Água Vermelha, no território Caramuru-BA, é exemplo de resiliência da agricultura familiar

da Redação

Em Pau Brasil, 420km de Salvador, agricultores da etnia Pataxó Hã-hã-hãe já encontram na produção de frutas e legumes o início de um novo tempo na produção agroecológica no território

Um bom exemplo de luta, força e traballho pela agricultura familiar pode ser encontrado na região de Água Vermelha, território Caramuru-Paraguaçu, em Pau Brasil, sul da Bahia.

Os agricultores Luzeni Vieira dos Santos, Maria Eunice Vieira dos Santos e Luiz Carlos plantam e colhem uma diversidade de alimentos, mesmo enfrentando, de sol a sol, diversos obstáculos para a sua produção.

As agricultoras familiares Maria Eunice e Luzeni Vieira

Apesar das dificuldades encontradas para a demanda, o escoamento e a logística, desde o transporte e chegada aos locais de venda, os agricultores seguem semeando luta e esperança, palavras de ordem em tempos de pandemia e crise econômica.

Neste trabalho de grande dedicação, o rio Água Vermelha é um aliado, pois é por meio dele que os produtores familiares conseguem um ambiente propício para a produção hortifrutigranjeira dos Pataxó.

O secretário de Políticas Estratégicas e Linguagens dos Povos Originários, Lucas Santana, tem acompanhado a produção nas lavouras, levando a assistência e o apoio da CONAFER para alavancar estas experiências.

O agricultor familiar Luiz Carlos é só felicidade ao lado do secretário de Políticas Estratégicas e Linguagens dos Povos Originários, Lucas Santana

Segundo Lucas Santana, “é a força da terra que inspira a todos na hora de cuidar do terreno, de semear e colher o resultado da produção”.

Os agricultores conseguem colher semanalmente, em média:

3 caixas de limão
20 pacotes de ervas naturais
2 caixas de alface
1 caixa de coentro
2 caixas de chuchu
10 pacotes de couve-flor
2 caixas de laranja
53 abóboras
1 caixa de banana da terra
1 caixa de banana prata
5 litros de corante
1 litro de açafrão
1 litro de pimenta malagueta
1 litro de pimenta de cheiro
1 litro de paçarinha
15 pacotes de feijão andu
15 pacotes de feijão mangalô
E mais: mastruz , alecrim, hortelã, boldo e alfazema.

Essa produção toda rende aos agricultores cerca de R$ 380 por semana. Ou aproximadamente R$ 1,6 mil mensais. Com a implantação de novas culturas, programas e projetos agroecológicos, a ideia é que em breve a produção seja bem maior, e os lucros das vendas muito mais significativos.

Agroecologia: o sistema produtivo que sustenta a agricultura familiar

da Redação

União de saberes, técnicas tradicionais de cultivo e novos conhecimentos geram mais capacidade produtiva sem esgotar o solo, e ainda preservando o meio ambiente

O tema ambiental está no foco das discussões sobre a expansão da agricultura de alto carbono. Enquanto isso, a procura por alimentos agroecológicos têm crescido no Brasil e no mundo. Tornar o cultivo na agricultura familiar totalmente sustentável é uma opção decisiva para proteger a saúde, o planeta e o segmento todo o segmento econômico.

Entre os princípios básicos da agroecologia está o apelo à biodiversidade, ou seja, todas as formas de vida presentes na agricultura são importantes. Desta forma, as plantas, animais, minerais e tudo mais que envolve a produção desde a semeadura até a colheita, são tratados como parte do processo e requerem muita atenção.

Foto: Embrapa

A agroecologia tem por objetivo eliminar o uso de agrotóxicos e adubos químicos solúveis, que, em excesso, podem contaminar os alimentos e também empobrecer o solo. A agroecologia tem meios de aumentar a sua capacidade produtiva sem o uso de defensivos agrícolas. Um desafio que só é possível vencer com o conhecimento da terra e de tudo o que se planta nela.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, defende que a agroecologia é a chave para erradicar a fome na América Latina e Caribe, pois permite o desenvolvimento sustentável da agricultura, o progresso em direção a sistemas alimentares inclusivos e eficientes, e a conquista de ciclo virtuoso entre a produção de alimentos saudáveis e a proteção dos recursos naturais.

Isso é possível porque a agroecologia se baseia na união de saberes, integrando técnicas tradicionais de cultivo e novos conhecimentos, novas tecnologias limpas e insumos que são capazes de ofertar maior capacidade produtiva sem o esgotamento do solo. E por ser um cultivo mais preocupado com todos os aspectos que envolvem a vida no campo, a tendência é que a agroecologia passe a ser um conceito cada vez mais discutido e buscado para o cotidiano da agricultura familiar no Brasil e no mundo.

Agroecologia e o desenvolvimento rural

Foto: Eco 4 U

A agroecologia é uma alternativa à agricultura convencional. Por meio dela a produção no campo é aliada à preservação dos recursos naturais e dos ecossistemas, de forma a promover o manejo sustentável com a valorização de sistemas orgânicos de cultivo e do conhecimento tradicional dos trabalhadores rurais.

