Metropolitana, uma estrada que passou pelas áreas quilombolas e que, consequentemente, afetou os moradores do quilombo.

Desde o começo da construção, os quilombolas denunciam que áreas de reserva florestal foram destruídas e que árvores centenárias e sagradas para a ancestralidade quilombola  foram derrubadas pela empresa.
Procurado, o Incra não respondeu às perguntas da reportagem até o momento.
“Os novos capitães  do mato da [Concessionária] Bahia Norte chegam aqui oferecendo dinheiro para a gente sair da nossa terra. Eles andam armados por aqui, para cima e para baixo, mas não temos medo. Já fui ameaçada aqui, mas não vou deixar eles destruírem a nossa terra”, diz Rejane.
A reportagem entrou em contato com a concessionária, mas a empresa não respondeu.
A socióloga Vilma Reis afirma que as mulheres negras só serão abolidas da escravidão quando o medo deixar de existir. “ Lembrando [a cantora] Nina Simone: só estaremos livre quando não tivermos medo. Estamos em uma sociedade que nos impõe o medo. Estamos emparedados. A gente não tem liberdade, porque uma tarefa das mães negras desse país é reconhecer os corpos de seus filhos, quando elas conseguem reconhecer. A mulher negra nunca terá liberdade com os conflitos de terras nos quilombos. Sim, porque são as mulheres que vão para cima dos conflitos. Elas são mais corajosas para enfrentar”, diz.

Oficina Mulheres de Fibras tem aula inaugural nesta segunda-feira

FONTE: Século Diário
Mulheres quilombolas promovem artesanato com fibra de bananeira para dinamizar economia da comunidade
O tronco era a última parte da bananeira que ainda não havia sido devidamente estudada pelas comunidades quilombolas da região de Santana, em Conceição da Barra, norte do Estado, como matéria-prima para a fabricação de produtos artesanais e geração de renda sustentável para as famílias.
Era. Com o projeto Mulheres de Fibras, a cadeia produtiva da bananeira estará completa, inserindo mais um componente de dinamização das comunidades, seguindo os princípios da Economia Criativa.
A aula inaugural acontece nesta segunda-feira (11), a partir das 8h30, no auditório do Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Nego Rugério, na comunidade de Santana.
A oficina, gratuita, terá continuidade por cerca de quinze semanas, sendo uma aula por semana, e já conta com alunos vindos dos bairros do distrito de Santana, das comunidades quilombolas do Córrego da Angélica, Coxi, Roda d’ Água e Linharinho.
A primeira etapa da oficina vai ensinar a tirar a fibra do tronco, tratar com cloro e amaciante e armazenar. “A fibra quando é bem tirada e bem lavada e amaciada, dura até dez anos”, assegura Jurema Gonçalves, anfitriã do projeto, no CRAS Nego Rugério, e presidente da Associação Quilombola do Pequenos Produtores do Córrego da Angélica (AQPCA).
A segunda etapa abordará a preparação da fibra tratada para a feitura das peças artesanais, por meio de tranças, fios para tear ou crochê.
E, na terceira etapa, os alunos se dedicarão à produção do artesanato, incluindo bolsas, caixas de presente, capas de agenda e de bíblia, suporte de cerveja e, com a fibra cozida, também papel de parede e de capa de caderno.
Banana, farinha e mel
A iniciativa é mais um resultado do Projeto Bafamel [Banana, Farinha e Mel], iniciado em 2017. A partir dele, as comunidades passaram a plantar bananeiras para recuperação do leito do córrego da Angélica (cada produtor plantando dez pés de banana, completando dez metros quadrados), e a produzirem mel de abelhas nativas sem ferrão e aproveitar o fruto, tanto maduro (doces, rapaduras, banana passa, banana chips) quanto verde (farinha, biomassa, macarrão, capelete) da planta.
A produção de farinha também foi estimulada, pois a tradição mais importante da gastronomia quilombola não pode se perder. “A mãe de todo quilombola é a farinha”, poetiza Jurema.
Por enquanto, cada família produz sua própria farinha ralando a mandioca e torrando no fogão. O material para uma casa de farinha comunitária, no entanto, já foi comprado por meio do edital Mais Vida Menos Petróleo, da Campanha Nem Um Poço a Mais, empenhada por diversas organizações comunitárias e de comunidades tradicionais do país, com apoio da Federação dos Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase). A construção se dará em breve, em mutirão.
Toda essa farta produção é escoada para moradores de São Mateus e da Grande Vitória inscritos na Comunidade que Sustenta Agricultura (CSA) pioneira do Espírito Santo, que agrega outras comunidades do Território Quilombola Tradicional do Sapê do Norte, entre São Mateus e Conceição da Barra.
Fôlego
O projeto Mulheres de Fibras foi contemplado pelo edital de Culturas Populares e Tradicionais Quilombolas e será realizado com recursos do Funcultura/Secretaria de Estado de Cultura (Secult). Entre os apoiadores, ao lado da AQPCA e da Fase, está o jornal Século Diário. “Século Diário é o nosso fôlego”, metaforiza Jurema.
“Quando a gente está quase perdendo tudo, Século dá as mãos e a gente consegue subir de novo na superfície. É onde a gente tem voz”, declarou, referindo-se à cobertura feita, historicamente, pelo jornal, à luta quilombola no Sapê do Norte pelo reconhecimento de seu território tradicional, usurpado há meio século pela Aracruz Celulose, hoje Fibria/Suzano