da Redação

À medida que avançamos sobre as florestas, destruímos o meio ambiente e causamos novas pandemias 

O desmatamento é atualmente um dos grandes desafios a serem enfrentados pela humanidade. Faz pelo menos duas décadas que cientistas alertam que, à medida que populações avançam sobre as florestas de forma desordenada e agredindo o meio ambiente, aumenta o risco de micro-organismos migrarem para o cotidiano humano e surgirem novas doenças.

A maioria das novas doenças infecciosas que afetam os seres humanos, incluindo o vírus SRA-CoV2 que causou a atual pandemia de Covid-19, são zoonóticas e seu surgimento pode estar ligado à perda de habitat natural devido ao desmatamento e à expansão das populações humanas para regiões de florestas, o que aumenta a exposição humana à vida selvagem, alertam cientistas que estudam o tema. Pelo menos 70% das enfermidades registradas desde a década de 1940 tiveram origem em animais, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, a FAO. 

Desde 1990, estima-se que cerca de 420 milhões de hectares de florestas tenham sido perdidos. Entre 2015 e 2020, a taxa de desmatamento está estimada em 16 milhões de hectares por ano, contra 10 milhões de hectares por ano no período entre 1990 e 2014. África e América Latina lideraram essa destruição. No caso latino-americano, o desmatamento chega atualmente a 2,5 milhões de hectares por ano. 

Foto: Cetesb-SP

A exploração dos recursos naturais acontece desde os primórdios da humanidade. Contudo, na medida em que a sociedade desenvolveu-se, essa exploração intensificou-se, colocando em risco o equilíbrio do planeta e comprometendo o suprimento das gerações futuras. O desmatamento é um dos maiores problemas ambientais e de saúde da atualidade. Dados da FAO revelam que a queima de florestas para a produção de monoculturas e a pecuária, por meio do aumento dos pastos extensivos, somados às ações de madeireiros e mineradores, estão destruindo irremediavelmente ecossistemas em várias partes do planeta.

LEIA TAMBÉM:

Demarcação de terras indígenas pode salvar Amazônia, diz maior estudo já feito sobre desmatamento

Fundos globais exigem redução do desmatamento e proteção aos povos indígenas para investir no Brasil

No Brasil, vivemos um momento de desmonte da fiscalização ambiental. O desmatamento na Amazônia bateu recorde no primeiro trimestre de 2020, com mais de 700 km² de áreas devastadas. Relatório da FAO indica que o Brasil é o país que mais perdeu área de floresta na última década, seguido por República Democrática do Congo, Indonésia e Angola. Os dados são do relatório anual “Avaliação Global de Recursos Florestais”.

Segundo o documento, o Brasil perdeu 1,5 mil km² de floresta a cada ano na última década (2011-2020). Entre 1991 e 2000, a perda total foi estimada em 3,78 mil km², ou 378 km² por ano. Já entre 2001 e 2010, a perda total foi estimada em 3,95 mil km², ou 395 km² por ano. Hoje, o Brasil ainda possui 12% da cobertura florestal do mundo.

Estudos feitos no Brasil também identificam a relação direta entre o desmatamento na Amazônia e o aumento na ocorrência de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%. Também o aumento da incidência de leishmaniose se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento. A pesquisa levou em conta dados de 773 cidades obtidos pelo Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia entre 2004 e 2012.

A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas não entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos causadores de doenças. Conter o desmatamento parece óbvio, no entanto, muitos países colocam as questões econômicas à frente dos seus patrimônios ambientais. Porém, é fundamental ressaltar que precisamos avançar para um modelo sustentável de desenvolvimento. E esse é atualmente um dos maiores desafios da humanidade.

A CONAFER acredita que não é necessário desmatar florestas para produzir alimentos. É possível alcançar uma agricultura sustentável, com segurança alimentar e responsabilidade ambiental, a partir da intensificação da atividade agrícola familiar e da adoção de medidas de proteção social. Para isso, deve-se garantir acesso à terra com regulação do uso, financiamento e investimento adequados e colaboração intersetorial para uma prática agrícola sustentável.

Assim, a CONAFER trabalha com os agricultores familiares na preservação da natureza por meio de práticas agroflorestais. Desse modo, incentiva a criação de projetos de desenvolvimento aproveitando os recursos naturais com equilíbrio, protegendo as florestas e cerrados das queimadas e desmatamentos, usando a água sem desperdício e a adoção de uma prática responsável de agricultura.

Trabalho extrativista da coleta da castanha-do-brasil resiste em integração ancestral com a floresta amazônica. Foto: National Geography

Capa: Conexão Planeta

Leave a Comment