Os preceitos defendidos pela agroecologia contemplam a sociobiodiversidade, permitindo o reconhecimento da identidade sociocultural, o fortalecimento da organização social, a comercialização da produção e a garantia dos direitos dos povos e comunidades tradicionais e dos assentados. Ou seja, todos os envolvidos no processo são beneficiados nos aspectos sócio-econômicos e culturais.

Sendo assim, a agroecologia é um importante modelo de desenvolvimento rural, já que busca modificar as formas de produzir alimento a partir da adoção de sistemas sustentáveis. O setor agroecológico teve um crescimento de vendas acima de 20% entre 2017 e 2018, segundo pesquisa do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), um fator que deve ser considerado pelos que desejam migrar da agricultura tradicional para um modelo mais sustentável e que entrega alimentos com maior qualidade.

A CONAFER trabalha diariamente por uma agricultura sustentável, em equilíbrio com o meio ambiente. Em todas as sociedades mais evoluídas se discute a importância de cuidar do planeta antes que ele entre em colapso. Adotar as práticas agroecológicas é importante para evoluir em todo o processo de cultivo.

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A diversidade de produtos gera segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental valoriza o produto final. A busca pelo aumento da fertilidade do solo, o desafio de reduzir os custos de produção e a demanda mundial por produtos sustentáveis tornam a agroecologia o único caminho viável para milhões de agricultores familiares brasileiros.

Capa: Hisour

A riqueza do açaí mostra a força da agricultura extrativista

da Redação

Cadeia de produção do fruto movimenta mais de R$ 592 milhões por ano no Brasil; país é o maior produtor de açaí no mundo, com produção anual de 1,1 milhão de toneladas

O açaizeiro é uma árvore que pode chegar a 30 metros de altura e que prefere áreas úmidas, fator que faz com que a mesma prefira as margens dos rios para crescer. Por isso, o açaí é produzido a partir do trabalho dos agricultores familiares das comunidades ribeirinhas, através de técnicas próprias de extrativismo. O fruto é uma das mais importantes fontes de alimentação para os habitantes da região amazônica, terra de origem do açaí e onde se concentra a maior parte da produção mundial.

O açaizeiro é uma palmeira de folhas grandes, finamente recortadas em tiras e de coloração verde-escura. As flores são pequenas, agrupadas em grandes cachos pendentes e de coloração amarelada. Aparecem, geralmente, entre setembro e janeiro. Cada palmeira produz de três a quatro cachos por ano, com 3 a 6 kg de frutos que, quando maduros, adquirem uma coloração violácea, quase negra. A produção se intensifica nos meses de julho a dezembro.

Foto: FAPEAM

Do açaizeiro tudo se aproveita: frutos, folhas, raízes, o caule (de onde se obtém o palmito), tronco e cachos. O palmito de açaí é largamente comercializado e um dos mais apreciados na culinária. Já as fibras das folhas são utilizadas para tecer chapéus, esteiras e cestas, e os cachos secos são aproveitados para fazer vassouras. As populações ribeirinhas do rio Amazonas fazem dessa palmeira uma fonte de renda e a base da alimentação de suas famílias ao longo de praticamente todo o ano.

Rico em vitaminas, nutritivo e delicioso

A fruta foi conquistando seu espaço aos pouquinhos e, com o tempo, ganhou diversos adeptos. Hoje, o açaí é uma verdadeira febre em todo Brasil e já está presente em diversos outros países. Para ser apreciado, é necessário que o açaí seja amassado. A polpa é então misturada à água, originando o chamado “vinho do açaí”.

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Em todo Brasil, o açaí é consumido principalmente em forma de creme, batido com guaraná, mas nos estados do Amazonas e do Pará, além dos outros da região amazônica, é consumido acompanhado principalmente de farinha de tapioca, peixes e camarão, além de suco ou vinho. O pirão feito com a fruta também ganha lugar na mesa, assim como a geleia, sorvetes e doces.

Foto: Conquiste Sua Vida

Os benefícios do açaí para a saúde são vários. A fruta é rica em vitaminas dos complexos B e C, além de ter muito ferro, cálcio e potássio, todos elementos essenciais para uma boa saúde. O açaí também é rico em antocianinas, substâncias que ajudam na circulação do sangue pelo organismo.

De acordo com a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (Taco), cada 100 gramas da polpa congelada de açaí possui 0,8g de proteína, 3,9g de lipídios, 6,2g de carboidratos, 2,6g de fibras alimentares e 58 kcal. Corresponde, portanto, a uma alimentação completa.

Um mercado cheio de oportunidades e excelentes perspectivas

A cadeia de produção do açaí movimenta mais de R$ 592 milhões por ano no Brasil, de acordo com boletim publicado pela Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. O país é o maior produtor do fruto no mundo, com mais de 1,1 milhão de toneladas por ano, segundo o IBGE. O mercado desse importante produto da economia amazônica só cresce a cada ano, apresentando uma perspectiva de alta taxa de crescimento para os próximos anos.

