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SAÚDE INDÍGENA: crise e mudanças climáticas favorecem adoecimento mental dos povos originários

Foto: Alez Pazuello/Secom

Diante da crise ambiental com recordes de temperaturas e eventos climáticos extremos, os povos originários e seus modos de vida são afetados diretamente pelas mudanças dos ecossistemas, o que colabora para o adoecimento mental dos indígenas. Segundo um estudo da Fiocruz com a Universidade de Harvard, publicado na revista Lancet Regional Health – Americas, no Brasil, a taxa de suicídio entre os povos indígenas é quase três vezes maior do que entre as pessoas não indígenas. Essa situação é ainda mais grave em estados como o Amazonas e o Mato Grosso do Sul. Esses dados mostram como as violências que os povos indígenas sofrem há muito tempo, e que ainda continuam hoje, afetam diretamente a saúde mental. A crise socioambiental tem piorado esse cenário, aumentando os casos de depressão, suicídio, automutilação e o uso de álcool e drogas nas aldeias

Durante a Cúpula Ambiental Estocolmo+50, a Organização Mundial da Saúde, OMS, divulgou uma análise pedindo que os países incluam o cuidado com a saúde mental nas ações contra as mudanças climáticas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, IPCC, também alertou que as mudanças no clima, cada vez mais rápidas, representam uma grande ameaça para a saúde mental e o bem-estar das pessoas, especialmente para os grupos mais vulneráveis, como os povos indígenas. O Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS destacou que os impactos das mudanças climáticas estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia, mas ainda existe muito pouco apoio voltado à saúde mental das pessoas e comunidades que enfrentam os perigos do clima e os riscos a longo prazo.

Queimada no território Hunikuin, em Rio Branco (AC) – Foto: Denisa Starbova

Um estudo científico elaborado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica com apoio do governo brasileiro e da Unesco revelou que o Brasil quase dobrou o número de desastres climáticos anualmente desde 2020 na comparação com as duas décadas anteriores. Segundo os dados, os desastres climáticos no Brasil aumentaram 250% nos últimos quatro anos (2020–2023), com o total de 4.077 registros por ano. A pesquisa ainda mostrou uma correlação destes desastres com o aumento de temperaturas dos oceanos de aproximadamente 0,3°C a 0,5°C, o que levou a eventos extremos, como furacões e inundações, afetando milhares de vidas. Entre os exemplos, estão as secas no Centro-Oeste e as inundações no Rio Grande do Sul em 2024.

Para efeito de comparação, foram registrados 6.523 desastres climáticos em cidades brasileiras na década de 1990, enquanto entre 2020 e 2023, o número de eventos alcançou 16.306. Desde 1990, o Brasil registrou 64.280 desastres climáticos, com um aumento médio de 100 eventos por ano. Nos primeiros dez anos de monitoramento, a média foi de 725 registros anuais. Entre 2000 e 2009, o número subiu para 1.892 registros por ano; de 2010 a 2019, passou para 2.254 por ano, e nos últimos quatro anos (2020 a 2023), a média chegou a 4.077 registros anuais.

As enchentes do Rio Grande do Sul, que causaram a morte de mais de 180 pessoas, estão entre os desastres climáticos de 2024. Casas no bairro do Lami, em Porto Alegre (RS), foram engolidas pelo repique do rio Guaíba –  Foto: Vitor Shimomura

As secas foram as ocorrências mais frequentes, correspondendo a 50% dos registros, seguidas por inundações, enxurradas e enchentes, com 27%, e tempestades, que totalizaram 19%. As secas, em particular, têm se intensificado nos últimos anos, afetando principalmente as regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Essas secas prolongadas têm causado sérios impactos na agricultura, no abastecimento de água e na qualidade de vida das comunidades tradicionais e indígenas, além de agravar problemas econômicos em muitas áreas.

As mudanças climáticas prejudicam o modo de vida dos povos indígenas, comprometendo a caça, a pesca e a agricultura – Foto: Amri HMS/CCommons

As mudanças climáticas têm causado impactos visíveis no cotidiano das populações indígenas. Entre os efeitos observados estão a escassez de peixes nos rios, a dificuldade crescente para trabalhar na roça devido ao calor intenso, a perda de plantações pelo sol escaldante e os desequilíbrios na fauna local, como os ataques frequentes de caititus às roças de mandioca e o apodrecimento de manivas. Além disso, há o relato de alterações nos padrões climáticos, com aumento de temporais com muitos trovões e raios, mas com menos chuva do que antigamente. O clima, antes mais previsível, tornou-se instável, dificultando a organização dos ciclos de plantio e a pesca, afetando diretamente a segurança alimentar e o modo de vida tradicional.

Foto: Will Baldine/ Jornal de Piracicaba

Esses impactos não são apenas materiais, mas também emocionais: a perda de referências naturais, de alimentos e de estabilidade provoca sentimentos de insegurança, tristeza e medo nos povos indígenas. O sofrimento mental se agrava quando as famílias precisam sair das aldeias em busca de sustento em cidades, onde enfrentam preconceito, pobreza e o rompimento com seus modos de vida e valores culturais. Os eventos climáticos extremos contribuem para o adoecimento mental, a perda de identidade e o enfraquecimento das tradições indígenas, que dependem do vínculo com o território, com a natureza e com os saberes ancestrais.

Foto: Daniela Huberty/COMIN

Logo, a demarcação dos territórios indígenas é uma medida urgente e muito importante. Ela ajuda a diminuir os efeitos das mudanças climáticas, porque os povos indígenas cuidam da floresta e da natureza. Além disso, a demarcação evita conflitos e atos de violência causados pela disputa de terras, como invasões de pistoleiros e desmatamento. Quando os indígenas têm suas terras garantidas, eles podem viver com mais segurança, manter suas tradições e continuar plantando, pescando e passando seus conhecimentos para as próximas gerações. Isso também faz bem para a saúde mental, porque o medo de perder a terra, de sofrer ameaças ou de ter que sair da aldeia causa muito sofrimento, tristeza e ansiedade. Já quando o território está protegido, os indígenas se sentem mais tranquilos, confiantes e conectados com sua cultura e seu modo de vida. Por isso, demarcar as terras indígenas é uma forma de cuidar das pessoas, da cultura e da natureza ao mesmo tempo.

Manifestação contra o marco temporal no Acre – Foto: Sérgio Vale

A crise climática não afeta apenas o meio ambiente, mas também a vida, a saúde e o bem-estar dos povos indígenas. Os impactos das mudanças no clima têm destruído a natureza, ameaçado o modo de vida tradicional e causado sofrimento emocional nas aldeias. Por isso, é muito importante que o STF decida pela inconstitucionalidade do marco temporal, reconhecendo o direito dos povos indígenas às suas terras tradicionais, independentemente da data em que foram ocupadas. Garantir esse direito é essencial para proteger os territórios e salvar vidas.

Por isso, a CONAFER por meio da Secretaria Nacional de Povos, Comunidades Tradicionais e Política Social, a SEPOCS, apoia de forma permanente o marco ancestral contra a inconstitucionalidade do marco temporal. Além disso, a SEPOCS segue apoiando práticas sustentáveis, como a agricultura familiar nas aldeias, e ações de saúde voltadas para os indígenas. A Confederação acredita que as terras indígenas são reservas naturais de conservação do meio ambiente e, diante da atual crise climática, a demarcação de terras indígenas é o melhor caminho para os povos originários e para toda a sociedade.

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