Muito valorizado pelas indústrias alimentícias e de cosméticos, o açaí possui uma cadeia de produção que traz importantes benefícios sociais, econômicos e ambientais para a Amazônia. De acordo com o Censo Agropecuário IBGE 2017, a cadeia beneficia aproximadamente 150 mil famílias de extrativistas e agricultores familiares organizados em quase 200 cooperativas e associações de produtores.

Estima-se que 300 mil pessoas estejam envolvidas no processo de produção, entre produtores, batedeiras, indústria, varejo e serviços em geral. Cerca de 60% do açaí produzido no Brasil é consumido no Pará. Outros 30% são consumidos no restante do país, enquanto 10% segue para exportação. Deste percentual, 77% tem como destino os Estados Unidos.

Foto: Visite O Brasil

É difícil provar o verdadeiro açaí fora da região Norte. Depois da colheita, o fruto deve ser batido em até 24 horas para preservar a cor, o cheiro e o sabor e se o açaí não for ingerido em até 72 horas, ele começa a oxidar. Por isso, a polpa precisa ser congelada e industrializada para chegar a outras regiões.

Com peixe ou misturado ao guaraná, servido na cuia ou em uma tigela, com fatias de banana ou com farinha, não existe maneira errada de apreciar o açaí. Escolha a sua maneira preferida e aproveite todos os benefícios dessa fruta especial.

A lenda indígena do açaí, o fruto que chora

A palavra “açaí” tem origem indígena e significa “fruto que chora”. Conta a lenda que há muito tempo atrás, um numeroso grupo Tupi vivia na região onde hoje fica a cidade de Belém, no estado do Pará. E conforme a população aumentava, havia cada vez menos alimentos disponíveis.

Ao ver seu povo passar fome, o chefe Itaki ordenou que toda criança recém-nascida fosse sacrificada para manter a população sob controle, até que uma fonte mais abundante de alimentos fosse encontrada. Ele não abriu qualquer exceção a essa ordem, mesmo quando sua própria filha, Iaçã, ficou grávida e deu à luz uma menina. Iaçã ficou desesperada, chorava todas as noites de saudades de sua filhinha. Ficou por vários dias enclausurada em sua tenda e pediu a Tupã que mostrasse ao pai outra maneira de ajudar seu povo, sem o sacrifício das crianças.

Foto: Bio Point

Certa noite, Iaçã ouviu o choro de uma criança e, ao entrar no mato, viu sua filha sentada ao pé de uma palmeira. Ela estendeu os braços e correu em direção à criança, mas o bebê instantaneamente desapareceu no abraço. Inconsolável, Iaçã caiu sobre a palmeira chorando até desfalecer. No dia seguinte, seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira. O seu rosto trazia ainda um sorriso de felicidade e seus olhos negros estavam voltados para o alto da árvore, carregada de frutinhos escuros. Itaki então mandou que apanhassem os frutos. Deles, foi obtido um suco avermelhado.

Itaki percebeu que aquela era uma benção de Tupã e batizou a fruta de açaí, palavra originada da pronúncia invertida dos vocábulos existentes em Iaçã, em homenagem a sua filha. A ordem de sacrificar os bebês foi encerrada e a comunidade nunca mais passou fome.

Capa: Agência Pará

Produção de leite no Brasil tem a energia da agricultura familiar

da Redação

O país é o 3º maior produtor de leite do mundo; 60% da produção vem das propriedades de pequenos produtores

O leite é um alimento fundamental para a saúde em países como o Brasil, que infelizmente ainda esbarram na desigualdade social que retira da mesa de milhões de crianças, adolescentes e adultos, os alimentos mais ricos em nutrientes, proteínas e vitaminas. Por ter um custo mais acessível, o leite é uma opção que tem lugar de destaque na dieta dos brasileiros. 

Conforme a história da civilização humana, há cerca de 10 mil anos o leite não existia no cardápio dos nossos ancestrais. Com a fixação dos primeiros grupamentos de humanos em função do término de um período glacial, vemos o ser humano se fixar pela primeira vez como agricultor. Depois de algum tempo, alguns animais passaram a ser domesticados, entre eles os bovinos. E as vacas passaram então a fornecer o leite, e deste leite, os nutrientes que ajudaram a moldar o novo ser humano que ali nascia. 

Os primeiros humanos a consumir o leite regularmente foram os agricultores e pastores da Europa Ocidental. Hoje, beber leite é uma prática comum no mundo inteiro.
Segundo a Embrapa, o Brasil é o 3º maior produtor de leite do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia.

O que impressiona é que 60% desta produção é proveniente da agricultura familiar. Os números expressivos obtidos pelas pequenas propriedades familiares também aparecem no processamento de produtos lácteos, como os queijos artesanais, queijo minas frescal, mussarela, ricota, manteiga, doce de leite e requeijão, e muitos outros derivados conforme a cultura da região produtora. 

Para 1,2 milhão de produtores o leite é o salário do mês. É uma das atividades que mais gera empregos no país, com mais de 4 milhões de brasileiros trabalhando nas indústrias de laticínios e no campo com a produção primária.


O leite se destaca na segurança alimentar da Agenda 2030
da ONU

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a FAO, incentiva as pessoas nos países em desenvolvimento a manterem animais leiteiros, para que possam usufruir dos benefícios. O que a levou a instituir, em 2001, o 1° de junho como Dia Mundial do Leite, data criada para incentivar o consumo de produtos lácteos entre as populações.

Segundo a agência da ONU, o mundo precisa aproveitar melhor o potencial do leite e seus derivados. Para isso, pede que os governos invistam mais em programas focados na sua produção, beneficiando as famílias mais pobres do mundo.

A FAO recomenda a ingestão mínima de 180 litros anuais de leite e derivados por habitante. O brasileiro consome, em média, 172 litros, portanto abaixo do recomendado.

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Benefícios, nutrientes e importância do consumo na vida saudável

O leite é uma das melhores fontes de cálcio disponíveis. Por isso, este alimento é essencial para a saúde dos ossos e dentes e seu consumo previne a osteoporose. Além disso, a bebida pode contribuir para a perda de peso, proporciona bem-estar e ainda previne o diabetes de tipo 2. O alimento também é um aliado de quem pratica exercícios e é especialmente necessário na infância e adolescência. Mas é igualmente importante para a terceira idade.

Foto: Freepik

A bebida possui vitaminas e minerais que nos mantêm ativos e saudáveis, como as vitaminas A, B12 e D, além do cálcio já citado, e de zinco, que garante uma boa visão e o aumento da produção de células vermelhas do sangue. Possui ainda carboidratos, para nossa vitalidade e energia; potássio, que regula as funções nervosas; magnésio, para os músculos; fósforo, para liberação de energia, e proteínas, para a restauração e o crescimento celular.

Por todas estas razões, a FAO destaca que por ser o leite fonte importante de energia, proteínas e gorduras, e rico em micronutrientes importantes para a prevenção à desnutrição, seu consumo torna-se base para uma mudança de paradigma no déficit nutritivo de bilhões de pessoas. 


O PAA, programa criado em 2003 no Fome Zero fortalece agricultura familiar

Foto: Mercado do Cacau

No Brasil pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional, que são beneficiárias de programas sociais do governo, e pessoas privadas de liberdade, poderão receber até 7 litros de leite por semana do Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA, por meio da modalidade de Incentivo à Produção e Consumo de Leite, executado pelos governos estaduais e municipais.

Uma forma de melhorar a alimentação das famílias em situações de vulnerabilidade e insegurança alimentar e nutricional, e fortalecer o setor produtivo local e a agricultura familiar, garantindo a compra do leite dos agricultores familiares. 

A CONAFER apoia e incentiva os mecanismos de compras públicas de leite por intervir na produção e circulação do leite, tornando a atividade mais justa socialmente e estimulando o desenvolvimento da pecuária familiar e alavancando as economias locais.

Capa: Cenário MT

Senado vota projeto para o governo cuidar da saúde e dar apoio à produção de indígenas e quilombolas

da Redação

Além de garantir ações contra a pandemia, PL cria um programa específico de crédito para o Plano Safra 2020

Depois de ser aprovado na Câmara dos Deputados, está em apreciação no Senado Federal o PL 1142, composto por 21 artigos e distribuídos em seis capítulos, e já com o parecer final indicando a aprovação pelos senadores. O projeto que está na pauta para ser votado esta semana, impõe medidas de proteção contra a pandemia nos territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Batizado de Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19, o PL 1142 institui medidas para coibir a disseminação do novo coronavírus. 

Além de exigir ações contra a Covid-19 e favorecer o distanciamento social, o projeto determina ao Governo Federal que adote ações de ampliação do acesso ao auxílio emergencial, previsto pela Lei nº 13.982/2020, e também para outros benefícios sociais e previdenciários em áreas remotas.

Contra a pandemia, o projeto prevê entre as medidas emergenciais a serem adotadas a ampliação do número de médicos disponíveis para o atendimento nas localidades, total acesso ao leitos de UTI, medicamentos e alimentos, além da restrição da entrada nas aldeias por não indígenas. A exceção ficaria por conta das pessoas responsáveis pela prestação de serviços públicos devidamente credenciados, como profissionais da saúde, servidores da Funai e demais órgãos públicos.

O índice de letalidade por Covid-19 entre indígenas é de 14,5%, enquanto o índice na população em geral é de 6,5% no Brasil. Já são 2600 casos confirmados nas comunidades indígenas e 236 mortes. Entre os quilombolas, já foram registrados mais de 300 casos da doença e 66 óbitos.

Medidas de prevenção e proteção à saúde

▪️Distribuição gratuita de materiais de higiene, limpeza e desinfecção de superfícies nas aldeias indígenas.
▪️Formação de Equipes Multiprofissionais de Saúde Indígena (EMSI), qualificadas e treinadas para o enfrentamento à Covid-19.
▪️Garantia de acesso a testes rápidos e RT-PCRs, medicamentos e equipamentos médicos adequados para o diagnóstico e o tratamento da Covid-19.
▪️Organização de uma estrutura de atendimento de média e alta complexidades nos centros urbanos.

Agricultura familiar será beneficiada com aprovação do PL 1142

No segmento econômico da agricultura familiar, estão previstas ações de segurança alimentar com estímulo à produção, apoio técnico e acesso ao crédito por meio do Plano Safra.

Medidas de apoio à produção de indígenas e quilombolas

▪️Distribuição direta de alimentos às famílias indígenas, quilombolas e dos demais povos e comunidades tradicionais, na forma de cestas básicas, além de sementes e de ferramentas de uso agrícola.
▪️Suporte técnico e financeiro à produção dos povos indígenas, comunidades quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais e também ao escoamento da produção.
▪️Criação de um programa específico de crédito para os povos indígenas e quilombolas para o Plano Safra 2020.

O Projeto de Lei determina ainda a adoção de medidas de simplificação das exigências documentais para acesso a políticas públicas, de forma a criar condições para a manutenção da segurança alimentar durante o estado de emergência e calamidade pública. Caso aprovado no Senado o projeto segue para sanção presidencial.

Veja abaixo o parecer do senador Randolfe Rodrigues em favor da aprovação do projeto:

A agricultura familiar continua produzindo

FONTE: Fiocruz
 
A Agricultura Familiar continua a produzir alimentos e comercializando em época de pandemia:
Agricultores e agricultoras familiares continuam abastecendo os lares dos brasileiros e das brasileiras com comida de verdade! São famílias agricultoras, camponesas, assentadas da reforma agrária, extrativistas, pescadoras artesanais e integrante de povos e comunidades tradicionais que seguem fazendo o que sempre fizeram: plantando, coletando e comercializando alimentos frescos e de qualidade para alimentar o Brasil.
Apoie a agricultura familiar e compre de quem está próximo de você! Dê uma olhada no vídeo feito pela ANA e pela FIOCRUZ.
 

 

Sem terras nem mão de obra, Japão revoluciona agricultura com robôs, polímeros e drones

FONTE: BBC

As frutas e verduras cultivadas pelo japonês Yuichi Mori não estão no chão nem precisam de terra. Em vez disso, as raízes das plantações estão fincadas em um dispositivo que servia originalmente para tratamento médico de rins humanos.

Mori faz seu cultivo em uma película de polímero transparente e permeável, à base de hidrogel, que ajuda a armazenar líquidos e nutrientes. As plantas crescem em cima do filme, e as raízes se desenvolvem para o lado. Além de permitir que os vegetais cresçam em qualquer ambiente, a técnica consome 90% menos água do que a agricultura tradicional e dispensa pesticidas, já que os poros do polímero bloqueiam vírus e bactérias.

“Adaptei os materiais para filtrar o sangue na diálise renal e o meio de crescimento de vegetais”, explica o pesquisador.

Sua empresa, Mebiol, tem patentes da invenção registradas em quase 120 países (inclusive no Brasil, onde há empresas interessadas na tecnologia) e evidencia uma revolução agrícola em curso no Japão: campos de cultivo estão sendo convertidos em centros de tecnologia, com a ajuda da Inteligência Artificial (IA), da Internet das Coisas (IoT) e de conhecimentos saídos dos laboratórios.

Em um país com escassez de terras cultiváveis e de mão de obra, a agrotecnologia tem aumentado a precisão no monitoramento e na manutenção da lavoura, mesmo sem uso de terra ou então em áreas com acesso limitado à água, uma preocupação crescente em todo o mundo.

O Relatório Mundial da ONU sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos deste ano estima que 40% da produção de grãos e 45% do Produto Interno Bruto global estarão comprometidos em 2050 se a degradação do ambiente e os recursos hídricos continuarem nas taxas

Plantação de tomates que dispensa terrasMétodo de produção por películas possibilita a agricultura em qualquer lugar do planeta

“Discriminação, exclusão, marginalização, desequilíbrios de poder arraigados e desigualdades materiais estão entre os principais obstáculos para a realização dos direitos humanos à água potável e ao saneamento seguros para todos”, conclui o documento de 2019.

O cultivo em polímeros como o de Yuichi Mori supera fronteiras e já é praticado em mais de 150 locais dentro do Japão e regiões como o deserto dos Emirados Árabes, no Oriente Médio. O método também está sendo empregado na reconstrução de áreas agrícolas do nordeste japonês, contaminadas por substâncias levadas pelo tsunami que se seguiu ao grande terremoto de março de 2011.

Trator robô

Com o aumento projetado na população mundial (de 7,6 bilhões para 9,8 bilhões em 2050), empresas apostam em grandes oportunidades de negócios e demanda global por alimento, além de um mercado em potencial para maquinários.

O governo japonês subsidia atualmente o desenvolvimento de 20 tipos de robôs, capazes de ajudar em várias etapas do plantio até a colheita em vários cultivos.

Em parceria com a Universidade de Hokkaido, a empresa Yanmar desenvolveu um trator robô que está sendo testado no campo. Uma só pessoa consegue operar dois tratores ao mesmo tempo, graças a um sensor integrado que identifica os obstáculos e impede colisões.

Já a montadora Nissan lançou neste ano um robô equipado com GPS, conexão WiFi e movido a energia solar. Batizado de Pato, o equipamento com o formato de uma caixa percorre campos alagados de arroz para ajudar na oxigenação da água, reduzindo o uso de pesticidas e seu impacto ambiental.

Lavoura sem gente

Com a tecnologia, o governo busca atrair para o campo jovens que têm pouco interesse em trabalhar diretamente na lavoura, mas com afinidade por tecnologia, em uma tentativa de reanimar um setor com cada vez menos gente.

Em quase uma década, o número de produtores agrícolas japoneses caiu de 2,2 milhões para 1,7 milhão, com média de idade de 67 anos. Somente 7% da população economicamente ativa do Japão está empregada no campo, e grande parcela dos agricultores trabalha apenas meio período.

A topografia limita muito a agricultura do Japão, que consegue produzir somente 40% dos alimentos de que precisa. Cerca de 85% do território é ocupado por montanhas e a maior parte do que resta de área agricultável é dedicada ao arroz, cultivado em tanques intensamente irrigados.

Esse grão sempre foi o alimento básico dos japoneses. O governo fornece subsídios para os rizicultores manterem a produção em minifúndios de 1 hectare, mas a mudança dos hábitos alimentares tiraram o brilho do arroz nas tigelas dos japoneses.

Com a queda de consumo anual per capita de 118 kg em 1962 para menos de 60kg de arroz nos últimos anos, o Japão passou a incentivar a diversificação no campo. Sem gente e para continuar sustentando as plantações, os agricultores recorreram a maquinários e pesquisa biotecnológica. Cada vez mais drones estão sendo usados em tarefas como a pulverização, realizando em meia hora o trabalho que consumiria um dia de um trabalhador.

A alta tecnologia tem permitido a expansão da área cultivável sem uso de terra. Através da produção em estufas e hidroponia, o Japão conseguiu expandir a produção de frutas e hortaliças.

A empresa Mirai Group, na província de Chiba, é uma das pioneiras na produção de alimentos em prateleiras que vão do chão ao teto, e atualmente colhe cerca de 10 mil cabeças de alface por dia. A produtividade é cem vezes maior em comparação ao método convencional. Através de um dispositivo com sensores, a empresa faz o controle da luz artificial, nutriente líquido, dióxido de carbono e temperatura da cultura hidropônica.

A luz artificial faz com que as plantas cresçam rápido, e o manejo controlado elimina perdas por doenças. Apesar do alto custo de energia que o método representa, o número de fábricas de plantas no Japão triplicou em uma década, chegando às atuais 200 instalações.

Produção japonesa de tomate em DubaiTecnologia japonesa permite produção de tomate no meio do deserto, como este em Dubai

O mercado da hidroponia cresce no mundo todo e representa atualmente pouco mais de US$ 1,5 bilhão em negócios. E segundo previsão da Allied Market Research, ele deverá mais que quadruplicar até 2023, atingindo a marca de US$ 6,4 bilhões.

Transferência de tecnologia

Com o apoio da tecnologia, o Japão também se comprometeu a ajudars países do continente africano a duplicar a produção anual de arroz para 50 milhões de toneladas até 2030. Projetos específicos já são realizados na África.

No Senegal, por exemplo, os japoneses investiram na formação de técnicos agrícolas e transferência de tecnologia principalmente de irrigação. Como resultado, a produtividade subiu de 4 para 7 toneladas de arroz por hectare e os rendimentos dos produtores aumentaram cerca de 20%.

A estratégia japonesa é promover investimentos privados e ampliar o comércio de maquinários para a agricultura sustentável em todo o continente africano. No período de 15 anos, o PIB da África expandiu 3,4 vezes, de US$ 632 bilhões em 2001 para US$ 2,1 trilhões em 2016, e o mercado consumidor continuará crescendo até o final do século, quando a população africana deverá representar 25% do total global (hoje é de 17%).

Com a intenção de ajudar na redução da perda pós-colheita, revitalizar a indústria de alimentos e aumentar a renda rural, em 2014 o Ministério da Agricultura, Silvicultura e Pesca do Japão formulou a Estratégia Global da Cadeia de Valor Alimentar para aplicar nos países em desenvolvimento, como Vietnã, Mianmar e Brasil.

A presença do Japão na agricultura brasileira se confunde com a história de 111 anos da imigração nipônica no país. De todos os projetos já realizados envolvendo os dois países, o de maior porte continua sendo o Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento dos Cerrados), idealizado na década de 1970. Para resolver problema de abastecimento japonês, foram incorporadas extensas áreas do Cerrado para o desenvolvimento de tecnologia para a produção de grãos, principalmente milho, soja e trigo em uma terra que o Brasil considerava infértil.

Agora, os negócios se voltam a novas fronteiras. Em 2016, Brasil e Japão assinaram acordo de cooperação de investimentos na região do Matopiba (municípios dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Os brasileiros buscam inovações em conectividade nas áreas rurais, agricultura de precisão, rastreabilidade e automatização desenvolvidas pelos japoneses.

Agricultura Familiar avança com políticas públicas de incentivo ao produtor

FONTE: Notícias do Governo
Semana Nacional da Agricultura Familiar é marcada por aumento de recursos para o setor
Produtores rurais que plantam em pequenas propriedades e com mão de obra familiar. Esse é o retrato do agricultor familiar, que produz cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Com o fortalecimento de políticas públicas de apoio à produção, à comercialização e ao aumento de recursos, o setor celebra até a próxima sexta-feira (26) a Semana Nacional da Agricultura Familiar.

Nos primeiros 200 dias de governo, os produtores familiares tiveram aumento de mais de R$ 4,4 bilhões de recursos para a safra 2019/2020. Os beneficiários do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) contam com R$ 31,2 bilhões à disposição para custeio, comercialização e investimento.

A agricultura familiar produz 70% do feijão nacional, 34% do arroz e 38% do café. A comercialização dessa produção do setor conta com o apoio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que, com a modalidade de compra institucional, amplia as vendas dos agricultores familiares.
Nessa modalidade, estados, municípios e órgãos públicos federais podem comprar alimentos da agricultura familiar por meio de chamadas públicas, com recursos próprios e com dispensa de licitação. Atualmente, por lei, ao menos 30% dos produtos obtidos para alimentação nas instituições públicas federais devem vir da agricultura familiar.
Cada agricultor pode vender até o limite de R$ 20 mil por ano para cada órgão comprador. Já para as cooperativas ou associações, o teto é de R$ 6 milhões ao ano.
No Brasil há mais de 5,1 milhões de estabelecimentos familiares. A renda do setor responde por 33% do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário e por 74% da mão de obra empregada no campo.

Comercialização

Na cidade de Planaltina de Goiás, o agricultor familiar Marcos Oliveira, de 32 anos, planta pimentão, tomate e abobrinha junto com irmãos e cunhados. Eles fazem parte de uma cooperativa que comercializa a produção para quartéis. A propriedade rural foi quitada com o dinheiro que vem das vendas feitas a órgãos públicos.
A família já chegou a ganhar R$ 20 mil por mês com as vendas. Marcos lembra como era a vida antes de fazer parte da cooperativa e comercializar por chamadas públicas do PAA. “Para quem chegou aqui sem ter uma bicicleta para andar, agora a chácara que foi financiada já está quitada e foi tirando dinheiro daqui. É um mercado garantido, agora mesmo já foi ali cinquenta e poucas caixas de tomate. Se você vai numa cidade pra vender cinquenta caixas de tomate tem dificuldade porque é muito produtor”, conta.
As Forças Armadas estão entre os que adquirem produtos pela compra institucional. Recentemente, a 12ª Região Militar, em Manaus, abriu uma chamada pública para comprar R$ 11 milhões em produtos da agricultura familiar que vão abastecer 14 batalhões.
De acordo com o major Matos Júnior, a previsão é aumentar a quantidade de produtos adquiridos. Ele destaca que a compra beneficia as duas pontas do processo. “Trazemos produtos de qualidade para nossas tropas e dessa forma desenvolvemos a economia local. A soberania está voltada também para uma economia estável”, disse.
O secretário de agricultura familiar e cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Fernando Schwanke, lembra que o PAA na modalidade institucional é garantia de renda ao agricultor.
“Cada vez mais o Exército, a Aeronáutica, a Marinha, hospitais públicos, universidades, têm acessado e comprado da agricultura familiar, que tem gerando muita renda para os agricultores de forma direta ou para as cooperativas da agricultura familiar”, disse.

Crédito para construção

Outra medida anunciada para os agricultores familiares no Plano Safra 2019/2020 foi a autorização para que pela primeira vez, recursos do Pronaf sejam usados na construção e reforma de moradias de pequenos agricultores. Foram destinados R$ 500 milhões para essa finalidade, valor suficiente para construir 10 mil casas, de acordo com o Ministério da Agricultura.

FGV: Caged mostra que agricultura é a única atividade que vai bem na economia

FONTE: Isto É
O destaque positivo do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de maio é a criação de 37.373 postos formais no setor agrícola, refletindo as melhores avaliações para a safra brasileira, avalia o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) Renan Pieri.
“A agricultura vai bem a despeito da fragilidade da economia. As previsões para o setor agrícola são boas, mas para os outros setores, não. A indústria de transformação está em declínio. Há uma desindustrialização muito forte, sobretudo na região Sudeste”, diz, destacando também o saldo positivo do construção civil (8.459 vagas). “É um setor que sofre muito desde a Lava Jato. O fato de ter criado vagas é um bom sinal.”
A indústria de transformação destruiu 6.136 vagas em maio. O Caged, por sua vez, registrou geração de 32.140 empregos formais no período, bem abaixo da mediana de abertura de 70 mil postos da pesquisa do Projeções Broadcast, cujo intervalo ia de 17.000 a 109.905 vagas.
“Em 12 meses, são cerca de 474 mil empregos formais criados, mas ainda é muito pouco diante de 13 milhões de desempregados e 28 milhões subutilizados.”
Pieri ressalta que o número de postos gerados em maio foi bem similar ao do mesmo mês do ano passado (33.659 vagas), mas pondera que não há perspectiva de grande abertura de vagas nos próximos meses em meio às revisões para baixo das projeções para o Produto Interno Bruto (PIB), como a realizada nesta quinta-feira pelo Banco Central no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), de 2,0% para 0,8%.
O economista destaca ainda que o Caged não tem sido um bom “provisor” da economia, uma vez que a recuperação econômica tem se dado pelo setor informal.
Selic
Esse quadro de fragilidade da economia deve mudar pouco com o corte de juros, avalia Pieri. “Um corte de juros agora tem pouco efeito para estimular a atividade em si dado a incerteza.” Mas o economista afirma que o Banco Central deveria reduzir a Selic, uma vez que as projeções para inflação caíram e já estão abaixo do centro da meta.

Registro de produção mostra importância das mulheres na agricultura familiar brasileira

FONTE: ONU BR
Uma ideia simples — uma caderneta de quatro colunas para mulheres da agricultura familiar brasileira registrarem o quanto de sua produção é vendida, distribuída, trocada ou consumida — teve impactos positivos de longo alcance em suas vidas. A estratégia mudou a forma elas e seus parceiros valorizam sua própria produção, ajudando-os a se beneficiar de políticas governamentais destinadas à agricultura familiar.
“Aprender a ver nossa produção foi muito útil para nós”, disse a trabalhadora rural Janete Dantas. Ela registra o leite, os ovos, as galinhas, as frutas e os legumes produzidos na pequena propriedade que ela e a mãe administram perto de Itaóca, no estado de São Paulo, e o quanto isso contribui para a renda da família. “Quando fazemos os cálculos no final do mês, vemos o tamanho da nossa contribuição.”
As cadernetas fazem parte de uma revolução silenciosa que é impulsionada por grupos feministas de agropecuária que influenciaram os dados do censo governamental. Como resultado de sua pressão, o Censo Agropecuário 2017 do Brasil manteve uma pergunta sobre o gênero dos produtores agrícolas e conseguiu fornecer dados que mostram que o número de estabelecimentos administrados por mulheres subiu para 18,6%, com quase 1 milhão de mulheres envolvidas, de 12,7% há cerca de 11 anos.
O agronegócio é um pilar da economia brasileira, respondendo por quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB), com culturas como soja e café de fazendas industrializadas entre as exportações mais importantes do país. Mas o Brasil também tem milhões de agricultores e agricultoras familiares com um faturamento anual total de 55,2 bilhões de dólares por ano. Nesse setor, as mulheres desempenham um papel fundamental.
“Estamos aprendendo muito sobre a capacidade de produção das mulheres”, disse a coordenadora do Centro de Tecnologia Alternativa da Zona da Mata de Minas Gerais, Beth Cardoso. “Há pouca visibilidade e valor dado ao trabalho das mulheres nas áreas rurais”, completou. Com o Centro, ela ajudou a lançar uma versão anterior das cadernetas, em 2011. Dois anos depois, esse sistema se desenvolveu nas Cadernetas Agroecológicas (cadernos agroecológicos) cujo projeto está em andamento. Isso já se espalhou pelo Brasil e conta com centenas de mulheres participando.
O grupo Sempreviva Organização Feminista (SOF), de São Paulo, também participou do projeto de cadernetas e trabalha para tornar a importância das mulheres para a agricultura brasileira mais visível.
Em grande parte do Brasil rural, as mulheres cuidam de hortas domésticas, vendem ou trocam produtos e fornecem alimentos para suas famílias, afirmou a engenheira agrônoma da SOF Miriam Nobre. Mas o valor de sua produção passa despercebido, especialmente se o parceiro não for agricultor.
Isso mudou para Janete Dantas e sua mãe depois de passarem 18 meses preenchendo as cadernetas e compartilhando a experiência com outras mulheres. Janete trabalha até três horas por dia na pequena propriedade que ela e o marido, um motorista, compartilham com os pais. Sua mãe, Maria, 68 anos, trabalha seis horas por dia. Antes de participar do projeto, eles nunca haviam calculado o valor de seu trabalho e quanta comida colocava na mesa. “Vemos o quanto nós comemos e quanto vale o que produzimos”, declarou Janete. “Somos capazes de dar mais valor a isso.”
Projetos como esses permitiram que o governo conhecesse melhor o papel das mulheres na agricultura brasileira, algo que Nobre coloca no contexto mais amplo da luta pelos direitos das mulheres rurais na América Latina. “Eu vejo isso como parte da luta pelo reconhecimento do trabalho das mulheres”, declarou ela, “e pela maneira como as mulheres rurais garantem o sustento em suas comunidades”.
As mulheres também puderam usar as cadernetas para obter um documento chamado DAP (Declaração de Aptidão ao PRONAF), que permite que elas se beneficiem de financiamento para a agricultura familiar e participem de um programa governamental de aquisição de 30% de alimentos de pequenas propriedades familiares para merenda escolar.
As cadernetas ajudaram as mulheres nas áreas rurais a se verem de maneira diferente e forçaram os homens a valorizá-las. Em um país onde o progresso nos direitos das mulheres tem sido lento, essa é uma mudança importante. “Podemos ver mais empoderamento das mulheres, um aumento em sua autonomia a partir do momento em que elas podem ver sua própria produção”, disse Cardoso. “Parece simples, mas é fundamental [tirá-las] da subjugação.”